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novembro 24, 2005

Portos

Por:Isabel Faria

Uma pausa antes do jantar.
Amanhã vai ser o último dia aqui. Esta vai ser a última noite. Está um frio enorme e este fim de tarde começou a chover. Estou cansada. As traduções simultâneas sempre me arrasaram.
Olho para trás, e parece que saí daí há décadas. Preciso de portos. Sou muito aérea, passo a minha vida a voar...mas tenho que ter portos.Não me importo de navegar a vida inteira. Gosto de mares revoltos e do barulho das ondas fortes. Gosto de areias grossas e de ver a espuma nelas a entranhar-se, mas não vivo sem portos. Os meus amigos, os meus amores, a minha família, a minha casa, a minha cidade são os meus portos. Preciso de vos ter por perto. De vos sentir. De vos cheirar. E de vos saborear.
Claro que não deixei naquele role de portos de mencionar o meu filho, por acaso. O meu filho não é um dos portos que preciso e sem os quais não sei nem posso viver. O meu filho é o meu barco. O que está antes e depois de todos os portos. É o barco que a eles me leva e deles me traz. É a vela que largo e o leme que manejo.
Há anos que saio de Lisboa, por três ou quatro dias. Quase sempre sozinha. Há anos que sei que nunca seria capaz de viver longe. Mesmo que não fosse sozinha. Preciso de respirar Lisboa para viver. Porque Lisboa não é a minha cidade. É o porto onde todos os portos atracam e onde o meu Barco me leva e de onde me traz..E não sou capaz de passar sem nenhum deles. Não respiraria sem eles. E não se vive sem respirar. Eu não viveria. E eu não seria capaz de respirar sem viver.
Até já. Aí.

Publicado por Troll Urbano às novembro 24, 2005 05:50 PM

Comentários

Este percebi. Boa viagem. Que corra melhor do que a que a de ida.

Publicado por: Golfinho [TypeKey Profile Page] às novembro 24, 2005 11:03 PM

Até já então e tranca os fantasmas todos aí !

Publicado por: Mário às novembro 25, 2005 08:53 AM

Filhos, o que de melhor temos no mundo.

Publicado por: The Wolf às novembro 25, 2005 12:45 PM

Só abri agora o troll. Hoje tou um bocadito de molho, (levanto-me de vez em quando, mas estou um bocadinho mal..) e portanto não te dei ainda resposta nehuma, como costumo. O mal é haver costumes...
Pois eu como Lisboeta, ainda estou mais ligada a este cidade! Nasci cá, tenho cá vivido os momentos mais sérios e importantes da minha vida. Por acaso tenho vivido ao longo dos tempos, anos longe daqui, mas é uma sensação curiosa, porque mesmo quando me estou a sentir bem, sei perfeitamente que "ali" não é o "meu lugar". É mais um sentimento de pertença mútua. Aqui estou "em casa" mesmo quando os outros sítios são lindos.
Como, se usasse a analogia dos filhos, até podemos reconhecer que o nosso filho não é assim tão lindo como uma estrela de cinema, mas é o meu filho tem de ser lindo, sim. A minha cidade, também me zango com ela, ralho, amuo, mas é a minha terra...
Boa viagem.

Publicado por: ML às novembro 25, 2005 03:00 PM