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janeiro 29, 2006

Da imortalidade e outras coisas...

Por:Isabel Faria

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Só me lembro de me ter tornado mortal no dia em que o meu filho nasceu. Antes não. Quando o meu pai saia de motorizada e tocava a sirene lá na vila, tinha medo. Quando a minha mãe foi internada por causa dum quisto, tive medo. Mas a minha não existia.
Durante a gravidez, recordo que pensei muitas vezes que algo poderia não correr bem. Algo não correr bem, era o mais aproximado que podia ir da morte. Da minha morte.
Quando a enfermeira me chamou para ir ter o João Pedro, escrevi no livrito de apontamentos “se algo correr mal”. Ainda não me tinha, portanto, tornado mortal. Depois sim. Quando o olhei. O amor é estranho, devo ter pensado quando me apercebi que era mortal.
Agora sim. Há alturas em que me convenço disso. Que me tornei mortal e que não há volta a dar a isso. Mas também ainda não é sempre. Quando olho para o meu filho hoje (estranhamente, já que foi a olhá-lo que a viragem se deu) acho que não irei nunca. Também me acontece quando me apaixono. Ou quando me entrego a uma causa. Ou quando a ternura me invade. Nessas alturas volto a 29 de Maio de 1990 e sou de novo imortal. O problema de agora é que esta certeza já tem dias. Mas ainda prevalece. Estive a fazer as contas e, em para aí metade do tempo, acho que não…com o tempo e com o medo que tenho da dita, que imagino sempre de branco, eu que detesto branco, cheguei à conclusão que tenho que passar cada vez mais tempo a olhar o meu filho, a apaixonar-me. A lutar por causas. E a abrir as janelas. E vou tentando brincar um bocadito com ela. A minha mortalidade não é coisa que me agrade por aí além. E a única maneira de lhe trocar as voltas é mesmo, fazer-lhe um sorriso desarmante. Tenho a certeza que resulta.
Também me parece suspeito que tenha começado a conseguir falar dela. Mais ou menos calmamente. Mas penso que é porque devo ter percebido, naquele momento, em que vi o meu filho deitado numa caminha minúscula, que apesar de mortal, tinha demasiadas coisas para fazer ainda para me preocupar com esse pormenor de somenos importância. Ainda penso assim.
Este post hoje só deve ter a ver com o frio. É que para além de branca, imagino-a um bocadinho p’ró gelado. Como todos os que me conhecem sabem, para além de não gostar de branco, adoro calor. Mais uma razão…e sou capaz de encontrar mais uns bons milhares…ela pensa o quê?

Já depois de reler estas linhas cheguei a uma conclusão. Entendi, por fim, o porquê de ser aquele dia, o dia em que me tornei mortal. Nâo cabe mais do que uma imortalidade nas nossas vidas. Um dia passa-se o testemunho.

Publicado por Troll Urbano às janeiro 29, 2006 01:26 AM

Comentários

"Você sabe lá o que é gerar uma vida humana"

Publicado por: Homem Lobo às janeiro 29, 2006 12:32 PM