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setembro 26, 2005

Torta de chocolate

Por:Isabel Faria

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Não sei como acontece. No cinema sei. Chama-se flash back, não é?
Na vida? Bem na vida, deve ser, à mesma, um flash back, só que sem efeitos especiais.

Tinha seis anos. Não me lembro em que dia saiu da prisão. Lembro-me de quando o vieram buscar. Lembro-me das três batidas na porta. Não, das batidas não me lembro, ouço-as.
Era Inverno. Dormia no quarto pequenino, mesmo ao lado. Tinha três anos e segundo me contam imenso medo dos papões. Do medo dos papões não me lembro, confesso. Do medo dos homens que entraram, molhados, pela porta adentro, também não me lembro. Só ouço o meu pai a dizer que estava tudo bem e que iria voltar em breve. Nunca tinha visto o meu pai chorar. Achei estranho. Tão estranho que chorei também. A minha mãe já tinha visto. Não me parece que tenha achado tão estranho. E talvez não tivesse chorado por causa disso. Mais tarde, sim. Ao longo dos três anos que se seguiram...mas esses não entraram tanto nos meus efeitos de filme desta tarde.
Não me parece que tenhamos comido alguma torta de chocolate durante esse tempo todo. A moeda que vi, um dia, milagrosamente perdida debaixo da pontinha da camilha bordeuax (na altura devia achar que tinha uma camilha vermelha...mas hoje lembro-a bordeaux. Creio que a memória deve ter razão nas cores) deu para comprar pão. Nunca teria dado para fazer uma torta de chocolate.
Um dia, a minha mãe disse-me que o meu pai viria antes de eu entrar para a escola. De certeza que viria. Só tínhamos, mesmo, que esperar mais um pouquinho, dizia, com lágrimas nos olhos. Aí, e apesar do meu efeito de filme desta tarde não parar muito nesse tempo, acho que já chorava com ela. Mas chorava sem perceber porque chorávamos. Então se ele estava quase a vir...a minha mãe tentava explicar. Mas chorava mais. Tive que desistir.

Chegava tarde a minha mãe e as outras mulheres que iam ver os maridos. Só podia ir uma vez de quinze em quinze dias. Ficava cara a viagem. Os meus avós pagavam a viagem e davam-me de comer, enquanto esperava que ela voltasse, à noitinha. Vinha sempre com os olhos vermelhos. Eu já não estranhava.
Um dia não veio com os olhos vermelhos. Eu estranhei. Mas lembrei-me que faltavam poucos dias para começar a escola. Já não estranhei mais.
“Temos que fazer uma torta de chocolate” “Não temos dinheiro, filha” “Tem que ser, mãe” “Só se pedires à avó que faça…a mãe tem…” “Eu peço, mãe”.
Tinha que pôr o avental. A minha avó não me deixava estar na cozinha sem avental. Sujas-te com a farinha, dizia. Posso partir os ovos? E misturar o açúcar?...e rapar a tigela????
Ficou muito bonita a nossa torta. Não pode ser muito grande, disse a avó. Leva muitos ovos e muito açúcar e muito chocolate...Eu sei, avó.

Agora entraste pela porta. E afinal vinhas a chorar outra vez. Então mas agora quando saías e entravas em casa, vinhas a chorar, pai? Que coisa estranha...
Fiz-te um bolo, adivinha qual…uma torta de chocolate…sim pai!!! Ainda estás a chorar pai, mesmo com a torta de chocolate? Não está boa? Fui eu que fiz. A avó Inês só ajudou…Está boa, filha. Muito boa.
Então porque raio, continuavam todos a chorar????

Mãe, achas que já está fria? Já se pode experimentar? Não querido, ainda não.
Mãe, estás com uns olhos estranhos…não, é impressão tua. Só estava a ver um filme...Um filme? Coitada, é da campanha....


Publicado por Troll Urbano às setembro 26, 2005 12:04 AM

Comentários

No coments.

Publicado por: Daniel Arruda às setembro 26, 2005 12:13 AM

Isabel apetecia-me dar-te um abraço :)

Publicado por: lyra às setembro 26, 2005 12:20 AM

Porquê, amigo?

Obrigada, Lyra, Considera-o "dado".

Publicado por: isabel faria às setembro 26, 2005 01:05 AM

São estes "flash backs" que devemos contar aos filhos/netos, e também aos Pais. Muita coisa passará a ter mais sentido, ajuda a não esquecer e a abrir o coração a sentimentos que, por vezes, estão demasiado "presos".
Um abraço

Publicado por: méri às setembro 26, 2005 08:39 AM

Tinha saudades destas tuas crónicas :)
É preciso que as novas gerações percebam o que acabaste de escrever, percebam o verdadeiro valor de uma simples torta de chocolate como esta.
Um Beijo :)

Publicado por: bluegift às setembro 26, 2005 09:16 AM

(agora fiquei eu com "um olhar estranho"...)
Lindo, isabel. Sabe bem , rev(l)er-te.

Publicado por: Mar às setembro 26, 2005 10:10 AM

Meri, sempre tentei contar estas histórias ao meu filho. Aí, não me aparece que tenha falhado.
Quanto a "desprender" sentimentos com os meus pais...é, talvez, aí nem sempre consiga. Às vezes, falta uma palavra. Ou um gesto. Ou, apenas, dar-lhes a ler estes textos. Sempre tive maior facilidade em escrever que em falar...

Blue, não poso viver sem elas...sem as crónicas.
Já para não falar na torta...que já foi quase toda. Que raio...o que vale é que este calcorrear de ruas que irá continuar po mais uns dias tem feito alguns milagres.

Mar, eu também fiquei quando vi o teu nome, aqui...achas que é contagioso, amiga?

Publicado por: isabel faria às setembro 26, 2005 10:58 AM

Segunda-feira, muita coisa na cabeça, muito stress, algum desgaste não recuperado no fim de semana, muita pressão também!!! De repente, mas com suavidade, palavras da Isabel, não alegres, mas desencarceradoras!

Lágrimas de mãe transformadas em rio, abrindo um vale, ensinando o caminho...

PS-Peço desculpa por abordar outros post´s, mas tudo gira muito rápido para quem não tem o hábito, nem a possibilidade permanente de acesso. Saí da dita esfera pela sexta à tarde e só agora voltei. E agora..., nem cavalo, nem espada, nem "woman in red and white", meti as "patas" pelas mãos e a nada respondi. As minhas desculpas...

PS2-Voltando, ficou a cheirar a chocolate no fim!

Publicado por: Grilo da Idanha às setembro 26, 2005 11:16 AM

Nunca conseguimos fazer reviver as memórias aos outros da mesmo forma que as sentimos.

Publicado por: Mário às setembro 26, 2005 11:19 AM

Grilo, que falta faz o cavalo, se ao abrir a Caixa dos Comentários, vejo as tuas palavras???

Pois não, Mário. Como em tudo o que se sente, não è? Não são palavras, as memórias. São emoções.

Publicado por: isabel faria às setembro 26, 2005 11:51 AM

Só agora li a tua "crónica" (?) A história, mais curta mas num registo de emoção semelhante, já a conhecia quando uma vez a deixaste à laia de comentário num post meu. Ao tempo, Isabel! Publiquei esse "comentário" como post itálico, tão belo o achei. Aqui, tem outro desenvolvimento, mas a emoção que se sente é parecida. Que importante que é que o teu filho saiba o valor de uma torta de chocolate. Porque estas memórias vão-se diluindo, e este passado tão próximo ainda, é já História.
Conheço muitas também. Que deixam um nó na garganta como a tua, e é por isso que esta é importante - porque não foi uma história, é um símbolo de muitas outras.
Obrigada, Isabel.

Publicado por: L.G. às setembro 26, 2005 02:22 PM

Tens razão, não é uma história. E um bocadinho da nossa História colectiva. Claro que, ao escrevê-la, não se pensa nisso. Mas depois, pondo-me como leitora (tarefa díficil , mas talvez possível) é da nossa História que se trata, sim.

Publicado por: isabel faria às setembro 26, 2005 05:23 PM

Muito bonito Isabel. É engraçado como de todas as coisas passíveis de trazer reminiscências os sabores terem uma quota tão significativa quando se trata de afecto.

Publicado por: susana às setembro 26, 2005 05:58 PM

Acho, linda. ;-)

Publicado por: Mar às setembro 26, 2005 10:04 PM

:)

Publicado por: Johnny às setembro 27, 2005 01:45 AM

Pois é Susana. Desde que ontem li o teu comentário, que me tenho recordado de sabores que me levam a afectos passados. (passados? há afectos passados?). Ok, a afectos.

Mar, temos mesmo que ir meter mãos à obra, não é amiga? Força!!!

Johnny, até já!!!

Publicado por: isabel faria às setembro 27, 2005 09:35 AM