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abril 26, 2005

Abril ainda não está enterrado

Por: Daniel Arruda

Não sei se alguém teve paciência para assistir ás cerimónias parlamentares do 25 de Abril. Eu sei que não é fácil, mas há pessoas como eu que são nalgumas matérias masoquistas.

Dessas cerimónias retiro um facto. É que nem todos em Portugal festejam a Liberdade. Quem ocupa cargos públicos como é o caso dos deputados, o mínimo que se exige é que estivessem no hemicíclo. Não foi o caso dos deputados do PPD-PSD e do CDS-PP, que primaram pela ausência. Nunca aquelas bancadas estiveram com uma lotação acima dos 50%. Eu compreendo que valores como a Democracia, Igualdade, Liberdade não sejam muito queridos a alguma direita portuguesa. Que as recordações do 25 de Abril de 1974 não sejam muito agradáveis. Que foi a data em que perderam o "Status Quo" que detinham.
Deputados como Nuno da Câmara Pereira que viram as suas terras ocupadas e que ontem resolveram demonstrar a sua indignação. Meninos como Nuno Melo que apenas sabem do 25 de Abril que foi uma tentativa de tornar Portugal um estado comunista e que impediu os sue papás de continuar a acumular fortuna.

Que não festejem a liberadade de uma maioria até compreendo, mas que o demonstrem na casa para onde foram eleitos com os direitos de Abril é que não me parece a melhor forma de demonstrar o seu desagrado com o fim da ditadura. Até D. José Policarpo marcou presença e todos sabemos a premiscuidade que havia (e há) entre a Igreja e o Estado Novo (A instituição e não o Cardeal, entenda-se).

Aliás esta posição de não querer ter nada a ver com a revolução de Abril ficou patente na intervenção do deputado do CDS-PP que resolveu vincar o corte geracional de quem fez e de quem usufrui da revolução.

É triste, é o país que temos, mas será que é o que queremos? Eu tinha 9 meses nessa noite de Quarta para Quinta Feira em que se deu o golpe militar. Será que tive alguma coisa a ver com a revolução. Nada. O que não me impede de estar eternamente grato a quem a fez, de querer conhece-los enquanto pessoas, saber o seu percurso, para que em cada altura possível poder homenagea-los. Não sou da geração de Abril. Sou fruto dela e não quero esse corte geracional.

A direita perdeu uma exelente hipótese de regenerar a sua imagem de arrogância iníciada com Durão Barroso em que explicitamente ficou claro que as conquistas de Abril eram coisas do passado e que o tempo era outro. Pela 2ª vez em 31 anos foi corrida pelo povo. Não precisava de ter demonstrado de forma tão clara a azia que lhe vai na alma. Reconheçam que o tempo mudou e continuará a mudar, mas que não será certamente no sentido da perca de direitos. Essa fase está a ser invertida. Já há quem fale em lutar. Aqueles que quiserem enterrar Abril não terão a vida facilitada. Muito pelo contrário.

Publicado por Troll Urbano às abril 26, 2005 11:59 AM

Comentários

Pois eu se tinha nascido dois meses mais tarde nascia no dia da revolução.
Mas sabes uma coisa de ano para ano a festa no Porto é pior. cada ano que saio à rua no 24 me dão motivos para não voltar no ano seguinte. E eu cada vez mais sinto o 25 como uma romaria. Em Lisboa é diferente (imagino) mas no porto começa a parecer-se com o 5 de Outubro.
Acho que é preciso festejar o 25 mas que é essencial dar uma volta nessas comemorações. Acho que o 25 só será uma festa para todas as gerações se se romper com esta lógica de que é uma festa para os resistentes (não apenas ao fascismo mas ao degredo que são as comemorações). O 25 deveria ser uma grande fesa popular, com conteúdo político, mas mais voltada para o futuro e não esta homenagem ritualizada que de facto começa a dizer muito pouco a todo o povo da esquerda, sobretudo os sub-30.

Publicado por: kollontai às abril 26, 2005 05:13 PM

Kollontai, essa ideia é justa, só não há quem a faça. Porque não juntar várias associações e pessoas singulares e propor algo do género. Não me parece por exemplo descabido que uma iniciativa popular desse género podia começar nos foruns sociais. Por ventura é preciso alguém dar o 1º passo para reinventar os festejos de Abril. Quem melhor que uma organizaçao jovem e nova que já está a reinventar a esquerda.
É um caso a falar e a estudar. A sério.

Publicado por: Daniel Arruda às abril 26, 2005 06:53 PM

4 aninhos, recém-chegado de Angola

Publicado por: Golfinho [TypeKey Profile Page] às maio 1, 2005 04:25 PM

Ate nem nos podemos queixar pois o 25 de abril rumou para o caminho certo e transformou-se nos pais que temos hoje. Podia ser melhor, mas tambem podia ser muito pior. Não nso podemos queixar.

Publicado por: xgold às maio 9, 2005 10:02 PM