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outubro 29, 2005
Vida
Por:Isabel Faria
Não pretendo fazer isto muitas vezes. Até porque quando as palavras saem (ainda ontem me escrevia um amigo) deixam de ser nossas. Estas, publicadas há alguns meses no Afixe, deixaram, então, de me pertencer. Só que, mesmo já não sendo minhas, as vidas que por elas perpassam, são a minha vida. E, neste momento, quando o TC, impede que a hipocrisia seja definitivamente vencida, apeteceu-me aqui deixá-las. Não me apetece discutir, agora, se a posição correcta é a do Bloco, a do PS ou a do PCP. Apetece-me dizer que estou cansada. Como estão todas as mulheres que, alguma vez na vida, numa qualquer Terça-Feira, bateram a uma destas portas. E apetece-me dizer que, talvez a vida seja a arma mais eficaz contra a mentira e a hipocrisia. Apenas por isso, com essa esperança, aqui ficam, de novo.
Acontece que te amava. Acontece que em cada momento em que parecia que, nem que fosse por fugazes momentos, irias alterar o caminho que escolheras, eu queria acreditar. Acontece que em cada um desses momentos, eu queria aproveitar a réstia de vida que te passava levemente pelos olhos e pelos gestos. Acontece que, em cada momento, em que te queria agarrar à vida e em que te queria agarrar a mim, nos amávamos. Acontece que um dia o DIU, por um qualquer acaso, que a ciência deverá explicar, não funcionou.
Acontece que fiquei grávida.
Acontece que os momentos fugazes passavam. Acontece que, de novo, voltavas ao teu caminho imparável, inexorável para o fim. Acontece que tinha uma casa para pagar e um emprego que não me dava para sobreviver. Acontece que eras totalmente dependente da heroína e a criança, poderia sair com graves problemas. Ou não.
Acontece que eu não aguentaria ter um bebé e continuar a lutar por ti. Acontece que havia uma parteira conhecida de uma amiga. Acontece que, numa fria Terça-feira de Dezembro, toquei à campainha e entrei.
Anos mais tarde, acontece que, de uma relação casual mas intensa, aí já sem problemas técnicos de DIU, mas por descuido ou contas mal feitas, fiquei grávida. Acontece que estava sozinha. A relação, sabia-o, não sobreviveria à opção de ter o bebé. Acontece que tinha o meu emprego, que, imaginava, que cortando em quase tudo, daria para o criar. Acontece que sabia que a sua vinda e a sua vida só iria depender da minha força. Acontece que não tinha que ajudar a manter ninguém vivo, nem que ir parar aos bancos do Hospital duas ou três vezes por mês, nem que passar noites procurando nos bares, nos bancos de jardim ou nas valetas
Acontece que o meu filho nasceu.
Acontece que está ali e é feliz. Acontece que, tenho a certeza, se tivesse deixado seguir a minha primeira gravidez, não podia garantir nem a felicidade nem, tampouco, o sustento de meu filho.
Acontece que não me arrependo. Nem tenho remorsos. Acontece que sei que a Lei me puniria. Não fui violada, não corria perigo de vida, o bebé não iria, possivelmente nascer morto. Acontece que eu não aceito a punição.
Publicado por Troll Urbano às outubro 29, 2005 12:02 AM
Comentários
Garanto-te que é nestas alturas que me apetecia publicar o nome de meia-dúzia de senhoras e respectivos maridos, amantes ,amigos, ligados á Igreja Católica, ao PP e ao PSD, e que já fizeram aborto, apesar de agora estarem na fila da frente da condenação da despenalização.
Infelizmente continuamos a ser um país de hipocritas, de vicios privados e virtudes publicas, mas como por questões de principio e de ética há coisas que não quero nunca fazer, calo a minha revolta, e só posso dizer-te Isabel que apesar de homem te comprendo .....
Publicado por: a.pacheco às outubro 29, 2005 12:19 AM
A minha mãe morreu com 55 anos, vítima de cancro. Uns dias antes de morrer, contou-me que tinha feito 3 abortos ao longo da vida. Dois antes de eu nascer e um depois. Sou filho único. Não quis ter mais filhos porque só tinha condições económicas para criar um.
Dias antes de morrer contou-me que tinha feito os abortos e as lágrimas rolaram-lhe pela face. Disse-me que nunca tinha sentido remorsos, que tinha pensado ter feito bem mas agora não tinha a certeza. Tinha muitas dúvidas.
A minha mãe que nunca frequentou a Igreja Católica e nos anos 50 participou em reuniões clandestinas do PCP pediu a presença de um padre. Não sei o que conversaram. Sei que passados dias morreu em paz.
Tenho dois filhos. O meu filho foi programado. A minha filha nasceu por um acidente, falha de um método contraceptivo. Nunca pensámos, porque foi uma decisão conjunta, em abortar. O arrependimento da minha mãe perto da hora da morte pesou muito nessa decisão.
A minha mulher ficou 7 meses na cama em repouso absoluto. Tive de pòr o meu filho num infantário com 3 meses. Não tive ajuda de ninguém. A Segurança Social levou 5 meses a pagar o subsídio de doença. Foram tempos muito difíceis. Mas hoje quando telefono para casa e oiço a vozinha da minha filha penso que valeu a pena. E sinto uma ternura imensa.
Publicado por: Carlos Augusto às outubro 29, 2005 01:33 AM
Carlos Augusto, porque é de vidas que gostaria que este post tratasse, só lhe poderei dizer duas ou três coisas.
1 - Quando fiquei grávida da primeira vez não poderia ter tido o meu filho. Senti-o então. Sinto-o hoje. Soube-o então e sei-o hoje. O dia de amnhã, não sei.
2 - Deve ser tão duro ter dúvidas quando se faz um aborto e possivelmente a sua mãe, à hora da morte teve-as, como ter dúvidas se se deveria ter deixado nascer um filho que não se tinha condições para fazer feliz. Quantas mulheres à hora da sua morte as terão tido?
3 - A diferença entre a minha primeira gravidez a a segunda não esteve no acidente. Ambas resultaram de "acidentes". A diferença está em mim, na força que sentia , nas condições económicas que criara, na estabilidade emocional que alcançara, na segurança que me dava não ter alguém a quem amava que dependia de mim para continuar a viver (eu, pelo menos sentia-o, assim), na certeza que já poderia estar 7 meses de cama, por exemplo, se tivesse um problema como o da sua mulher. Porque da primeira vez se isso acontecesse não teria dinheiro para comer ou para pagar a casa enquanto estivesse sem trabalhar.
Também eu hoje quando telefono para casa me sinto muito feliz de ouvir a voz do meu filho. Porque sei que tive condições para optar em deixá-lo nascer. E em fazê-lo feliz. Que anos antes não tinha tido.
De qualquer forma, nesta e em todas as discussões sobre a IVG, a questão não se coloca só nas razões. Coloca-se essencialmente em quem sou eu, ou o Carlos, ou o legislador para julgar das razões e condenar? O Carlos não condena a sua mãe, pois não? Quem sou eu ou qualquer outro para o fazer?
Publicado por: isabel faria às outubro 29, 2005 01:55 AM
Isabel, eu não condeno ninguém. Não sou juiz nem quero ser. O que cada um faz é com a sua consciência. Quis apenas relatar uma situação diferente da sua. Lamento ter sido mal entendido.
Publicado por: Carlos Augusto às outubro 29, 2005 02:04 AM
Carlos não o entendi mal.Aliás se ler bem a minha última frase é isso que nela está escrito: "O Carlos não condena a sua mãe, pois não? Quem sou eu ou qualquer outro para o fazer?" Não penso que poderia ter sido mais clara que foi isso que entendi do seu comentário.
Publicado por: isabel faria às outubro 29, 2005 02:33 AM
mais uma vez, estou em sintonia com o a. pacheco.
Publicado por: Golfinho às outubro 29, 2005 09:29 AM
Li com atenção a sua história Carlos Augusto, e tambem a minha mãe já falecida, fez vários abortos.
Nascida no Concelho de Carrazeda da Anciães, tendo vindo muito nova para Lisboa , comer o pão que o diabo amassou, como ela dizia, católica fervorosa, á sua maneira, mãe extremosa de quatro filhos, tendo na infancia no cortelho onde vivia e onde a miséria era muita, uma sardinha para 3, visto 9 irmãos morrerem como tordos, por fome, doenças , dizia sempre na sua sabedoria popular, os filhos que vierem, é porque terei condições de lhes dar de comer, e fazer deles alguem.
Deu-nos de comer sempre, conseguiu com muita luta e com o apoio do meu pai, que os filhos todos estudassem, nas só deixou vir quatro, seis pelo menos não vieram , e não era fácil porque a parteira do bairro, não era barata, e muitas vezes a vi ir empenhar, o ouro, ou algo de melhor do seu enxoval.
Conto-lhe isto Carlos Augusto, com orgulho, como uma transmontana dos quatro costados, mulher lutadora e de fibra, mãe extremosa, católica, não deixava que ninguem interferisse nas suas decisões.
E quando lhe diziam que era pecado, respondia na sua forma directa.
Pecar é roubar....
Publicado por: a.pacheco às outubro 29, 2005 11:46 AM
Clap Clap Clap, ad infinitum!
Publicado por: Exilado às outubro 29, 2005 12:05 PM
Neste assunto é apenas da consciência de cada um que deve partir a decisão.
Publicado por: Mário às outubro 29, 2005 02:16 PM
Vim do Pópulo atrás de um link que lá encontrei, e descobri este texto expectacular!
Só posso dizer-te "Obrigada".
Até porque se vê que também tens um filho que adoras, tal como eu. Não é uma decisão tomada levianamente só porque a lei permite, ou não permite. As nossas mães e avós já o faziam, com lei, sem le, ou apesar da lei. Era porque tinha de ser. Não se era leviana, muito pelo contrário. Leviandade seria gerar-se uma vida, só "porque sim", porque calhava, e depois logo se via.
Publicado por: R.C. às outubro 29, 2005 03:30 PM
A.Pacheco, também conheci tantas histórias dessas. E as que conhecemos são as que não se escondem na culpa ou na hipocrisia.
Mário, é exactamente isso que eu penso.
R.C.,a questão da lei é essa. Com ou sem lei, o aborto existe. recorre-se a ele quando se acha que essa é a solução. Quem tem dinheiro para o fazer em segurança vai a Espanha, quem não tem continua a arriscar-se a fazê-lo sem condições de segurança.
Ah, é verdade, obrigado pela visita.
Publicado por: isabel faria às outubro 29, 2005 07:30 PM
Isabel, já tinha querido deixar aqui um comentário, mas como não estou no meu sólido PC habitual e sim num portátil com uma ligação à rede muito temperamental, o texto desapareceu e não consegui ligar na altura de novo a net.
Mas não queria deixar de te dizer, que tal como da primeira vez que o li, senti que este testemunho tem uma força espantosa. Consegues falar na primeira pessoa, mas usando o teu “eu” mais profundo e mais grave. O que aqui se diz, não é uma questão intelectual, é um problema humano naquilo que ser-se homem e responsável significa. Há coisas que são demasiado graves e sérias para que seja a natureza ou o destino a decidir. O assumirmos essa responsabilidade só nos torna maiores e mais respeitáveis – no meu ponto de vista.
Publicado por: ML às outubro 29, 2005 09:47 PM
ML, acabei de deixar lá em cima um post sobre este post...foi o meu "eu" mais profundo, sim. E isso juntamente com o Outono, está-me a dar um bocadito volta à cabeça, esta noite.
Publicado por: isabel faria às outubro 29, 2005 10:40 PM