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novembro 26, 2005
Voar contigo
Por:Isabel Faria

Durante anos, habituei-me a ter medo de dizer amo-te. Primeiro, porque, naqueles quentes anos de cólera e festa, dizer amo-te era “pequeno-burguês”. Significava, acreditava, sobrepormos os nossos interesses, os nossos gostos, as nossas alegrias, o nosso eu aos do País, dos trabalhadores, da Revolução, do Mundo. Em última análise não aceitávamos que se pudesse amar num mundo amargo, cruel, desumano e injusto. Era como se aceitá-lo possível fosse tacitamente aceitar o mundo tal como ele era. Falar em amor era como que uma traição à revolução que tínhamos que fazer, para que, depois, finalmente, no novo mundo e com os novos homens, o amor fosse finalmente possível. Num mundo assim, como o que combatíamos, não era possível o amor. Não dizer o amor, ao menos. Claro que amávamos mas só a medo, quase clandestinamente, ousávamos, demonstrá-lo. Recordo que o meu primeiro grande amor, o homem que me ensinou a voar e me amparou em tantas quedas, me disse que me amava, sublinhando a expressão “amar-nos-emos” num livro de economia, que, um dia, me ofereceu.
Depois, ao crescer em idade e ao diminuir em quantidade de sonhos e de certezas, aprendi a evitar dizê-lo como defesa. Amo-te, significaria, então, entregar as armas. Reconhecer dependências, propor compromissos, esperar retribuições. Até podia dizer: Gosto muito de ti, adoro-te. Tudo me era permitido. Estou apaixonada, era, algumas vezes um pouco assustador, mas ainda saía, mas amo-te, amo-te não. Com a desculpa que o conceito poderia ter interpretações e leituras diferentes fui-o adiando. Como se falar de amor não fosse sempre falar do que amor é para nós. Como se falar de liberdade não fosse sempre falar do que a liberdade é para nós. Ou de paixão. Ou de justiça. Ou de amizade.
Algumas vezes, ainda, era a desculpa da banalização. As vezes que se ouve amo-te o que tem de amor? Mas não será isto o que se passa, afinal, com todos os outros conceitos que falam de sentimentos? Quanto se banalizou solidariedade, amizade, paixão…deixei por isso de ser solidária, de chamar amigo aos meus amigos, de me apaixonar diária, fatal e sempre definitivamente???
Há alguns tempos que sinto que perco, finalmente, o medo. Talvez ainda, sorrateiramente, sinta necessidade de explicar (explicar…como se soubesse explicar onde o teu olhar me leva) …aquece-me o Sol que me entra na janela, vejo o vento que bate nas árvores, sinto o calor do teu cheiro, o cheiro do teu calor e, apenas, porque contigo quero voar, amo-te.
Publicado por Troll Urbano às novembro 26, 2005 04:35 PM
Comentários
Cheguei agora depois de umas bichas infernais para umas compras urgentes ( não há programação que resista a dois dias de "uma espécie de gripe" que não era das galinhas de certeza, porque já passou )
Cheguei ao Toll e vim logo ler o post intimista, que curiosamente ( ou não, uma vez que se pode ler como dirigido ) ainda não tem comentários. Vou eu estrear! Quero lá saber, se tem os comentários abertos, é para se poder comentar.
A minha experiência diz-me Isabel, qúe não tem nada a ver com ser "pequeno burguês" uma declaração de amor, assim, como dizes - Amo-te! Tem muito mais a ver com pudor, um estranho pudor. No meu tempo, e ainda a revolução era um sonho, dizia-se I love you ou até Je t'aime, mas nunca Amo-te. a malta tinha vergonha, sentia-se ridícula. Era assim.
Passei por isso, como todos, acho eu.
Mas não é por terem outros nomes que os sentimentos são diferentes, não é? "Uma rosa com outro nome...." etc, etc pela bíblia Shaspeareana.
Publicado por: ML às novembro 26, 2005 07:07 PM
ML, e vem donde esses estranho pudor, amiga????
Mesmo que a Revolução ainda fosse um sonho já era um sonho. Tens a certeza que não havia uma pequena dose de culpabilização em ousarmos sentirmo-nos felizes, quando não havia liberdade, havia fome e se morria na guerra? Não seria eese pudor, pudor em aceitar esses momentos de felicidade que dizer amo-te, afinal,reconheceria?
Não sei, amiga. Eu penso que o senti assim. Dizer em francês ou em inglês...não era bem dizer...era como sublinhar uma frase que alguém teria, tera ou poderá dizer.Não era nossa a ousadia ...nós não falávamos aquela lingua.
Publicado por: isabel faria às novembro 26, 2005 08:06 PM
As palavras são simples e despidas de conotações, devemos falar o que sentimos, resta ao outro reagir. Nunca nos devemos inibir de mostrar os sentimentos.
Publicado por: Mário às novembro 27, 2005 02:19 PM
Mário, posso responder a essa tua certeza um cadito mais tarde???
P'raí amanhã ou Terça Feira??? ;)
Publicado por: isabel faria às novembro 27, 2005 03:38 PM
E quem vai ser o (in)feliz comtemplado? ;) ;) :) ;O
Publicado por: Golfinho
às novembro 27, 2005 06:09 PM
claro :)
Publicado por: Mário às novembro 27, 2005 11:26 PM
Isabel, o importante no meio disto tudo é sentires que amas alguém, não é dizeres. O facto de dizeres é só um complemento ao que sentes por essa pessoa. Não entendas isso como coisa de “pequeno-burguês” como dizes, pois, desde o há muito tempo, que se canta o amor e se diz várias vezes " amo-te ". Garantidamente há quemo cante de diferentes maneiras, nada tem de pequeno-burgês, tudo tem de sentir e por acaso, dizê-lo á pessoa que se ama.
Tal como o Mário diz, resta o outro lado corresponde e reagir ao que é demonstrado por ti.
Um beijo, não te conhecendo, gosto da tua maneira de escrever.
Publicado por: Doomed às novembro 28, 2005 09:01 AM
Golfinho, não há (melhor não tem que haver) esse (in)feliz contemplado. Sei que o ousaria dizer.
Como diz o Doomed, o importante é sentir...dizer, para mim, é um "avanço". Agora depende se a reacção do eventual contemplado, me dá asas...ou me faz voltar ao ninhozito.
Qualquer que seja a hipótese....há uma coisa que não muda. Quero voar.
Obrigado, Doomed.
Publicado por: isabel faria às novembro 28, 2005 09:25 AM