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dezembro 21, 2005

A nossa família

Por:Isabel Faria

Eles pedem-nos que sejamos razoáveis. Que aceitemos reduções. Que pensemos na empresa. A empresa é a nossa casa. Dizem eles. Pedem-nos que alteremos horários, abdiquemos de princípios, esqueçamos a família, esqueçamos os amigos, a empresa é a nossa família e eles são os nossos amigos.
Eles pedem-nos que trabalhemos horas extraordinárias, que aceitemos ganhar metade do que o nosso companheiro do lado, porque não temos companheiro do lado. Temos a empresa que olha, que zela por nós. Que se preocupa connosco. Eles pedem que assinemos contratos em que não temos direitos. E se nós hesitamos, eles passam ao seguinte e pedem-lhe que assine contratos sem direitos. E ele assina. E, na próxima vez, nós assinamos. E eles esperam, eles pensam que sabem que nós, a seguir, iremos assinar.
Eles fazem-nos festas de Natal, onde nos tratam como amigos e dizem-nos que não é preciso estar com os nossos filhos. Eles são a nossa família. A que interessa. Os nossos filhos podem esperar. Devem esperar. Eles são a nossa família. Olhem as bolinhas vermelhas...não são giras?? E o trabalho que nos deu a decoração da sala...e o dinheiro que se gastou...o que nós gostamos de estar convosco...de vos tratar bem. No Natal.
Eles não nos tratam por trabalhadores. Claro que não. Trabalhadores é um termo do passado. Somos associados. Algumas vezes ainda ousam o colaboradores, mas até isso acabará por cair em desuso. Associados. Este é o termo daquilo que somos na família.
Eles dizem que se não nos portarmos com juízo, se acharmos que o dinheiro que recebemos não chega, se pensarmos que devemos ganhar o mesmo que o nosso companheiro do lado ( e nunca, por nunca ser nos podemos esquecer que para eles nós não podemos ter companheiros...temos sócios, membros da nossa família) que exerce as mesmas funções que nós, ou que o nosso sócio (não, nunca nos podemos esquecer...) que exerce a mesma função que nós deve ganhar o que nós ganhamos, se não mudarmos de horário e não mandarmos a família (qual família? um associado não tem outra família) às urtigas, se nos recusarmos a assinar contratos ilegais, eles, a nossa família, ficam zangados e vão-se embora. Mudam de país. E nós ficamos sem família e sem emprego. Eles acham que nós não podemos viver sem família e que, portanto, acabaremos por aceitar tudo o que eles querem. Depois vêm pessoas de fora da família mas que se preocupam imenso com ela e dizem-nos que somos desobedientes, egoístas, só pensamos em nós, irresponsáveis, quem é que nos manda não pensar no País, no Mundo, no ministro, no Governo, no carro deles e teimarmos em só pensar em nós?
Depois dos ministros e das outras pessoas de fora dizerem isto, eles vão jantar ao restaurante mais caro da cidade, entregam as facturas da comida do cão, mandam as facturas do automóvel novo para o Caixa Geral e os recibos da gasolina que já andam atrasados para qualquer caixa, porque ter trabalhadores polivalentes também tem esta vantagem .Qualquer caixa sabe pagar os recibos da gasolina da última ida ao restaurante mais caro da cidade. Onde eles costumam ir. Às vezes levam a família. A outra. A dos sócios, nesta altura, não entra. Quando muito são capazes de convidar um ou outro ministro. Mas raramente. Eles sabem que não precisam deles. Eles é que precisam de nós, pensam. E não temos paciência para estranhos.
Se, por um mero acaso, algum desses nossos parentes, desses nossos associados lesse este post iria chamá-lo de demagógico. Eles quando fazem Festas de Natal é para ter a nossa companhia...agora isto. Que horror!! Demagogia. Pura e simples.
Eles também procurariam se algum, por um mero acaso, lesse este post, uma palavra. Eles gostariam de dizer que não estamos a ser...eles só querem o nosso bem e nós somos...a palavra não lhes sai. Têm destas coisas as palavras. À custa de não serem ditas, morrem. Eles nunca se lembrariam da palavra Justiça...se, por um mero acaso, alguma vez lessem este post. Morreu. De morte natural. Por falta de uso.

Publicado por Troll Urbano às dezembro 21, 2005 01:29 AM

Comentários

Anda um tipo com a cabeça entre o Winamp a cantar baixinho, dando a volta pelas tascas a ver como param as modas... catrapuz! Dá um salto na cadeira e acaba com a família à volta a perguntar se lhe aconteceu alguma coisa.
É só para perguntar onde é o botão de desligar a música...

Publicado por: CausasPerdidas às dezembro 21, 2005 03:15 AM

Isabel. por estas e por outras é que adoro ler-te.

Publicado por: Daniel Arruda às dezembro 21, 2005 08:33 AM

Hey, ainda pagaram a "festa" de natal! Conheço um sitio onde os "dirigentes" aparecem durante 5 minutos para dizer que "isto está mau e não sabem se podem continuar abertos" ;)

Publicado por: Mário às dezembro 21, 2005 09:10 AM

Causas perdidas, isso é maldade. E falta de espirito natalício.A música não se desliga...mandas a cadeira fora e vá lá...entre tanta tasca, um bocadinho de exercício só te faz é bem.

Daniel, obrigado.Depois da 1 da manhã costumo estar sempre inspirada!!!

Pois é Mário, às vezes ainda fazem festas de Natal. Mas claro que aproveitam sempre a ocasião pra fazer um discurso a dizer que isto está mau...muito pior que o ano passado...e para o ano que vem nem se fala...

Publicado por: isabel faria às dezembro 21, 2005 10:05 AM

Numa das entrevistas para emprego a que compareci perguntaram-me dessa disponibilidade para a empresa, ao que respondi que não arrancaria a minha pele para deles vestir a camisola. Espanto naqueles rostos que acabei destroçando ao desmontar a metáfora. Com familia de tenra idade não se pode ceder a presença e a atenção a troco de dinheiro, é que, depois, continuei, a única coisa que de mim saberão e quererão será o que sempre tiveram, dinheiro e distância; e droga para esquecer que outra vontade tiveram.

Publicado por: JR às dezembro 21, 2005 12:10 PM

Aplausos!!

Publicado por: Explícito às dezembro 21, 2005 02:25 PM

Excelente.

Publicado por: The Wolf às dezembro 22, 2005 10:28 AM