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novembro 29, 2005
Paris - III
Por:Isabel Faria
Umas notas e perguntas finais:
Em Evry, junto ao Supermercado onde costumávamos fazer compras, há, agora, um café. Estava completamente cheio, no Domingo de manhã. Só com homens. Que faziam, pereceu-me, apostas de cavalos, jogavam no totoloto local e bebiam. Aí, sentada na cadeira do canto a tomar o meu “Café au lait”, olhando e ouvindo, tive quase a certeza que a grande maioria, senão a totalidade, daqueles homens não eram “franceses”. Mas todos falavam francês, mesmo entre si. Na mesa ao lado, 11 e tal da manhã, os três homens sentados, pediam uma nova rodada de conhaque. Para mim, pode ser, agora, também um café, dizia um. E continuaram a falar de cavalos. De futebol e de apostas. Nem ali, menos de uma semana depois de Paris 2005, durante a quase meia hora que durou o café com leite, a torrada e o pastel de nata ouvi o que quer que fosse sobre o que se acabara de passar. E todos falavam francês e eu entendo bem francês.
Parece que o que passou ficou mais uma vez arredado não só do centro da cidade como da luz do dia. Afogados no álcool que os afasta do frio, aqueles homens, uma grande parte jovens, devem semanalmente encontrar-se naquele local. Para se sentirem menos sós, num País que não é o deles, talvez, mas já não para falarem em qualquer outro, que já não será nunca o deles, também. À frente do cálice redondo, falavam de apostas. Sem sotaque. Estava-se em plena luz dum dia frio, a poucos quilómetros de Paris.
À saída, perguntei a um deles que deixava também o café, onde ficava a estação. Explicou-me e perguntou-me de que parte da França era. Disse-lhe que era portuguesa. Disse-me que havia muitos no café. Perguntei-lhe se ele era português e a resposta foi “Não, não. Eu não”. Era moreno, de cabelo curto, algo encaracolado. Não sei se a resposta foi só evasiva. Não me disse de onde era. Porque não sabia?
Perguntas:
A quase ausência de magrebinos no centro da cidade, significa, de facto, que a deixaram de habitar? Num estudo recente falava-se que bastava um apelido com conotações do Norte de África, para que pessoas com as mesmas habilitações fossem preteridas nas entrevistas para novos empregos. Ou significa que os descendentes de pais magrebinos que andam agora em Paris, à custa duma aculturação que se tornou imposição de e para sobrevivência, adoptaram os mesmos gestos, a mesma roupa, o mesmo look que os seus conterrâneos, “genuínos”?
A ausência de ouvir falar português em Paris, significa que também os portugueses, com excepção dos períodos de “vacanças” se tornaram “franceses” ou que também eles foram afastados do centro de Paris? Não me passou despercebido o desaparecimento dos bidonvilles de há trinta e tal anos, no caminho para Évry. É nos prédios altos e sem cor que vejo em seu lugar que habitam agora os portugueses ou deixaram estes para os seus vizinhos do Sul e mudaram-se, como transmitem as nossas televisões, para “maisons” feitas a seu lado, mas suficientemente longe para não se confundirem (misturarem)?
O café , cheio às 11 horas de Domingo, é um sinal da aculturação ou um refúgio da não integração?
O cheiro intenso a álcool, do café escuro de Évry, na manhã fria de Domingo passado, é a uma visão algo comtemporânea dos clochards de Paris, tão épica e romanticamente descrita nas maiores obras literárias ou a forma de descobrir calor na ausência de raízes?
Precisaria de muito mais tempo em França. Ou, pelo menos, que os meus fantasmas me tivessem dado um pouco mais de descanso…
Publicado por Troll Urbano às novembro 29, 2005 08:20 AM
Comentários
Parece-me que as obras de literatura verdadeiramenten marcantes têm o condão de nos fazer esquecer que aquilo não é a realidade, apenas uma fábula sobre a realidade.
Temos de ter sempre os pés bem assentes na terra mesmo quando a cabeça se evade um bocadinho.
Publicado por: Mário às novembro 29, 2005 11:28 AM
Parece-me que tens razão, Mário. ;)
Publicado por: isabel faria às novembro 29, 2005 11:55 AM
Dá muito que pensar, Isabel. E se calhar teria de saber mais de sociologia ( mais...? alguma quero dizer) e ver outros exemplos.
Mas esse especto da língua que se fala impressiona um pouco. Atá porque o estar-se numa terra e falr a óssa língua, para além de tudo o mais, tem um aspecto giro, meio "conspirativo", tipo "deixa-cá-dizer-o-que-quero-que-estes-parvos-ficam-a-ver-navios" e costuma ser engraçado. Só deixa de ser se, como dás a entender, pode ser um factor de discriminação negativa. Mas é triste, triste... Uma coisa é esse português afrancesado, outra a "negação" da língua-mãe.
E também a distância de acontecimentos tão graves e tão próximos, é chocante. Será para se afastarem, mostrarem que são bons meninos?
temos para aqui tema de reflexão para muito tempo.
Publicado por: ML às novembro 29, 2005 01:22 PM
O meio desses homens que apostam nos cavalos ao domingo de manhã é-me quase completamente desconhecido.
Já aconteceu encontrar alguns portugueses que já cá estão há tanto tempo, e, tendo vindo sem grande escolaridade do português, esqueceram-no. Quando sabem que sou portuguesa lá dizem bom dia com sotaque, mas mais do que isso já não se lembram. Já não conseguem construir frases completas e correctas.
Mas do que posso falar mais é do universo que conheço melhor, um meio universitário ou de jovens empregados com formação académica.
E nesse meu meio, encontro exemplos de duas espécies. Nós, portugueses e brasileiros, assim que temos oportunidade, desatamos na nossa "algaraviada" que mais ninguém entende. Quanto aos falantes de castelhano, é mais complexo. Penso que tem sobretudo a ver com uma posição pessoal em relação à integração. Se querem misturar-se para não serem distinguidos, ou assumir as suas identidades de estrangeiros e parisienses.
Tenho uma amiga mexicana a quem já pedi directamente para falar castelhano, porque para mim é mais fácil, mais próximo do português, e sempre pratico outra lingua. Nunca quis, e depois deixei de tentar.
Na faculdade, há muitos colegas que já me cumprimentam só em castelhano, e só mudamos mesmo quando há francófonos presentes (não necessariamente franceses, mas estrangeiros que não falem castelhano).
Lá na faculdade, os árabes também falam sempre em árabe.
Publicado por: Helena Romao
às novembro 29, 2005 06:49 PM