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outubro 29, 2005
Outono
Por:Isabel Faria
Quando há uns meses escrevi o post que ontem aqui publiquei, recordo que não foi fácil. Foi, de todos os textos que ao longo dos tempos fui publicando, o mais pessoal. E eu escrevo muitos textos pessoais. Não se limitava a falar de sentimentos. Fazia-o na primeira pessoa (com o tempo fui aprendendo a usar a 3ª pessoa, sempre que, por defesa, precisava de me distanciar do meu passado ou do meu presente) e falava de dois momentos fundamentais e decisivos da minha vida.
Pensei que este tempo todo depois já não custasse tanto. Na introdução que ontem lhe fiz quis até convencer-me que deixara de ser meu. Enganei-me. Hoje, ao reler aquele texto, estive lá. Naqueles dois momentos. E nos outros. E, por instantes, tal como então, voltei a sentir a solidão com que fiz aquelas opções. Os momentos em que, sozinha, caminhei para aquele rés-do-chão, naquela Terça Feira e mais tarde aqueles em que deixei a Clínica de S. Miguel, ali por trás do Quarteto, e decidi ter o meu filho. Voltei a estar sozinha nos bancos frios de S.José. Voltei sozinha a Santarém. E assim desci as ruas de Benfica ou me perdi na estação de metro de Picoas.
Não me parece pois estranho que, agora, ao passar pelo Farpas e pela ML, e quase 24 horas depois, ao ler os comentários que ali ficaram não consiga deixar de vos dizer: obrigado pela companhia.
Possivelmente estou a precisar de descansar um pouco. Abrir a janela. Quem sabe a chuva...
Não sei se um Blog é, como muitos dizem, puro umbiguismo. Às vezes acaba por ser um acto de masoquismo. Este post foi-o, há meses, quando o publiquei pela primeira vez. Voltou a ser ontem. E nada tem a ver com dúvidas quanto às opções que tomei. Tem apenas a ver com a dor que ainda provoca a memória da solidão com que as tomei. Acho que pensei que já me tivesse libertado dela. Não libertei. E não fosse o meu filho estar ali a dançar ao som dos U2 e hoje tenho a certeza deixar-me-ia de novo invadir pela solidão desses dias. Assim, resisto-lhe a custo. Até porque, e isso não esquecerei nunca, a publicação deste post no Afixe permitiu-me cimentar laços que o tempo não apagou. Nem vai apagar. Afinal talvez por isso tivesse valido a pena escrevê-lo e publicá-lo.
Olho lá para fora. Vejo as árvores a moverem-se ao som do vento forte e o tom vermelho que as lâmpadas dão ao céu com nuvens, sinto o cheiro da chuva e penso: talvez seja apenas porque é Outono.
Publicado por Troll Urbano às outubro 29, 2005 10:36 PM
Comentários
Olha Isabel, voltei cá, felizmente. Digo felizmente porque me permitiu ler agora o que escreveste, ainda a quente, acabadinho de sair. Porque este post que escreveste agora, completa o outro. Não o explica, porque não precisa nada de explicações, mas completa-o na verdade por dar a dimensão do que é reviver na nossa cabeça? Coração? Memória ? Eu sei lá onde se revivem as coisas… Mas o teres analisado agora um texto que escreveste [e, como bem dizes, despoletou muita emoção e, nessa altura, no Afixe tiveste muita e muita gente a emocionar-se contigo ] há algum tempo e “analisares emotivamente” essa sensação/sentimento, ajuda a conhecer-te melhor. E possivelmente ajuda-nos a apreciar-te melhor, também.
PS - Quanto a “solidões” por vezes também são escolhidas, amiga. Sabes que há coisas que são tão íntimas que só podem ser decididas por nós. É claro que muitas vezes há uma companhia ‘natural’ que pode ajudar, mas as grandes decisões são mesmo tomadas sozinhas. Eu sei.
Publicado por: ML às outubro 29, 2005 11:17 PM
Depois do que disse a ML, pouco mais posso dizer. Só que tenho gostado imenso de te conhecer.
Publicado por: susana às outubro 30, 2005 12:18 AM
Isabel desde que te "conheci" no Afixe que praticamente acompanho a "tua vida", as aventuras e desventuras do João Pedro, e a maneira como falas do teu filho... Bem... olha estarmos sozinhos por vezes também é bom, dá para por as "coisas" em dia, mas isso é diferente de solidão! No que depender aqui do "mundo" em que te conheço pelos vistos nunca estarás só! Terás sempre alguém que te envie uma nebulosa ;p
Publicado por: Farpas às outubro 30, 2005 01:54 AM
ISabel, acho que não foi uma acto de masoquismo e se foi fez bem a muita gente certamente. Se calhar fazia falta que mais gente se predisposesse a dizer o que sente e o que passou.
Acho que não deves levar isso "tão a peito".
:)))))
Publicado por: Daniel Arruda às outubro 30, 2005 06:32 PM
ML,deixaste-me a tentar encontrar resposta à pergunta: onde se revivem as coisas?
Mas hoje estou melhor. Estava a precisar de apanhar ar.(Vai lá ver o meu post e vê onde estive...conheces?).
Susana, obrigado. Se tiveres gostado tanto de me conhecer a mim, como eu a ti...bem, Susanita, é uma imensidão!!!
Farpas, eu sei. Que há uma nebulosa... E que mesmo que, algumas vezes, ninguém a mande, acabámos sempre por a descobrir em qualquer lugar...às vezes temos a mania de nos armar em fortes e depois dá umas coisas esquisitas...mas passa. Tem que passar.
Daniel,como é que se faz, amigo? Estou aberta a escrever a receita para nunca mais me esquecer. :):)
Publicado por: isabel faria às outubro 30, 2005 07:08 PM