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novembro 28, 2005

Paris - II

Por:Isabel Faria

De olhos regalados de emoção e de estranheza, com pudor mas com muita admiração pela ousadia que me era completamente desconhecida, via casais de gestos afectuosos mostrarem sem preconceitos nem moralismos, as suas paixões e os seus desejos.
Em sete dias em França, não vi um par de namorados a beijar-se na rua. Por várias vezes me questionei se os franceses deixaram de se apaixonar ou se deixou de ser moda mostrá-lo e gritá-lo ao mundo.

Apaixonada, sonhadora, entusiasmada via grupos de jovens de cores garridas, olhares perdidos, violas e flores no cabelo, percorrerem os cais do Sena e acumularem-se na Font St. Michel. Sabia que eram cada vez menos. Mas, para mim, eram, o futuro, um futuro. Nunca, naquela época, os entendi ou senti passado.
Por todas as ruas procurei restos desses hippies que povoaram os meus sonhos de liberdade. Mas Paris tornou-se uma cidade previsível. Pessoas bem vestidas, igualmente vestidas, iguais. Ou pobres, pedintes, pessoas que com olhar atento e inquieto nos despertam sentimentos incontroláveis de medo e de inquietude. E nos obrigam a uma atenção sempre renovada.

Assustada, sentia o olhar sobranceiro dos franceses quando se dirigiam à Mariá, ou encolhiam os ombros com indisfarçado desdém perante a música alta que saía das janelas das casas dos portugueses dos quartiers.
Sem surpresas encontro nos olhares dos franceses que me servem o café, nos que me fazem check in ou naqueles a quem questiono sobre o que se passou nos últimos dias, a mesma sobranceria de há 30 anos.
“Não se passa nada. Isso foram invenções da imprensa internacional” dizia-me o sr. da Portaria do Hotel. “Não há problemas de integração em França…já viste algum português regressar por causa disso?”, dizia-me com alguma rispidez o meu colega francês do Comité de empresa.
Uma senhora inglesa tentava explicar à caixa do Supermercado que tinha levado a água errada e que pretendia, se possível, trocá-la. Estávamos num supermercado dos Champs Elysées. Com um olhar duro e um gesto impaciente, para a colega da caixa ao lado, a sra da caixa, deixa escapar um enfadado “Mas porque é que não vão p’ra casa deles???). Não se tratava duma imigrante. Nem dum descendente de pais magrebinos. Nem dum habitante dos subúrbios “dos problemas inventados” pela imprensa. Sábado à tarde, Champs Eyisées, o local mais caro de Paris, perante uma turista inglesa. A sobranceria e o enfado que me recordava de há trinta anos. No país onde não há problemas com estrangeiros. “Já viste alguém voltar por causa disso???”.

Este último parágrafo foi complicado de ser escrito. Porque também encontrei gestos de apreço e de compreensão, nomeadamente quando estive em Evry, à procura da casa dos meus pais, mas, mesmo aí, sem calor. Quase como se me quisessem dizer “estás de passagem vamos-te tratar bem, mas não demores muito”. De toda a estadia recordo o restaurante de Le Marais, onde almocei na Segunda-feira, como a excepção a este “sê bem vinda mas não fiques muito tempo”, que caracterizou os outros contactos que tive com franceses na sua terra.

Publicado por Troll Urbano às novembro 28, 2005 08:18 AM

Comentários

Isabel, é-me completamente impossível parar neste post como queria fazer. Fica para logo. mas o parágrafo que começa «Uma senhora inglesa ...» esse fez-me reviver muitos anos atrás e entender que tudo está na mesma! Para mim, essa é que é a verdadeira xenofobia! Se queres saber, encontrei essa atitude, pelo menos parcida, na China. Mas a verdade é que China="paíz do centro do mundo", ou seja o umbigo, não é? Em França também o umbigo é enorme.
Até logo, com mais calma...

Publicado por: ML às novembro 28, 2005 09:01 AM

Isabel, já fui a França algumas vezes em deslocações profissionais e sempre fomos tratados pelos nossos "colegas" franceses que tinham que nos "aturar" como uns malandros que lhes estavam a estragar o dia a dia. Isso só mudou no dia em que o director lá da choça deles lhes mandou um sermão do camandro. Passaram a estender a passadeira vermelha depois desse episódio.
Apesar do ar festivo dos idos de 70, parece-me que por baixo dessas aparência os franceses continuam os mesmos, a detestar todos os que vêm de fora.

Publicado por: Mário às novembro 28, 2005 09:16 AM

Mário, é isso mesmo. Se te contasse a minha experiência com o meu colega da recepção do Hotel em Versailles...toda a gente já brincava a dizer p'ra eu fugir que vinla lá o meu amigo...era essa a sensação que dava. Desemparem-nos a loja...xô!!!

E depois era complicado meter o Director da choça ao barulho...afinal supostamente eu estou lá por eles, também por eles...que treta.

ML, um umbigão, diria eu.

Publicado por: isabel faria às novembro 28, 2005 12:17 PM

Ai estes "extremistas", vão para férias para isto, tsc, tsc :O>

Publicado por: Golfinho [TypeKey Profile Page] às novembro 28, 2005 02:48 PM

Golfinho, não foram só férias...também foi dever!!!

Publicado por: isabel faria às novembro 28, 2005 03:20 PM

Está a ser muito bom, este teu diário na estranja, porque vem responder a muitas das minhas dúvidas. Contudo, pelo que dás a entender sinto muito menos entusiasmo nas pessoas, mais distância. Se até os namorados do Jardim do Luxemburgo ou lá onde é que estiveste, não namoram como dantes, já nem sei que dizer...
Ainda por cima, as tuas recordações são de um Paris com uma temperatura baixa, coisa que eu não direi, porque apanhei lá de tudo. E o frio, devia fazer as pessoas abraçarem-se mais, para... porque... quer dizer, aquece-se não é?
Quanto à xenofobia, isso é visceral naquela gente. Também apanhei vexames, que me deixavam super-irritada, quando começavam a bufar por qualquer coisa que eu não entendia á 1ª… E uma vez, numa loja por causa de um troco que podia ser cinq ou cent, o que ali não foi. É claro que a diferença entre os números era grande, mas com alguma boa vontade, escusava de ter sido tanto estardalhaço!
Realmente o pior de Paris são os parisienses. Não merecem a cidade!

Publicado por: ML às novembro 28, 2005 04:06 PM

Exactamente o que eu reparei desde que cá cheguei! Pronto, confirma-se, não sou eu que estou maluca, afinal é mesmo verdade!

Os parisienses não namoram em público. Aliás, num grupo de amigos é impossível saber quando dois deles namoram tal é a discrição.
A variedade de "grupos ou tribos" urbanas, existe. Um bocadinho... Na zona de Chatelêt, mas só junto à entrada do Metro (cabem todos na praça de 100 ou 200m2), ou na Universidade de St. Denis. Aliás escrevi sobre isso há pouco tempo quando mudei para esta universidade.

Quanto a xenofobia, a coisa é assim: os turistas podem/ devem andar em Paris. Desde que tenham ar de turistas e tragam dinheiro.
Os imigrantes, "que vêm roubar as riquezas e os empregos", não. Ah, e facto conhecido: os portugueses são burros e nunca passam de empregados das obras ou de limpezas. (isto é obviamente uma generalização, não são os 60 milhões que são assim, mas o suficiente para a pessoa se sentir malvinda)

Publicado por: Helena Romao [TypeKey Profile Page] às novembro 28, 2005 11:30 PM

Há bocado esqueci-me da história da inglesa. Isso com a Inglaterra e o inglês é história de séculos e guerras. Já cheguei a ouvir dizer que aprender a falar alemão é muito mais fácil do que inglês.

Publicado por: Helena Romao [TypeKey Profile Page] às novembro 29, 2005 02:37 AM

ML, não namoram mesmo e a Helena confirma.Eu que, novita, via de olhos arregalados aqueles gestos de ternura e de "calor", ainda senti mais frio com a sua total ausência.

Helena, mas o ar sobranceiro é com toda a gente.
É assim, eu andava nos Champs Elysées, falo bem francês, não creio que se note a léguas que sou portuguesa (as madeixas louras ajudam...), entrei e saí de lojas, acabei por comprar uma ou duas coisecas...e nunca vium olhar de boas-vindas. Nem nos cafés onde entrei, nem nas lojas, nem nas bilheiras do metropolitano...enfim, é como a Émièle diz, os franceses não merecem a cidade que têm.

Publicado por: isabel faria às novembro 29, 2005 09:56 AM