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setembro 25, 2005
Dia de aniversário
Por:Isabel Faria
Bairro Padre Cruz. Mercado. Dum lado, a parte mais recente, prédios de vários andares. Bem conservados. Do outro, ruelas estreitas por entre casa pequenas e antigas. Muitas delas desabitadas. Como em Carnide, onde tínhamos passado algum tempo antes, quase não há gente na rua. Apenas no Mercado se vêem pessoas. E num ou outro café.
Não há má recepção. Também não há boa. O que, sobretudo, se vê e se sente é indiferença. Indiferença que consegue ser quebrada quando Sá Fernandes se aproxima e cumprimenta ou fala. Mas que, ao virarmos as costas, ninguém parece ter dúvidas que será o sentimento que prevalecerá.
Uma indiferença que não nos é dirigida. Uma indiferença sem destinatários. Com rostos. Mas sem destinatários. Como se com um gesto ou com ausência de gestos, nos quisessem transmitir, apenas, uma ideia: Não acreditamos que valha a pena.
No mercado do Bairro Padre Cruz, tivemos, apenas, um ou dois momentos. È feita de momentos uma campanha como esta. Só pode ser. Temos, nós que não podemos vacilar nem desistir, de, teimosamente, nos agarrarmos a eles.
À saída do Mercado, vejo uma senhora sozinha sentada num Banco. Aproximo-me e pergunto se lhe posso entregar um panfleto da campanha…olha-me com um olhar firme e diz-me: “Pode. Mas eu queria mesmo era uma bandeira. Faço hoje 44 anos e queria uma prenda...Mas tem que ser das verdes, que eu sou do Sporting...”
Bandeiras??? Ok, uma bandeira. Meninos, é preciso uma bandeira para dar a esta Sra que faz hoje anos...apareceu uma bandeira e a Sra. abriu um sorriso lindo. É possível ter um sorriso lindo numa cara coberta de rugas e de pele baça. “Posso dar-lhe um beijo de parabéns?” “Pode...mas diga lá àquele Sr. da fotografia, para me dar um também...sabe que eu gosto muito de homens jeitosos???” Depois do beijo do Sr jeitoso da fotografia, ainda levei com uma descompostura dita num tom zangado “Você que é mulher, veja lá se penteia o Sr. que anda com o cabelo todo no ar!!!”.
Ficou, ali, solenemente, prometido, que a partir de Terça-Feira começo a andar de pente na mala. A Sra., que todos conhecem no Bairro, por histórias de vida tristes e complicadas, ficou com o sorriso...”Tenho a impressão que não recebia uma prenda de anos há...deixa cá ver...se eu faço 44...o meu morreu há 8...olhe minha senhora, não sei há quantos. Muitos”.
Publicado por Troll Urbano às setembro 25, 2005 04:38 PM
Comentários
Este "Diário de Campanha" é precioso, Isabel, escrito assim no teu estilo. São estas pequenas histórias, assim do dia-a-dia que fazem mesmo toda a diferença.
O contacto com as pessoas deve ser difícil com essa cortina de indiferença... também sinto isso no meu dia normal. E não "faço política" como se diz. Mas qualquer comentário mais intenso esbarra nessa espécie de parede de vidro de indiferença. Não é vidro, deve ser acrílico, porque o vidro pode partir-se...
Custa-me. Sou tão idealista que nunca desisto de esperar.
Publicado por: L.G. às setembro 25, 2005 07:49 PM
Como eu te compreendo ISabel. Andar o dia todo na rua e se não fossem estes pequenos momentos era intragável.
Publicado por: Daniel Arruda às setembro 25, 2005 10:51 PM
Independentemente da 'campanha eleitoral' oficial da TV, etc. vejo como experiência única essa oportunidade de ir ao encontro das pessoas, de as olhar uma a uma, porque também são únicas e irrepetíveis. O mau e o bom em estado puro.
Já agora, boa sorte!
Publicado por: Inês às setembro 26, 2005 03:34 PM
Obrigada, Inês...estou a ir...um bocadinho triste porque hoje me calha a sede...mas ok. Tem que ser...
Publicado por: isabel faria às setembro 28, 2005 08:58 AM