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novembro 07, 2005

Diario de Belchior de dia 6-11-2005

Por: Daniel Arruda

Sei que há dois dias que não dou notícias mas isso deve-se a factores logísticos e a outros que eu enquanto Rei Mago não posso divulgar. Por exemplo, ficava mal a um Rei Mago dizer que tinha andado uma tarde inteira a passear na Marginal de Luanda, num “dolce fare niente” de copo na mão, depois de garrafa na mão para chegar ao fim da noite com outras coisas em mãos que ainda seriam piores de explicar especialmente porque se tratam de espécimes femininos da nossa raça.
Mas descansem que estou bem. Hoje de manhã um pouco atordoado com a cabeça a zumbir, a boca a saber a papel de música e com dificuldade em reconhecer os lençóis onde estava deitado, mas de resto tudo bem.

Aqui estamos nós em Angola, terra linda e riquíssima onde o povo está na miséria. Onde a fome é generalizada a todos aqueles que não são familiares de José Eduardo dos Santos.
Há quem diga que são os efeitos da guerra fria. Daquele dialogo surdo entre a URSS e os EUA, onde cada um falava com as armas que fornecia à UNITA e ao MPLA. Aquele diálogo que visava o controlo do petróleo, dos ouros e dos diamantes sem ter em conta aquilo que faz um país. As pessoas.

Angola poderia ter tudo, a nível agrícola poderia ter para ser auto-suficiente e exportar com qualidade o café mas também a cana-de-açúcar, sisal, milho, óleo de coco e amendoim, o algodão, o fumo e a borracha., batata, arroz, cacau e banana Angola é também rica em minerais, especialmente diamantes, petróleo e minério de ferro; possui também jazidas de cobre, manganês, fosfatos, sal, mica, chumbo, estanho, ouro, prata e platina. As minas de diamante estão localizadas perto de Dondo, no distrito de Lunda. Importantes jazidas de petróleo foram descobertas em 1966, ao largo de Cabinda, assegurando ao país a auto-suficiência. Em 1975 foram localizados depósitos de urânio perto da fronteira com a Namíbia. Digam-me qual o país que com tudo isto e com a área que tem com apenas 10 Milhões de habitantes precisava de ser pobre.

Mas reduzir o problema angolano à guerra fria é para mim demasiado redutor. É sem dúvida um factor, mas não o único. Ignorar a forma como a descolonização foi feita é estar a enterrar a cabeça na areia. Tenho por experiencia noção de que as discussões sobre a descolonização podem durar horas e por isso não pretendo aqui teorizar sobre a verdade absoluta, até porque as opiniões são de tal maneira divergentes que dificilmente encontrarão um ponto de contacto, a começar logo pela discussão, “mas poderia ter sido de outra forma?”. O único ponto de contacto que pode existir, e é a esse que me refiro, é que sem dúvida nenhuma a descolonização contribuiu para o estado a que Angola chegou.
Angola não é um problema só. É um somar de muitos pequenos/grandes problemas. São todos os problemas de África concentrados em 1.246.700 km² ( o 22º Maior do Mundo), mais os problemas específicos deste país. Podíamos logo começar pelo problema de Cabinda, esse enclave que ainda hoje pede a independência ou noutros casos pede a sua anexação a Portugal. Tem um problema chamado José Eduardo dos Santos, político altamente corrupto que tem sabido viver neste sistema de jogos e compadrios.

Mas não pensem depois do que acima escrevi que temos estado apenas na boa vida nestes dois dias que já levamos aqui em Angola. Muito antes pelo contrário. Temos trabalhado arduamente a descobrir as pessoas e um país à beira de um ataque de nervos. Confesso que esperava encontrar um país muito mais estável. Pensava que após a morte (assassinato) de Jonas Savimbi e consequente final da guerra o país finalmente pudesse encontrar um rumo. E essa ideia foi corroborada coma minha chegada a Luanda, onde a normalidade impera, mas não é preciso sair mais que uns modestos 50 KM da capital para ver que a miséria ainda abunda por estas bandas. Pessoas que não têm o que comer e muito menos o que beber dado que as reservas de água potável neste país são escassas e os investimentos no sentido de servir as pessoas com água são nulos. Também para quê? Haja champanhe na residência do presidente que o resto não é importante. Curioso é o que me contaram, acerca da mentalidade do povo, se calhar é a mentalidade dominante em quem nada tem e que usa as pequenas coisas como tábua de salvação. De há um mês as pessoas andam mais contentes, não que algo tenha mudado na sua vida, nada disso, mas que houve um feito desportivo que deixou as pessoas felizes, com a sensação que o país agora já estava no mapa, que já eram alguém. Foi o apuramento da selecção de Angola para o Mundial de futebol. Houve até pessoas que acharam que a partir dessa data que o país haveria de mudar. Se é certo que o facto em si, não traz nada de bom a auto-estima de um povo pode fazer maravilhas se bem aproveitada pelos governantes. Em Portugal houve um caso similar por alturas do Euro que não foi aproveitado. Durante 3 semanas não houve crise, o consumismo aumentou e a confiança no país também. Aqui numa escala diferente passa-se o mesmo.

Durante esta nossa estada pudemos assistir a uma aula da instrução primária, numa sala improvisada ao ar livre, onde as carteiras eram os joelhos, os cadernos o chão de terra e as canetas um pau para riscar o chão. Mas estas crianças não se queixam, são as 1as desde o fim da guerra que pelo menos têm um professor, um português que trocou a sua boa vida do Porto por uma missão quase impossível em Angola.

Angola merecia um estudo profundo que em 2 dias não se pode fazer, mas levo daqui e só como exemplo duas prendas para o menino das palhas, um pau de riscar o chão que me foi oferecido por um aluno da escola improvisada e e uma maçaroca de milho em nome do poderio que poderiam ter e da fome que passam sem saber porquê.

Publicado por Troll Urbano às novembro 7, 2005 12:08 AM