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novembro 30, 2005

Se depois de eu morrer...

Por:Isabel Faria

Hoje tinha pensado não escrever mais posts. Porque datas são datas e o Troll faz um ano. No entanto, não resisiti. Afinal datas são datas e, há 70 anos, Alberto Caeiro desaparecia. E Álvaro de Campos e Bernardo Soares e Fernando Pessoa e...Não se pode deixar passar em branco a data em que desaparecem tantos poetas.
Aqui fica apenas a biografia que um deles desejava lhe fosse feita. Os desejos dos poetas devem ser cumpridos. Que descansem.

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas --- a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem setimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.
Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.

Alberto Caeiro

Publicado por Troll Urbano às novembro 30, 2005 09:35 AM

Comentários

Que tremor é este, que me percorre o corpo, depois das palavras de um fim que se anuncia, pelo fim que então se vê também escrito, não acabado, de um poeta? Na maior parte das vezes não tenho capacidade de ler até ao fim, caio antes, tal como em certos fados.

A macieza de tocar um pouco, sentindo o que me é ocultado, levando comigo uma essência nunca terminada e por isso eterna. Julgo-a eu assim, eterna, porque me assusta o fim, os fins, os principios, o que me escapa em tempo, no tempo em que não sei viver.

Extenso é o alpendre desta casa, onde me sento quieto, com espaço para olhar de onde vem a luz e para vêr onde cai a minha sombra... Longa vida ao Troll! (obrigado ao Daniel e á Troia do meu encanto). Parabens!

"Se depois de eu morrer", ai que espiral Isabel, já vinha em perda e agora os comandos não respondem. Não vejo pistas! Vou amarar!


Publicado por: Grilo da Idanha às novembro 30, 2005 01:38 PM

"Se depois de eu morrer"...vir as tuas palavras...não será nunca, eu sei, depois de eu morrer.
Obrigado,amigo. Senta-te no nosso alpendre. Aguarda um pouquinho. Antes que o Sol se ponha lá amararei também.
(Apetecia-me, agora, parafrasear-te, mudando, quem sabe, apenas, o lugar transformado em nome...não. Resisto. Um abraço.)

Publicado por: isabel faria às novembro 30, 2005 02:49 PM

Nada me expira já, nada me vive ---
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Publicado por: Golfinho [TypeKey Profile Page] às novembro 30, 2005 03:12 PM

Golfinho,como podem ser tão belas as palavras se são assim tão tristes? A tristeza, às vezes, é bela, não é amigo? Mas nem mesmo bela deixa de ser tristeza.
Obrigado por completares o meu post. Apesar de não ter foto. Mas o acordo com ou sem foto é para manter, não é?

Publicado por: isabel faria às novembro 30, 2005 03:42 PM