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março 25, 2005
Mais uma apropriação indevida da Igreja Católica
Por: Daniel Arruda
A Páscoa é a principal festa dos judeus, celebra-se o êxodo e a libertação do povo de Israel da escravidão a que foi sujeito pelos egípcios.
Depois de ter sida criada a seita católica o discurso ficou mais ou menos assim.
Para os cristãos, a Páscoa é dos eventos mais importantes do ano, celebra-se a Ressurreição de Cristo, crucificado para a libertação dos homens do pecado original. Durante a Semana Santa acontecem procissões e novenas que representam os momentos mais dolorosos da vida de Jesus. Os rituais normalmente representam a Crucificação, a Morte e a Ressurreição de Cristo.
O domingo anterior ao domingo de Páscoa é o domingo de Ramos, e é quando se benzem os ramos de palmeiras e se celebra a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém. Em muitas regiões do Mundo, a Sexta-feira Santa e o Domingo de Páscoa são celebrados com manifestações de figurantes vestidos como no tempo de Jesus ou com imagens de Jesus crucificado, esta celebração mostra uma fusão de elementos pagãos e cristãos, como a famosa "Diavolata" que acontece na Comarca de Palermo e Catânia em Itália, (representa a luta entre o bem e o mal na tentativa do demónio impedir Maria de encontrar Jesus ressuscitado).
Publicado por Troll Urbano às março 25, 2005 03:53 PM
Comentários
I) Então Cristo foi crucificado para a libertação dos homens do pecado original? Hmm...
II) E como se fazem novenas na Semana Santa? Primeiro: é falso. Segundo: uma novena são nove dias; como se metem nove dias numa semana?
III) E uma pequeníssima correcção: a Páscoa não é simplesmente «dos eventos mais importantes do ano». Para os cristãos é «o» evento mais importante. O Natal e outras celebrações só têm importância à luz da Páscoa.
IV) Talvez haja apropriações indevidas em muitas partes. A «apropriação» de má-(in)formação e o uso de termos depreciativos e injustos não é propriamente um exemplo de «urbanidade».
Publicado por: Alef às março 27, 2005 05:41 PM
Alef, vai-me desculpar mas qual foi o termo desapreciativo que eu utilizei?
Quanto ao resto, deixe-me dizer que a mim como ateu convicto esse discurso religioso é como música para os meus ouvidos. Não me convence mas sabe sempre bem ouvir os argumentos do "outro lado"
Publicado por: Daniel Arruda às março 27, 2005 10:54 PM
Caro Daniel:
O termo depreciativo que «denuncio» é o de «seita católica». O facto de ser ateu ou de outra religião não confere ao Daniel o «direito» de usar esse termo sem que ele deixe de ser depreciativo. Mas não só: é também um termo incorrecto. Qualquer estudioso do fenómeno religioso, mesmo ateu, lhe poderá explicar isso. «Lembro» que «seita» é um termo que se usa cada vez menos, mesmo quando nos referimos a grupos considerados sectários (veja-se a etimologia da palavra), preferindo-se a designação de «novos movimentos religiosos».
Diz ainda: «Quanto ao resto, deixe-me dizer que a mim como ateu convicto esse discurso religioso é como música para os meus ouvidos. Não me convence mas sabe sempre bem ouvir os argumentos do "outro lado"». Pois bem, o meu discurso (refiro-me às três primeiras alíneas) não era religioso, mas simplesmente «descritivo», que poderia ser proferido por um ateu. Descrevi o que diz a «teologia» católica sobre os assuntos que referiu, para chamar a atenção para incorrecções. Não é preciso ser crente para saber isso. Não é pelo facto de ser ateu que passa a ser verdade que se fazem novenas na Semana Santa ou que a «seita católica» se apropriou indevidamente da Páscoa dos Judeus.
Aproveito então para dizer algo mais, sobre este tema, o da «apropriação indevida». Não tem sentido a afirmação de que a Igreja Católica se apropriou da Páscoa Judaica e explico rapidamente por que razão não tem sentido. Tal afirmação supõe a existência da Igreja Católica «antes» da «Páscoa» (para X se apropriar de algo, X tem que existir antes desse algo). Ora, isto não tem sentido porque o Cristianismo nasce precisamente da vivência de uma Páscoa judaica que foi totalmente diferente. O Cristianismo nasce da Páscoa (ou pelo menos de «uma» Páscoa), de uma Páscoa que se «transforma». Não existe nenhum Cristianismo que «importe» uma Páscoa pré-existente. Isso é absurdo. Sem Páscoa não haveria Cristianismo.
E já agora, mais um elemento. As festividades pagãs que refere neste «blog», de onde passaram muitos elementos para a «parafernália simbólica» da Páscoa (sobretudo comercial) de hoje são na sua maioria festas da Primavera, mas não têm nenhum dos elementos decisivos da Páscoa judaica e cristã. Apenas alguns pontos de coincidência. De resto, é errado dizer que a «Páscoa» é também uma festa pagã. Não o é, nunca o foi. «Páscoa» («Pessah») é uma celebração de origem semita, que significa «passagem», que tem um referente muito concreto entre os judeus e também entre os cristãos. Coincidências de datas e de alguns elementos não significam apropriação, nem causa. E convém saber distinguir o essencial e o acessório. E acessório são vários dos elementos por aqui referidos, que não têm lugar na simbologia judaico-cristã: coelhos, ovos e por aí fora.
Uma coisa é que não se acredite; outra é que se digam coisas ao acaso, como se tudo valesse. Não vale tudo. E para dizer que não se acredita nem era preciso tanto esforço. ;-)
PS.: Nada disto é para «convencer» quem quer que seja. Mas um pouco de rigor não faz mal.
Publicado por: Alef às março 28, 2005 10:26 PM
Caro Alef, mais uma vez lhe peço desculpa mas dado que o problema estava na palavra seita transcrevo aqui o que pode encontrar em qualquer dicionário e que é a definição da palavra. Diz então o dicionário: "doutrina ou sistema que se afasta da crença geral; conjunto de indivíduos que professam essa doutrina; partido, facção;
bando."
Pode me acusar de muita coisa. Pode dizer que esta definição não está correcta para aquilo que acha que é a Igreja Católica Apostóloica Romana mas não poderá dizer que o termo seita é desapreciativo, pois não o é.
Diz ainda e sobre o mesmo tema que “mesmo quando nos referimos a grupos considerados sectários”, não se usa essa expressão. O que é a Igreja Católica Apostóloica Romana senão sectária. Uma instituição que exclui mais do que inclui.
Recorrentemente escreve que a Páscoa é a razão de ser do Cristianismo, e nessa perspectiva era bom saber-se o que aconteceu realmente nessa altura. Para si, e respeito essa opinião houve uma crucificação de alguém santo e postrior ressureição. (sei que é muito abreviado mas compreenderá decerto as razões para não tornar este comentário mais longo). Não há provas sem ser a Bíblia que foi escrita passados alguns séculos, mas o Alef acredita, eu volto a dizer, respeito. Para mim, existiu uma pessoa chamada Jesus de Nazaré, que viveu e que era um “revoltado” contra as práticas da época. Note que não nego a existencia de uma personagem histórica com o perfil de Jesus de Nazaré e não Cristo como para os católicos. Essa personagem foi segundo as leis da época punido com a cruz. Facto normal para a época. A partir daí nada mais está provado e é devido a isso que digo que não havendo facto que justifique a existencia de uma Páscoa Católica esta resolveu apoderar-se de uma festividade pagã ou judaica ou seja lá o que for para justificar a sua própria religião. Aliás, se for consultar na net verá que a igreja começou a celebrar a páscoa apenas quase 400 anos depois da suposta ressureição de Jesus de Nazaré. Mais e se continuar a consultar a net verá que a própria data da páscoa é decalcada de um calendário de festividades pagãs e que começam no S. Martinho católico ou como eu prefiro no Carnaval que começa a 11-11 de cada ano. (vou falar deste tema numa posta mais acima por isso não vou escrever aqui) e que muito díficilmente Jesus de Nazaré poderia ter sido crucificado na Páscoa mas sim uma boas semanas antes, por volta do mês de Fevereiro. Isto a fazer fé na obra literária que é a Bíblia.
Por outras palavras, A Páscoa Católica para mim é uma apropriação, criado de um facto não explicado que é a ressureição de Jesus, colada a uma data que não é correcta e que só foi utilizada porque já existia aí uma festividade que era grandemente festejada.
Vou só fazer um reparo ao seu último parágrafo. Já viu que não aceita que haja outra celebrações nesta época. Diz que nada têm a ver com a Páscoa. Se calhar até tem razão. Mas na sua forma de discurso parece que são os outros que têm festejos mais antigos que a Páscoa que estão mal. Errado. O que está mal é querer-se fazer dos festejos Católicos Apostólicos Romanos a medida de todas as coisas. Diz que os coelhos e os ovos são acessórios. O coelho que já era uma figura utilizada no Antigo Egipto nestes festejos da Primavera é acessório. Porquê? Porque não se enquadra no conceito Católico Apostólico Romano. E os ovos? Idem só que na China.
Uma ultima nota. Sabe porque é que eu escrevo sobre os fenomenos religiosos. Exactamente porque não consigo aceitar que em 2005dc a Igreja Católica Apostólica Romana continue a ter as mesmas práticas que em 400dc e a querer ter o monópolio de um festejo que nem sequer é seu.
PS: Desculpe os erros mas não corregi o texto, está como saíu.
Publicado por: Daniel Arruda às março 29, 2005 09:16 AM
Caro Daniel:
A definição do dicionário está correcta, embora muito incompleta. Mas o uso que faz do termo não corresponde à definição do dicionário. Refere-se à exclusão, mas não é isso que define uma seita, mesmo que as seitas sejam exclusivistas (significa isto apenas quem nem tudo o que exclui é seita; seita define-se por outros aspectos). [Um exemplo: qualquer partido político exclui os que não seguem as suas linhas de pensamento e isso não transforma necessariamente os partidos políticos em seitas.]
Ainda quanto à Páscoa, ela é celebrada desde que o Cristianismo é Cristianismo. Basta ver os textos de S. Paulo e os Actos dos Apóstolos. A carta mais antiga de S. Paulo é seguramente escrita pelo ano 50 (cinquenta) d.C. Paulo e todos os cristãos de todas as comunidades cristãs celebravam a Páscoa de Jesus. É da crença na ressurreição que nasce o Cristianismo e essa crença celebra-se na Páscoa, e em cada domingo, porque, em rigor, em cada domingo celebra-se a Páscoa de Jesus e não apenas na data anual. É completamente falsa essa «informação» da Páscoa ser celebrada apenas 400 anos depois dos acontecimentos de Jerusalém. Também é falso dizer que os escritos do Novo Testamento tenham sido escritos séculos depois da morte de Jesus. Na melhor das hipóteses, alguém está a confundir a escrita dos textos com a definição final do cânon. Não confie em tudo o que vê na net. A suposta transposição da morte de Jesus para outra data não tem qualquer base histórica; é imaginativa, mas tem em seu desfavor quer documentos cristãos, quer judeus. De modo nenhum a Bíblia lhe permite concluir que a morte de Jesus se deu umas semanas antes da Páscoa dos Judeus. Bem pelo contrário.
Faz uma interpretação equivocada do que eu penso quando diz: «Vou só fazer um reparo ao seu último parágrafo. Já viu que não aceita que haja outra celebrações nesta época». Nada disso. O que eu disse e mantenho é que a Páscoa é uma celebração genuinamente judaica e cristã. Isso não «impede» que haja celebrações pagãs (ou de outros tipo) que coincidam no tempo. Simplesmente não são a Páscoa, são outras coisas. É verdade que o Cristianismo se tornou uma religião «global» e muitas dessas tradições pagãs perderam o carácter estritamente religioso que tinham, enquanto alguns dos seus símbolos se juntaram as aspectos exteriores da festa cristã da Páscoa. É o caso dos tais acessórios que referi (coelhos, ovos, flores, etc.). Que o coelho e os ovos sejam elementos fundamentais nalguma forma pagã, aceito. Que se diga que a Páscoa cristã ou católica é uma importação da «festa do coelho» (ou da Primavera), isso é falso. A Páscoa cristã é a celebração (para quem crê, evidentemente) da morte e ressurreição de Cristo. Sempre o foi, desde o princípio. É verdade que alguns elementos celebrativos apareceram séculos mais tarde, mas isso não significa que antes não se celebrava a Páscoa; significa apenas a introdução de um «módulo» em algo que já existia. Dou um exemplo: as celebrações pascais de Vigília Pascal (Sábado à noite) têm como elementos típicos (entre outros) a bênção do fogo e do círio, o baptismo, que provavelmente no primeiro século se faziam noutro momento. Mas já havia a celebração da Páscoa, nos «ágapes», que aí, sim, está o essencial do essencial: a celebração da ressurreição de Jesus.
Ainda sobre ovos e coelhos, quero dizer mais alguma coisa. Diz: «O coelho que já era uma figura utilizada no Antigo Egipto nestes festejos da Primavera é acessório. Porquê? Porque não se enquadra no conceito Católico Apostólico Romano». Curiosamente, engana-se, caro Daniel. Estes símbolos são acessórios, sim, mas podem ser recolhidos sem qualquer dano, desde que não se esqueça que são apenas acessórios, logo, não essenciais. O ovo é sinal de uma vida nova que nasce e não faltou quem visse aí um símbolo da ressurreição. O mesmo se diga do coelho. A saída do coelho das tocas, depois de um longo inverno, é também sinal de uma nova etapa, da vida que surge da escuridão da terra, outro belo sinal da ressurreição. De resto, foi isto que aconteceu com muitos elementos culturais de origem pagã que foram «cristianizados». É o caso, já por aqui referido, do Natal, que foi basicamente uma cristianização da festa pagã ao «sol invictus». Não foi difícil, dado que o Messias é anunciado no Antigo Testamento como «sol de justiça». Quando as religiões pagãs foram perdendo a sua representatividade social, passou-se a recordar o nascimento do «sol de justiça», Jesus Cristo. Nesta festa, o «Dies Natalis Solis Invicti», sim, houve arbitrariedade na data e na própria celebração. O Natal não foi celebrado pelos primeiros cristãos e o presépio é uma invenção medieval, ao que parece de S. Francisco de Assis. É bem possível que Jesus não tenha nascido no Inverno, pois isso impediria os pastores de pernoitarem no descampado. Mas tem sentido que os cristãos celebrem o Natal, ou não poderão celebrá-lo? De resto, não lhes faltam boas razões para o fazer.
Com muita mais razão, a Páscoa é uma celebração genuinamente cristã. Com o aspecto muito importante de não ser arbitrário, mas absolutamente essencial. [Para o Cristianismo, Páscoa é muitíssimo mais importante que o Natal.] O facto de haver outras religiões que celebrem algo por esta época não estabelece uma linha da causalidade. Coincidência e sequência temporal não significam necessariamente linha causal e dependência.
Ao celebrar a Páscoa, os cristãos não pedem exclusividade, coisa nenhuma. Celebram simplesmente os seus fundamentos. Se os não cristãos celebram outras coisas, que o façam; poderão até chamar-lhe «Páscoa», mesmo que o termo seja incorrecto (porque não celebram nenhuma «Pesah»). Mas não tem qualquer sentido dizer que a Páscoa cristã é uma usurpação de uma festa alheia. Mais ninguém, além dos cristãos, celebra a morte e ressurreição de Jesus. Isto é a Páscoa cristã.
Outro aspecto: a Páscoa não pretende «provar» a ressurreição. Nada o poderá fazer. É uma questão de fé num testemunho dado. Uns crêem, outros não. E nisto de crer ou não crer, estamos mais ou menos no mesmo barco em termos de dificuldades. E se é difícil ser crente, não é nada fácil ser ateu. É também uma questão de «fé»! ;-)
Publicado por: Alef às março 29, 2005 10:54 AM
Alef, começo a achar que estamos a entrar numa espécie de beco. Por um lado você continua a basear toda a sua fundamentação na fé (sem muito fundamento histórico). Quer na fé em "cristo" quer na fé que os dados teológicos por si descritos são verdade e que pôe a Igreja católica apostólica Romana em plano de superioridade em relação às outras crenças e ás não crenças. É um direito que lhe assiste como cidadão e como católico.
Eu continuo a basear a minha opinião na ausencia de fé ( com a História que corrobora as ideias) e no reconhecimento dos rituais não religiosos como a causa das coisas e defendo por isso que a Igreja Católica apenas usurpou as festividades seculares para dar credibilidade á sua teoria e para dar força ao desejo hegmónico que esta Igreja ainda hoje tem e que sustenta entre outros as cruzadas de George W. Bush. (mas isso seria outro tema).
O Alef reconhece isso mesmo quando dá o braço a torcer quanto ao Natal. Só que aí as evidencias são maiores. A Igreja usou as datas de outros credos e de coisas sem credo nenhum. Mas estas apropriações vão continuar a haver. Agora é a vez das marcas se apoderarem do Natal esvaziando-o progressivamente tal como a Igreja fez há anos atrás e possívelmente aparcerá no futuro outra coisa que esvaziará o consumismo das marcas actualmente em vigor.
Pense, porque será que cada vez menos pessoas são católicas praticantes. Porque será que se celebram cada vez menos missas, porque será que entram menos pessoas nos seminários. Porque será que se passa o inverso com a maioria das outras religiões. Porque estão a fazer á Igreja Católica Apostólica Romana o mesmo que esta fez há muitos séculos atrás ás outras seitas.
Mais uma vez discordo que si quando diz que é difícil ser crente e também deve ser difícil ser Ateu. Ser crente é fácil. Basta acreditar. Ter fé. É aceitar como verdade tudo aquilo que nos é proposto sem questionar. Acredito que sei do que falo. Sou batizado, fiz a 1º comunhão, até que um dia me qustionei sobre algumas coisas e fizeram-me perceber que o meu lugar não era ali, um pouco á semelhança de alguns partidos políticos.
A seguir tive de ler, de ter trabalho a descobrir respostas paraas dúvidas que se levantavam e nessas alturas não existe instituição que ajude. É uma pessoa por si só.
Por isso lhe digo, ser religioso é fácil, o díficil é ser-se ateu, ainda mais num país laico em que a Instituição igreja ainda é um poder.
Publicado por: Daniel Arruda às março 29, 2005 11:30 AM