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setembro 29, 2005
Para uma menina
Por: Isabel Faria
Deve ter nascido um pouco antes do meu filho. Não deve ter tido tanto tempo para brincar. Possivelmente, quando eu comprava uma bola de futebol nova, ela não tinha uma Barbie. Possivelmente não pôde brincar para ficar a tomar conta dos irmãos mais novos. Como a sua irmã já deveria ter ficado a tomar conta dela, quando a mãe tinha que sair para trabalhar. Possivelmente não foi à praia, apesar de ter o mar ali ao lado, talvez não fosse ao cinema nem olhasse a Lua. Talvez tivesse sonhos. Se calhar sonhava com a casa que teria antes do fim do ano. Ou talvez não. Talvez não se sonhe no Fim do Mundo. Esta manhã, terminou a sua passagem. Juntamente com mãe e os irmãos.
Por uma qualquer ironia do destino a professora de Português do meu filho que deverá ter nascido pouco depois daquela menina, pediu-lhe para escolher um filme de que tivesse gostado e para fazer um resumo. Acabou agora mesmo. Escolheu “A vida é bela”. Terminou com a frase: “Vale sempre a pena manter a esperança num mundo melhor”.
Deve ter nascido pouco depois daquela menina. Olhei-o com uma vontade enorme de o abraçar. Mas ficou uma moínhazinha suspeita aqui no peito. Aquela menina tinha o direito de ter acreditado no mundo melhor do meu filho. Falhámos todos, não falhámos?
Publicado por Troll Urbano às setembro 29, 2005 10:05 PM
Comentários
Não sei.
O menino d' A Vida é Bela, sobreviveu em condições inacreditáveis graças ao amor enormíssimo daquele pai. E sobreviveu. Mas os fornos funcionaram durante muito tempo. Foram também tempos terríveis, com muitas batalhas perdidas numa guerra que se venceu.
Esta guerra, contra a miséria, o abandono, o desemprego, a doença, o analfabetismo nas suas variadas formas, a solidão, tudo o que a vida moderna ainda tem de pior, é uma longa guerra. Vamos perder muitas batalhas, mas acredito que vamos ganhar a guerra.
Porque é que os bombeiros tardaram a chegar, como é que os vizinhos não acudiram, o que dificultou a fuga de casa, são dúvidas para que não tenho resposta. Que este caso de pesadelo sirva ao menos de alarme para que não se voltem a criar condições onde isto possa suceder.
Publicado por: ML às setembro 29, 2005 10:44 PM
Não sei o que dizer a tão trágico acontecimento que infelizmente se repete. Teria de escrever um lençol. Sobre a miséria, a fome, a exclusão, a xenófobia. Enfim. Que nos sirva de lição.
Grande posta e aproveito para elogiar o teu filho pelo grande filme que escolheu.
Publicado por: Daniel Arruda às setembro 30, 2005 01:35 AM
Isabel, há uns tempos que não te lia, e fico sempre encantada quando volto.
( voltei aqui por um link do pópulo, mas não me tinha esquecido, acredita!)
Que texto magnífico e que modo "mesmo teu" de falar desta caso.
Obrigada!
Publicado por: Lua-Cheia
às setembro 30, 2005 10:02 AM
Essa do "falhámos todos" custa-me sempre a engolir...Eu não me considero responsável pela tragédia daquela família. Terei sempre votado mal? Se os governos tivessem sido de esquerda, os mais "preocupados" com a pobreza, não haveria pobreza? Não acredito! Mesmo assim, continuo a não me sentir culpada! Envergonhada, triste, impotente, isso sim, culpada não!
Gostava que lesses o que escrevi ontem: também é uma história de miséria, só ainda não morreu ninguém. Eu já avisei a proteção de menores, já tentei chamar aquela gente à razão...Tanto quanto sei continua tudo na mesma. Eu sinto pena, raiva, sei lá o quê, mas culpa não!
Publicado por: saltapocinhas às setembro 30, 2005 10:39 AM
saltapocinhas, não era uma acusação.Para mim. Para ti. Para ninguém. Era uma pergunta. E, no fundo, talvez me sinta responsável, algumas vezes, sim. Talvez não baste votar bem ou mal, seja lá o que isso signifique para cada um de nós. Não consigo pensar em votos quando olho para o meu filho e penso naqueles filhos de alguém...vou ler o teu post. Mas acredita, a moínha, tenho-a cá...que seja vergonha. Impotência. Não, não tenho a certeza que não seja também culpa. Falo por mim. Tenho a certeza que devia ter feito mais. Diferente. Talvez não pudesse. Mas devia.
Publicado por: isabel faria às setembro 30, 2005 11:00 AM
Por favor digam-me o que foi feito nos ultimos 10 anos para acabar com tragicas passagens pela vida?
No entanto os donos do mundo continuam mais preocupados com guerras, destruição em massa que lhe traz exposição publica mas que ninguem associa á realidade.
Infelizmente este é um caso entre centenas que acontecem diáriamente a crianças que nunca irão ter a simples possibilidade de saber o que é a vida e o que de tão bom poderemos retirar dela, e nós continuamos a olhar apenas para o nosso umbigo constantemente desejando que nos saia o totoloto.
Sim Daniel, era realmente bom que este caso servisse de exemplo, acredita que sim, era sinal que tais casos não se voltariam a passar, tenho pena, muita pena mesmo que não seja assim.
Publicado por: The Wolf às setembro 30, 2005 06:17 PM