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setembro 25, 2005
A vida do F
Por: Isabel Faria
Ok, muitos de vocês não conheceram o F. Mas o F foi famoso. Tenho a certeza. E mesmo que não o conhecessem e não tivesse sido famoso o F foi o meu ratinho e o ratinho do meu filho.
Veio cá para casa muito pequenino (agora era enorme nos seus 6 ou 7 cm de corpo e mais 6 ou 7 cm de rabo). Chamava-se F, porque foi comprado com a turma F toda presente. E veio dentro duma caixa de sapatos. Quando entrou em casa, o João Pedro, disse-me para tomar um calmante e para olhar só pelo buraquinho. Quando olhei achei logo que ninguém consegue ter uma coisinha má, tipo ataque cardíaco ou assim, frente a um bichinho do tamanho de meia palma da mão. Não tomei o calmante, não gritei e apaixonei-me logo ali. Paixão que se manteve ao longo de 3 anos. O meu rato passou por crises de crescimento, primeiro, de adolescência, depois, da maturidade e, por fim viu-se entrar na 3ª idade de ratinho. Que é parecidíssima com a nossa (salvo seja...só mais um cadito, se faz favor...). Houve alturas em que deixou de comer, outras em que deixou de brincar, outras ainda em que deixou de roer tubos de rolo de papel higiénico. Sempre achei que grande parte destas crises, para além das alterações físicas e psicológicas próprias da (s) idade (s), teve a ver com o facto de nunca lhe ter arranjado uma ratinha. Aliás, é a única coisa em que acho que não cumprimos cabalmente a nossa função de pai e avó adoptivos. Mas uma vez tinha visto uma Hamster ter uma ninhada de uns seres rosados e “despelados” e guardei o trauma, ao longo dos anos, não o conseguindo ultrapassar nem em nome do bem estar do meu ratito.
O F foi, então, ficando velhote. Continuava a comer. A beber. Ainda vinha sempre roer os nossos dedos quando nos aproximávamos, mas deixou de brincar, de roer tubos, e até, por fim, de tomar banho, coisa que fez religiosamente à hora do telejorrnal (vá-se lá saber porquê) durante quase três anos…
Na Quinta-feira à noite morreu. Não estávamos em casa. Tivemos que o guardar dentro duma caixinha fechada até esta manhã. Tinha que se fazer o funeral e não havia hipóteses de o fazer na Sexta.
Esta manhã fui de colher da cozinha numa mão e de caixinha de F na outra, enterrá-lo num canteiro do Jardim do Torel. Ficou mesmo virado para o Tejo. Eu fui a coveira e o meu filho fez-lhe uma cruz com dois pauzinhos (olhei um bocadito espantada, mas silenciosa...). Cobrimos a “campa” com as folhas amarelas que o Outono desprende das árvores.
Com tantos problemas graves no País e no Mundo...ok, eu sei, Mas o F era o nosso ratinho. E nós temos saudades dele. E mesmo desperta para eles (para os problemas graves do País e do Mundo) há sempre lugar para um pequeno ser de centímetros num lugarzito qualquer, aqui dentro. Quem tem um animal de estimação, sabe. Quem não tem, experimente.
PS: Desculpem o post de metros, mas ninguem conta uma vida em meia dúzia de linhas.
Publicado por Troll Urbano às setembro 25, 2005 12:45 AM
Comentários
há muita coisa que por ser pequenina é bastante importante... tudo é relativo na nossa vida, as coisas têm a importância que a gente lhes quiser dar, para o teu filho provavelmente o F era bastante mais importante do que saber se o Manuel alegre se vai candidatar ou não! A partir de certo ponto começamos também nós a ser assim, a dar importância às pequenas coisas da vida que nos fazem felizes e é bom que assim seja!
Publicado por: Farpas às setembro 25, 2005 01:18 AM
Tu escreveste "nunca lhe ter arranjado uma ratinha". Francamente. Se ainda fosse ratita, agora ratinha. Já viste o que as mentes mais pecaminosas podem pensar? Claro que eu não pensei nisso.
Agora a sério. É realmente curioso como nos afeiçoamos aos animais de estimação. E a falta que fazem quando os perdemos.
Publicado por: Daniel Arruda às setembro 25, 2005 02:12 AM
As vezes que eu, neste nosso afastamento, pensei em perguntar-te por esse animal, porque sabia que o prazo dele estava quase a expirar. Lamento que se tenha ido, mas, por certo, bom ratinho que foi, está no céu dos bons ratinhos. Um beijo, Isabel.
Publicado por: monty às setembro 25, 2005 02:20 AM
Pois é, Farpas. E o meu filho armado em forte , sem nada na voz que pudesse parecer estranho...apenas a procurar o lugar de onde se visse melhor o Tejo.
Daniel,desculpa lá se o F fosse um Rato muito grande era bem, pior. Sem inha, ficava mesmo...ok, ratinha, não faz mal a ninguém. E as almas pecaminosas não frequentam Blogs e deitam-se cedo e...sei lá. Achas que vá lá mudar? :):)
E afeiçoamos mesmo...se tu visses o drama para limpar e guardar a gaiola...só visto!!!
Monty, pois é. Eu sei que estava na hora dele.E cada dia estava mais velhinho e apagado. Nos movimentos, não no olhar com que nos continuava a fixar...a sério. Ele olhava para nós desde o primeiro dia que aqui chegou.
Olha, eu como nisso do céu, deixo um bocado a desejar...ajudei o meu filho a procurar o lugar com a vista mais bonita, no jardim. Não se dê o caso de ele ficar mesmo por ali...
Publicado por: isabel faria às setembro 25, 2005 02:44 AM
São sempre desgostos. Quando se conseguem contá-los como tu o fazes, parece que ficam mais leves porque partilhados assim, todos estamos contigo. Tens um dom maravilhoso, Isabel, de abrires o teu coração de um modo tal que toda a gente fica com a sensação de te ter conhecido toda a vida...
Também já enterrei animais de estimação. Um deles a chorar com lágrimas cara abaixo, porque era muito novinho, e eu não estava preparada. No outro, que teve uma vida tão completa como o teu F (obrigada pela explicação do enigmático nome ) já o desgosto foi menor apesar de a saudade, essa ser muito maior...
Coisa de afectos.
Publicado por: L.G. às setembro 25, 2005 09:36 AM
O texto é muito bonito e sabes porquê?porque escreveste de algo que muita gente hoje se esqueceu de fazer....VIVER!
Publicado por: Lino Raimundo às setembro 25, 2005 11:41 AM
Isabel (olá menina:))
O céu é mesmo ali onde vocês o deixaram. Tudo o que de bom fez e recebeu está lá, na eterna transformação do Universo. Ele não acabou, ele mudou de "forma", ocupa outra dimensão do espaço, e está também dentro dos vossos corações :)
Publicado por: bluegift às setembro 25, 2005 02:21 PM
Acho que as palavras do Lino dizem tudo.
Publicado por: The Wolf às setembro 25, 2005 03:30 PM
Blue, não resisto (deculpem lá todos, mas eu já venho)a começar por ti...tás aqui, mulher??? Aquizinho, no Troll a comentar a partida do meu F??? cum caraças ainda dizem que não há coisa boas nesta vida???
Obrigado pela visita, amiga...um xi-coração, daqueles bué de grandalhóes!!!!
LG, tu estragas-me sempre com mimos...acho que já estávamos preparados, sim. Mas, porra, pá...estou cheia de saudades de ouvir um barulho incessante de uns dentitos afiados a roer rolos de papel...
Lino e Lobo...aí está uma coisa que eu não me costumo esquecer...mesmo quando isso significa neuras de caixão à cova...
Publicado por: isabel faria às setembro 25, 2005 04:58 PM
Aquizinho Isabel :)
Não resisti às saudades ;) eheheh...
Um XXL xi-coração também para ti, Amiga :)
Publicado por: bluegift às setembro 26, 2005 09:37 AM
SRª Dona Isabel, as mentes pecaminosas andem por ai durante o dia.
Nem sabes o que te percebo relativamente a perder um animal de estimação. Já passei por isso 3 vezes. Acho que agora estou na hora de dizer chega.
Publicado por: Doomed às setembro 27, 2005 03:44 PM
Sr. Dom Doomed, não sei a partir de que altura passámos a este tom cerimonioso...mas curto!!!
Ninguém me chama assim...sou uma pobrezinha. Obrigado Doomed!!!;);)
Quanto às mentes...cadê????
Eu também...por uns tempos não vou querer nenhum bichito cá em casa...ainda andamos de ressaca.
Publicado por: isabel faria às setembro 27, 2005 09:19 PM