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janeiro 24, 2006

Angústia

Por: Daniel Arruda

Angústia

Costuma-se dizer que a vida é feita de pequenos nadas. Que esses pequenos nadas somados são tudo. E eu não sei viver sem tudo, sem esses nadas que me preenchem e que me realizam. Não sei viver sem projectos embora tudo na minha vida tenha sido uma nuvem. Não gosto de ponderar. Se o faço sai asneira, embora quando não o faço aconteça por vezes o mesmo. Mas vivo feliz quando me realizo. Não vivo a vida a 99%. Acho que ela só é saboreável quando vivida a 101%. Por isso não formulo desejos com as 12 passas da passagem de ano. Vivo cada dia como se fosse aquele o tal, não o último, mas aquele.

De há 15 dias para cá dei por mim numa angústia de não saber viver o dia seguinte. Como não acredito no destino tenho de encontrar uma razão para tal sentimento. Ou melhor dito, não tenho de encontrar a razão que essa eu sei, tenho é de me convencer que essa razão existe por muito que eu a negue. A razão é simples e óbvia. Tenho tanta coisa na cabeça, tantos projectos, tantos pequenos nadas mas ao mesmo tempo estou farto. Estou cansado. A mente atingiu um estado de saturação que não vão lá com 3 semanas de férias que sendo retemperadoras não são suficientes. Estou fisicamente cansado de uma vida que é vivida depressa demais, como se os ponteiros do relógio não acompanhassem o meu ciclo de vida estando constantemente atrasados em relação a ela. Estou cansado de enganar-me a mim mesmo adiando aulas de natação ou de ginástica, dizendo que o corpo é o que queremos fazer dele e que não será ele que me comanda. Estou cansado de adiar a faculdade. Estou cansado da frase de que eu sou insensível, que tenho uma couraça impenetrável para depois de um convívio mais cuidado vir a constatação que não sou assim. Estou cansado de ser moldado pela vida e não ser eu a moldá-la como gostaria. Estou cansado das refeições tomadas à pressa, dos jantares na roulote do Júlio, das noites mal dormidas, dos sonos que não aparecem. Mas também, à semelhança de não acreditar no destino não acredito no "eu" desfazado, desligado do meio envolvente e por isso estou cansado ou desiludido com o que me rodeia, do meu país, da minha europa, do meu mundo.

Tenho tanta coisa para fazer e tão pouca vontade de lhes pegar. Tenho tanta vontade de lhes pegar e tão pouca motivação para o fazer. Tenho tanta motivação e ao mesmo tempo um sentimento de inutilidade do que faço ou deveria fazer. Dou por mim a falar de revolução e deparo-me com o facto de não saber fazer a revolução dentro de mim, do meu quintal. Dou por mim a pensar nos outros e não tenho a capacidade de reflectir e agir sobre mim. Sentimentos ambiguos estes, não é? Mas são os sentimentos que me invadem numa angústia que se torna preocupante para mim que sempre fui senhor da minha situação, do meu estar.

Sei que amanhã vou continuar igual, que a angústia irá passar para voltar noutro momento, sei que não vou mudar, burro velho não aprende linguas diz a sabedoria popular, e di-lo muito bem. Talvez no fundo apenas queira tempo, para viver e ser vivido.

Deculpem lá o desabafo mas acho que se há coisa onde este blog me tem feito bem é no poder compartilhar com outros, sentimentos, estes pequenos nadas que no fundo são tudo.

Publicado por Troll Urbano às janeiro 24, 2006 01:01 PM

Comentários

Olha Daniel, não costumo passar por aqui a esta hora e este post, como é natural, surpreendeu-me. Afinal é porque tu, como felizmente grande parte das pessoas não é nada previsível. Este nunca seria um post que eu ia imaginar assinado por ti. Não por ser tão intimista (isso podia bem imaginar) mas pela tristeza que aqui transparece.
A imagem que se tem, quando te lemos, é do lutador. Sensível, interessado, animado, sujeito a paixões fortes ( olhó Benfica !) mas sempre lutador.
O que dá para entender é que não se pode lutar sempre, né? De vez em quando temos de fazer uma pausa. Tal como tu dizes, nem sempre o corpo acompanha o espírito ou vice-versa. Dizes uma coisa que eu, sei muito, muito bem «a angústia irá passar para voltar noutro momento». Porque é isso mesmo. Assim é a vida, de vez em quando enrola-se em novelos com muitos nós e até parece que não conseguimos desatá-los todos. Mas olha que eles desatam-se sim. É respirar fundo, de “descansar por dentro”, não apenas com as férias de que falas.
E o mundo reconstrói-se.
Um abraço, Daniel.

Publicado por: Emiéle às janeiro 24, 2006 02:47 PM

As pessoas que se dispersam perdem a capacidade de establecer prioridades, e quem não as estabelece é levado pela corrente.

Publicado por: Mário às janeiro 24, 2006 02:48 PM

Daniel,fico sem jeito para comentar um post teu, assim. Não pelo post, mas por mim.
Quem tem o previlégio de te ter como amigo, habituou-se a encontrar sempre um sorriso quando nos apetece chorar, uma palavra quando nos apetece desistir, um sinal quando nos sentimos perdidos...Um ombro. O ombro. E, depois, agora, aqui estou (estamos) sem palavras...apenas com uma frase. Amigo, nestes momentos, em que como diz a Émièle a solução está no "descansar por dentro" e esperar que os nós se desatem...a gente também tem ombrozitos para ti...

Ah, é verdade. Achar-te insensível é seguramente daquals opiniões que não sobrevive a dois minutos do teu olhar, ou da tua disponibilidade. Da tua amizade.Ou de ti.

Publicado por: isabel faria às janeiro 24, 2006 04:00 PM

Obrigado emiéle, acho que não deixo de ser o que referes mas há alturas em que uma pessoa tem baixos. Mas não se trata apenas de tristeza. São muitas coisas juntas. O que me custa mais é mesmo a desilusão mas tens razão quando dizes que eles se desatam. Sempre o fizeram também o farão agora.
É giro quando falas no Benfica, porque é muitas vezes aí na irracionalidade que se retemperam forças. Sabe bem estar ali, a conviver como referi numa posta há um mes mais ou menos. Prometo que não deixarei de ser lutador. Isso seria perder parte de mim.

Mário, Não se trata só de estabelecer prioridades, pois se assim fosse eu seria mais um comodista de sofá. A prioridade seria a família, eu e não sobraria muito tempo.

Publicado por: Daniel Arruda às janeiro 24, 2006 04:35 PM

Obrigado Isabel, é bom saber isso que escreves mas isto não se trata de um ombro pois felizmente dessa falta não sofro, é mesmo ordenar-me a mim mesmo, por dentro.

Publicado por: Daniel Arruda às janeiro 24, 2006 04:47 PM

Então queres dizer que todos os dias sacrificas a familia ?

Publicado por: Mário às janeiro 24, 2006 05:02 PM

Algumas vezes, outras rouba-se ao sono e outras definem-se prioridades. Mas em resposta, sim, algumas vezes a família é sacrificada e essa éuma das razões para estar cansado como disse no post.

Publicado por: Daniel Arruda às janeiro 24, 2006 05:39 PM

Mário, quanto a isso de sacríficios, deixa-me só dizer uma coisinha.
No Domingo numa longa conversa com o meu filho, por acaso veio à baila essa parte. O tempo que nos (lhe) roubo por outras questões que também são, para mim, prioridade.
A resposta foi, se não roubasses não eras a minha mãe. A que eu gosto. Podias ser outra, mas eu gosto é desta...não é portanto tão linear nem sei se a questão se pode colocar assim...compreendo que o cansaço possa ser grande...mas não tenho a certeza se, e falo por mim, nas ocasiões em que o sinto mais, eu seria a Isabel, a mãe do João Pedro se não lhe roubasse um bocado de tempo para outras (as outras) coisas.
A gente acaba por perceber que o tempo estica...às vezes cansamo-nos é a esticá-lo. Mas acabamos por não passar sem o nosso elastiquinho!!!!

Publicado por: isabel faria às janeiro 24, 2006 06:08 PM

Ah, Daniel, e julgas tu que foi por acaso que te falei no Benfica? Eu sei bem que não há nada para arrebitar um adepto que falar-lhe do clube do seu coração que ainda por cima está na mó de cima... Mas este sábado, [ai, ai, ai,...] é que vai ser!!!!
( e olha que cá por casa nem sequer essa alegria podemos ter...)
Quanto às coisas que se acumulam, também conheço a sensação é claro, quem é que não sabe o que isso é? Mas tenta pensar numa de cada vez. Pode parecer que não dá resultado, mas dá um bocadinho.

Publicado por: Emiéle às janeiro 24, 2006 07:50 PM

Sábado vai ser mais uma noite inesquecivel na Catedral. Estas convidada para a imperial a seguir na Cabrinha em Cacilhas.

Publicado por: Daniel Arruda às janeiro 25, 2006 02:53 AM

Ok, os sacrificios têm muitas matizes, mas lá está há que saber até onde se pode ir, caso contrário podemos arrependermo-nos. Há quem consiga ir balanceando a coisa, mas há também que não o faça.

Publicado por: Mário às janeiro 25, 2006 09:45 AM