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abril 27, 2005

As relações do PCP com os sindicatos na 1ª pessoa.

Por: Daniel Arruda

O texto a seguir é um pouco longo. Mas não encontrei o link para ele. Ou melhor, o link tenho, o texto é que já não está lá.

Refere-se a Jerónimo de Sousa imediatamente antes de ser eleito Secretário Geral do PCP e foi publicado pelo jornal oficial do PCdoB (Partido Comunista do Brasil)a 20 de Setembro de 2004. Acho que era bom fazer-se umas perguntas acerca deste texto ao dito senhor. Mas isso fica para depois. Quem quiser ler o texto que tire as suas próprias conclusões.

Por João Batista Lemos – secretário nacional sindical do PCdoB
Durante a recente viagem que realizei a Lisboa, para participar da festa do jornal "Avante", órgão central do Partido Comunista Português (PCP), tive oportunidade de manter, no dia 7 de Setembro, uma longa e produtiva conversa com o camarada Jerónimo de Souza, secretário sindical do PCP e deputado nacional (o equivalente ao nosso deputado federal), sobre o trabalho dos comunistas junto ao proletariado. Pude concluir que se trata de uma rica experiência histórica, com a qual o nosso Partido tem muito a aprender.
O diálogo, que devia durar apenas 40 minutos, estendeu-se por mais de duas horas. Inicialmente, informei ao camarada que o Comitê Central do PCdoB convocou o 2º Encontro Nacional sobre Questão de Partido para debater e definir uma estratégia de fortalecimento partidário entre os trabalhadores e fiz um breve balanço sobre a nossa experiência na classe operária a partir da organização no interior das empresas, a relação entre a acção do Partido e a acção sindical, a experiência da CSC na CUT, o debate em torno do conceito de proletariado — que o PCP também realizou durante o processo de preparação do seu 17º Congresso. Falei também sobre o estudo que estamos desenvolvendo sobre o que é o proletariado brasileiro, onde e como se concentra, seu perfil e outras características; estudo que tem por objectivo fornecer uma base mais científica para nossa intervenção entre os trabalhadores.
Revelando-se ao mesmo tempo surpreso e solidário com nossas preocupações e experiências, Jerónimo enfatizou que a acção do PCP entre os trabalhadores não é concebida como mais uma frente de trabalho, mas sim como uma questão estratégica. Todas as frentes e secções partidárias (política, organizativa, propaganda e ideológica) estão voltadas para fortalecer o Partido entre os trabalhadores.
"Temos um conceito integrado entre intervenção e organização", explicou. "Não concebemos a organização partidária de forma estática e burocrática, mas a partir da intervenção do Partido em torno de questões concretas ligadas às batalhas dos trabalhadores, cujo conteúdo fundamental é a luta pela valorização do trabalho e dos trabalhadores, que se materializa nas suas reivindicações: valorização dos salários, defesa dos direitos laborais, e dos direitos colectivos, férias, saúde do trabalho, redução da jornada de trabalho sem redução de salários, contratos de trabalho, direito da acção sindical".
Perguntei a ele quais foram os resultados e dificuldades que encontraram na acção do Partido. Souza me respondeu que essas acções fizeram com que a influência social do Partido seja maior do que a influência eleitoral, ressaltando as virtudes da organização comunista no interior das empresas. "Hoje temos hegemonia na maior central sindical dos trabalhadores de Portugal, a CGTP-IN, controlamos 70% de sua representação, conquistamos esta hegemonia porque sempre consideramos a empresa como área de trabalho e o local estratégico da organização do Partido, diferentemente do que aconteceu com o PCE, PCF e alguns outros Partidos da Europa, que confundiram dificuldade com impossibilidade e se distanciaram do local de trabalho, se deslocando para os bairros e distritos. Sem dúvidas é mais difícil de se trabalhar no interior das empresas, no entanto é a actividade mais realizadora, pois é ali que se dá o conflito directo entre o capital e o trabalho, onde os quadros se revelam durante uma greve ou qualquer luta que os trabalhadores travam contra o capital dentro das empresas. Em Portugal sofremos uma dramática ofensiva neoliberal. Com o avanço da Comunidade Europeia muitas empresas fecharam, até mesmo com 5 mil trabalhadores. Outras ingressaram em processo de reestruturação e terceirização, demitindo em massa. O sector naval, por exemplo, chegou a ter cerca de 30 mil assalariados, contingente hoje reduzido a 2 mil trabalhadores. Essa ofensiva atingiu profundamente nossas células no interior das empresas. Entretanto, como não confundimos essas dificuldades com impossibilidades, organizamo-nos para recomeçar da estaca zero".
E citou um exemplo concreto: "a Auto-Europa, fábrica da Volkswagen, que possui quatro mil trabalhadores(as) com idade média de 24 a 30 anos, formados(as) na 'bíblia' do capitalismo, através de um processo de formação profissional e ideológica a serviço da empresa. Começamos por um trabalho colectivo do sindicato dos metalúrgicos, através da sindicalização, depois deslocamos jovens da JCP para ingressarem na empresa, compusemos uma célula pequena de cinco camaradas, distribuímos materiais de propaganda, o 'Avante', e comunicados da célula, distribuídos na porta da empresa por outros trabalhadores de outras empresas, e hoje já temos uma célula com cerca de 30 militantes e centenas de sindicalizados".
Perguntei se estavam conseguindo organizar os operários técnicos e engenheiros. Ele me explicou que o Partido tem se deparado com "muitas dificuldades para organizar esses trabalhadores. Criamos, através da CGTP-IN, uma federação sindical de quadros técnicos e científicos, que ainda não conseguiu se firmar". Esclareceu ainda: "Procuramos reforçar a estrutura partidária com os trabalhadores mais destacados da luta, começando de baixo para cima, a partir do local de trabalho, da célula da empresa onde serão indicados quadros para compor a directoria dos sindicatos e por sua vez as direcções da CGTP-IN, num processo simultâneo ao fortalecimento das estruturas partidárias. Sem um forte trabalho dentro das empresas, é impossível disputar a hegemonia das organizações unitárias".
Souza me explicou que a frente sindical do Partido acompanha todo este trabalho do seguinte modo:
1 - Os comunistas da direcção da CGTP-IN se compõem em uma célula que é acompanhada directamente pelo Comitê Central, a célula discute todas as tarefas políticas e gerais do Partido.
2 - Um organismo de funcionários, que são quadros profissionalizados e ligados ao Comitê Central. acompanha os organismos de cada Federação Nacional, como metalúrgicos, professores, trabalhadores agrícolas, entre outros.
3 - Foi criada uma coordenação de estudo e elaboração de Políticas Públicas para os sectores e ramos como agricultura, energia, petróleo, saneamento, entre outros. Essa coordenação é composta por intelectuais, técnicos e trabalhadores do ramo ou empresa do sector.
4 - A Comissão Sindical, responsável pelo trabalho geral do Partido na frente sindical, é composta por 20 membros, representativos de diversas áreas em âmbito nacional. Recolhe e promove informações dos principais problemas, as mudanças que ocorrem na realidade e o estágio de organização do ramo de actuação. Elabora propostas para o CC e para a CGTP-IN.
Perguntei como enfrentam os problemas ideológicos que surgem nas direcções sindicais. Souza respondeu: "Combatemos a tendência de sindicalização do Partido, procuramos formar as direcções sindicais não só como bons sindicalistas, mas principalmente como comunistas". Duas questões fundamentais foram levantadas por Jerónimo:
1 - Somente as discussões colectivas nos organismos partidários condicionam as lideranças a se manterem como comunistas.
2 - É preciso desenvolver o sentido dialéctico entre a acção de massas, acção institucional e a intervenção do Partido. Não pode haver contradições entre a acção do Partido na frente institucional com a luta pelos direitos dos trabalhadores.
Jerónimo finalizou seu depoimento com muita ênfase e clareza, observando que em Portugal houve uma revolução, a Revolução dos Cravos ou Revolução de Abril (em 1974): "Antes da revolução, o Partido criou raízes dentro das empresas. Eu mesmo trabalhava dentro de uma empresa metalúrgica e o Partido me indicou para disputar a direcção de um sindicato dirigido pelos fascistas. Conseguimos conquistar a direcção do sindicato na clandestinidade, apesar do fascismo. Nas fabricas, durante o processo revolucionário, fervilhava a luta política dos trabalhadores e assim surgiram centenas de comissões de empresas. Eram cerca de 900 comissões na época da revolução. Hoje - depois da reestruturação neoliberal - são cerca de 300 legais, pois a legalização foi conquistada na Constituição através da Revolução de Abril, como também o salário mínimo nacional e a reforma agrária, etc. Os neoliberais querem desregulamentar e destruir essas comissões, assim os direitos sociais".
Actualmente, o PCP dirige a maior parte das comissões e a CGTP-IN. Jerónimo ressalvou que apesar desses êxitos os comunistas enfrentam muitas dificuldades para identificar o Partido com a luta e as aspirações da classe operária e dos demais trabalhadores, por isso sempre procuram realizar campanhas próprias do Partido em torno de suas reivindicações, como foi o exemplo do abaixo assinado por aumento real do salário mínimo nacional, para o qual colheram 100 mil assinaturas em três meses.

Publicado por Troll Urbano às abril 27, 2005 02:26 PM