« Começou o fim da Esfinge | Entrada | Uma data importante »

outubro 27, 2005

Diario de Belchior de dia 27-10-2005

Por: Daniel Arruda

Olá, cá estou eu outra vez. Desta vez para vos falar em directo e em exclusivo de Moçambique. Depois da nossa aventura, ontem, na Portela, hoje tudo foi mais calmo, chegámos ao aeroporto e embarcámos com destino ao Aeroporto Internacional de Maputo. Após algumas horas de viagem para o outro lado do equador finalmente aterrámos naquele que é o 35º maior país do mundo que tem uma população de cerca de 20 milhões de pessoas.

Conforme nos fomos aproximando do nosso destino, reparei que Baltasar ia ficando cada vez mais nervoso, afinal não é todos os dias que se volta ao nosso continente, à nossa terra, às nossas raízes. Moçambique foi até ao ano passado o país mais pobre do mundo, sendo que este ano subiu 3 lugares na tabela, podem dizer que não é muito, mas é. É um passo de gigante de quem vive na miséria, assolado por secas e cheias no mesmo ano, onde as culturas não dão nem para um décimo da população, onde grande parte do terreno é impraticável. Mas a comunidade internacional tem ajudado e, mais importante que isso, é o facto de o governo Moçambicano ter aproveitado estas ajudas ao ponto de já haver quem afirme que a continuar com este ritmo de crescimento, Moçambique poderá, a médio prazo, ser uma potência emergente em África.

Saímos para Maputo, uma cidade que não deixa antever, o que nos espera. Aliás, esta é uma das razões para esta posta tardia. Não é fácil encontrar um terminal de ligação à Net por estas bandas. Mas voltando à vaca fria e ao motivo da nossa viagem.

Este país é um dos países do mundo com maior taxa de HIV/SIDA do mundo. Em muito devido à iletracia, em muito devido às dificuldades de acesso a muitas zonas, mas também em muito por causa de questões culturais. Se em relação às 1as duas razões terá de ser o próprio país a fazer por si, e está a fazê-lo como atrás descrito, em relação à última mais poderia e deveria ter acontecido. Ficou célebre há 2 anos atrás o caso da missão religiosa que expulsou da aldeia um grupo de uma ONG britânica que tentava “educar” as pessoas para que estas usassem métodos contraceptivos de modo a baixar a natalidade, dado que as pessoas não têm como se sustentar mas também e sobretudo explicar às pessoas o que era sexo seguro, como estas se podiam precaver das doenças e como se poderia fazer do sexo uma actividade saudável. Infelizmente não lhes foi permitido, nem ali, nem em muitas aldeias vizinhas, onde, diariamente, nascem crianças infectadas e adultos morrem vítimas de HIV/SIDA ou Tuberculose.
O nosso destino hoje foi uma dessas aldeias, para vermos in loco o que se passava. Não nos passava pela cabeça que pessoas que tinham como missão ajudar tivessem sido banidas por outras cuja função era exactamente a mesma. Infelizmente enganámo-nos. O conceito que existe em grande parte das zonas rurais, a imensa maioria do território, é o de que a contracepção é pecado e que a vida ou morte é uma decisão divina. Infelizmente também, são normalmente as missões religiosas que fomentam este tipo de apreciações. Ainda recentemente o Bispo de Maputo reafirmava numa entrevista a um jornal que não está nas mãos das pessoas decidir sobre a vida ou a morte e que o que precisava de ser ensinado era que a abstinência era a melhor forma de evitar a propagação da doença. Um princípio contra natura para o ser humano.

Desiludidos, voltámos para onde vamos pernoitar, sem saber muito bem se vamos amanhã seguir viagem para outras paragens ou se vamos continuar a explorar esta terra que tem tudo para dar certo. Tem multiculturalidade, tem multireliogidade, tem vontade. Falta apenas que todos remem para o mesmo lado.

Mas certo é que já levamos para o menino a nossa 2ª prenda. O flagelo da HIV/SIDA que alguns teimam em não querer ver.

Publicado por Troll Urbano às outubro 27, 2005 11:39 PM

Comentários

Daniel, ontem quase não tinha lido o teu post e hoje ainda não tinha tido tempo (tive um dia cheio, hoje). Gosto do teu Rei Mago. Gosto das suas crónicas. Pressinto é que vai chegar ao último dia cansado, com um peso nos ombros que não terá força para aguentar...não o deverás levar a passar férias, de vez em quando? Olha que ele é Rei e Mago, mas não é Super Homem.E o Mundo não está fácil.

Publicado por: isabel faria às outubro 28, 2005 06:44 PM