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outubro 28, 2005

Diario de Belchior de dia 28-10-2005

Por: Daniel Arruda

Cá estamos nós, depois de uma noite em Moçambique e de uma viagem enorme entre matagal e selva que nos levou de onde estávamos até à África do Sul. Foi uma viagem complicada que nos consumiu quase todas as energias que tínhamos acumuladas. Mas foi uma viagem esclarecedora.

Durante o caminho fizemos uma paragem para desentorpecer as pernas e “mudar as águas” e o nosso guia, que nos tratou de uma forma excepcional, avisou-nos para não nos afastarmos do jipe e se o fizéssemos que não saíssemos da estrada. Eu com o meu ar brincalhão, mandei logo uma piada sobre os animais selvagens e que vindo eu de Portugal nenhum animal me fazia medo, tinha coisas piores que animais selvagens na minha terra, pelo que nada havia a temer.
Todos nos rimos e só parámos quando vimos o ar sério do guia, do Moisés, pois era assim que se chamava. Foi nessa altura que ele chamou a atenção para o facto de não estar a falar de animais. Há muito que estes estavam confinados a reservas e de lá não saíam. Que falava das minas terrestres. Aquelas que são responsáveis por centenas de mortos e amputados, não só em Moçambique como também noutros locais de África.

Confesso que deveria estar preparado para o facto de Gaspar, o mais rebelde do grupo não ligar muito a estes avisos, mas achei que desta vez a ameaça era demasiado real para qualquer tipo de aventureirismos.
Fomos então esticar um pouco as pernas e eu estava entretido a falar com Moisés e Baltasar sobre África e a sua cultura quando nos apercebemos que Gaspar já não estava junto de nós. Virámo-nos, olhámos e não vimos nada. Passados poucos minutos aparece então Gaspar com 5 papaias maravilhosas, grandes e maduras. Mas nem isso arrefeceu o furor de Moisés que sem dizer palavra arrancou em direcção aos carros e disse secamente. Vamos.

Todos nos entreolhámos, e lá seguimos e para nosso espanto passados poucos quilómetros parámos. Sem saber bem o que fazer ficámos quietos mas Moisés disse para sairmos e observarmos à nossa volta. Estávamos numa aldeia, pequena, com 40 palhotas se tanto, perdida no meio do mato. Passou por nós um jovem de uma perna só. Explicaram-nos então que este teve sorte. Uma outra mina tinha levado seu pai. Olhámos à volta e vimos muita gente com marcas que para nós seriam ainda marcas de uma guerra colonial e depois civil que abalou este país., mas não. Muitas eram marcas do pós guerra. Das minas que ficaram espalhadas pelo chão, enterradas à espera que alguém as pisasse para poderem cumprir a sua função. De Matar.

Foi nesta aldeia que esteve Lady Diana aquando de uma das suas visitas, ao abrigo da sua ONG de erradicação das minas terrestres. Mas ela morreu e com ela o projecto. Dizem-nos que da parte da comunidade internacional não há vontade nem interesse. Que mais altos valores se levantam numa época de combate ao terrorismo, de combate às imigrações, de recessão económica mundial. Dizem-nos que se sentem apenas uma estatística, que para o mundo não são mais que corpos à espera do abate da mãe natureza. Dizem-nos ainda que todos os dias quando saiem para o mato não sabem se voltam, mas que por cada passo que dão haverá mais um metro de terreno desimpedido para os que vierem a seguir. Pedi para me darem uma cruz que estava numa campa improvisada para levar ao menino. Para que este se lembrasse que o mundo é mais que aquilo que se quer vender ao ocidente.

Seguimos para África do Sul onde já chegámos e de onde eu vos escrevo. Em silêncio, porque a imagem de quem perde a vida ou parte dela não pode ser descrita.

Publicado por Troll Urbano às outubro 28, 2005 07:05 PM

Comentários

Espero que estejas a gostar de Moçambique.
Fiquei comovido e sem duvida triste pelo o abandono do projecto de desminagem do territorio.

Um abraço de amizade
paulo

Publicado por: peregrino [TypeKey Profile Page] às outubro 28, 2005 07:38 PM

Daniel, estive a ler o teu post...pronta a comentá-lo. Não fosse teres escolhido aquela frase para o terminar e eu ficar nela retida. Sem saber porquê. Retida.

Publicado por: isabel faria às outubro 29, 2005 12:09 AM

peregrino, eu não estou fisicamente em Moçambique. Este é um diário fictício com dados reais. É um caminho de 60 dias para que os Reis Magos levem 60 prendas ao menino das palhas para que se possa melhorar o mundo.

Mas fico feliz que penses assim. É sinal que estou a ser convincente nas histórias.
Obrigado

Publicado por: Daniel Arruda às outubro 29, 2005 02:58 AM

Isabel, era um bom ou um mau comentário?

Publicado por: Daniel Arruda às outubro 29, 2005 02:59 AM

Era um bom comentário, Daniel. Gosto de quando escreves assim. Quando descreves realidades, as misturas com uma dose q.b de humor e muita sensibilidade.

Publicado por: isabel faria às outubro 29, 2005 11:43 AM