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setembro 28, 2005

Teria feito campanha contigo

Por:Isabel Faria

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Nestas alturas não costumava desistir. Não quando havia campanhas. Era como se, durante os dias que antecediam uma eleição, tudo lhe voltasse a ser possível. E a ela. E a ambos. Já era do Partido antes de nascer, dizia. Com o decorrer do tempo foi tendo algumas dúvidas. Ela que, desde muito cedo, tinha as dúvidas todas, lutava arduamente para que as dúvidas dele se dissipassem. Não, não mentia. Calava, apenas. Calava para o ajudar a, pelo menos, nestas alturas não desistir. Fora das eleições, não. Aí discutíam horas e horas. As discussões davam-lhe ânimo para acreditar. Que ele iria vencer a batalha. Quando já muito zangado lhe chamava “esquerdista dum raio...”, tinha tanto ânimo para acreditar... Ele sabia que, às vezes, quando íam votar, o voto, até se chegava a encontrar. Ok, não foram muitas vezes, mas aconteceu. Dizia-lhe sempre, nessas alturas, que se pudesse iria com ela...para evitar que o voto se “desperdiçasse”.
Nas campanhas, não. Ela nunca fez campanha pelo Partido. Mas sempre ansiou pelas campanhas dele.

Queria-te cá. Queria-te tanto cá.
Um ano desististe. Não te apetecia, disseste. Na noite das eleições esperei-te nos bancos frios de S.José. Devia ter feito campanha, não devia? Perguntaste. Devias.
Pouco tempo depois desistimos. Mais tarde, tão pouco tempo mais tarde, desististe tu. De ti.
Há algum tempo que tinhas deixado de pagar as quotas. Mas ainda tenho o cartão. Eu teria podido fazer campanha. A sério. Queria tanto que continuasses cá.

Publicado por Troll Urbano às setembro 28, 2005 12:41 AM

Comentários

Para quem estava cansada!!!!!!!

Não sei de que (quem) falas mas que a posta se dá a muitas interpretações é um facto. Mais uma exelente posta à Isabel.
:)

Publicado por: Daniel Arruda às setembro 28, 2005 12:48 AM

De quem falo, amigo?
De alguém que a gente um dia encontra, ama, com quem luta...e que não consegue impedir que, um dia, desista de fazer campanha pelo Partido. E mais tarde campanha pela vida.

E estou cansada, sim.
:)

Publicado por: isabel faria às setembro 28, 2005 12:59 AM

Bom texto, uma outra reflexão sobre a actividade política. Aquilo que os actores têm dentro de si (alguns) e que não se nota em debates e manifestações e todas os sinais exteriores.
Prefiro estes textos a todos os programas políticos.

Publicado por: Mário às setembro 28, 2005 09:32 AM

Mais um divinal. Sem comentários

Publicado por: Doomed às setembro 28, 2005 11:42 AM

Claro que não é preciso dizer de quem falas, Isabel. É um texto belíssimo. Dás uma pista pequenina, para quem te lê desde o princípio, quando falas em S. José...
Mas pode ser para muita gente. Gente que desiste a meio. Que desiste de lutar, primeiro, e de viver, depois.
É terrível, e há muitos infelizmente.
Vamos nós mantendo as bandeiras em pé e ao vento.
(mas por vezes também se sente que é difícil...)

Publicado por: ML às setembro 28, 2005 12:54 PM

Obrigado.

Publicado por: isabel faria às setembro 28, 2005 08:03 PM

Pois é, tal como a ML, também eu reconheci a pessoa de quem falas, noutros textos. Igualmente tocantes.

Publicado por: susana às setembro 29, 2005 11:02 AM

Sabes Susana, há alturas em que parece que o tempo cumpriu, enfim, a sua função. Depois, um dia, ao saires de casa com um pacote de panfletos de propaganda na mão...é, amiga, tens razão. Dá para reconhecer...o tempo, afinal, nunca cumpre cabalmente a sua função.

Publicado por: isabel faria às setembro 29, 2005 08:05 PM