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junho 22, 2005
As memórias que um livro nos aviva
Por: Daniel Arruda
Tenho um mau hábito que é o de pôr "post-it" nos livros e marcar passagens que me interessem ou que eu ache serem importantes. No outro dia resolvi pegar num livro que já estava sem ser mexido vai para muito tempo. o livro é de António de Almeida Santos e chama-se "por favor preocupem-se". Devo dizer que o livro editado em 1998 pela Notícias Editoria é muito agradável de se ler e parecia-me ser de alguém que realmente se preocupa.
Houve no entanto uma passagem que me chamou à atenção particularmente porque é um tema que está em voga hoje. O emprego.
Oiçamos então o que escrevia Almeida Santos em 1998:
"Creio que se encararmos o problema do emprego a uma nova luz e munidos de um novo estado de espírito. E que só pode ser este: o emprego tornou-se um bem escasso. As tentativas de inventar consumo para inventar produção para inventar emprego redundam noutras tantas ilusões. Pode, no imediato, parecer que resolvem. De facto, apenas adiam. E então? Então só nos resta a solução de redistribuir equitativamente o trabalho que há pelos que dele precisam. Como? Reduzindo o tempo de trabalho para libertar emprego"
O parágrafo é mais extenso mas a questão fulcral está aqui. A redução do tempo de trabalho. Como? Através da redução efectiva semanal, seja através da média mensal, semestral ou mesmo anual. Seja através da redução da idade de reforma ou do aumento das férias. Coloca-se a questão. E os custos desta redução seriam suportados na totalidade pelos empregadores. Não. Obviamente que não. Mas os efeitos a longo prazo permitiam um aumento substancial dos trabalhadores através do reencaminhamento de fundos (impostos) agora utilizados no apoio social para coisas que evitem despesa aos trabalhadores. Apoio escolar, medicamentos, rede viária gratuita, ......
Sei que a questão é complexa e não pode nem deve ser discutida com a leviandade com que o faço aqui hoje, mas uma pergunta deixo no ar aqui. O que diz Almeida Santos hoje deputado e dirigente do PS. Quais as objecções que ele tem levantado aos planos de Sócrates de aumentar o Tempo de Trabalho e da idade da reforma, que preocupações temos ouvido de Almeida Santos quanto á lei europeia da 65Horas Semanais, em relação á directiva Bolkenstein ou ao tratado de Constituição Europeia que dizem exactamente o contrário do que ele escrevia em 1998.
É fácil escrever da "boca para fora". O difícil é manter a coerência com as posições, quando se quer dar bem com Deus e com o Diabo. É pena que as carreiras fiquem manchadas por isto, (o livro, visto agora tem muito mais incongruências), mas cada um escolhe o caminho que quer.
Almeida Santos escolheu o da Lambada (dança Brasileira) dois passos á frente, dois atrás e sempre a rodar.
Publicado por Troll Urbano às junho 22, 2005 12:12 AM