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janeiro 23, 2006

Hoje

Por:Isabel Faria

O bem que me sabe o meu Rossio cheio de cor e de cores. E de vozes.
Pensei que deveria ir espreitar o Tejo, mas não tinha tempo. Tinha que aproveitar o dia para tanta coisa. Coisas chatas. Mas coisas que tinham que ser feitas. E subi. Nos Restauradores, ali mesmo no meio da praça, um casal abraçava-se. Como não avisaram quase choquei com eles. Que estupidez. Claro que não podiam avisar. Como se a paixão, o afecto e o desejo pudessem, soubessem avisar. Como se escolhessem hora e lugar. Eu é que tinha que me ter desviado. Ou não. Raramente me desvio, pensei. Mas esta é outra história, outra parte da história.
Subi a Rua das Portas de Sto. Antão e parei em frente ao Coliseu. Desde há uns tempos sempre que aqui passo, há circo lá dentro. As portas estão encerradas. Ainda não deve ter começado. Pego num daqueles banquinhos de madeira com o buraquito ao meio, daqueles que usava para o meu circo do Largo ao pé de casa. Paro a tempo. Pego noutro banquito de madeira. Desde há algum tempo que passei a precisar sempre de dois banquinhos para ver o circo no Coliseu. Nunca mais o vi sozinha. Um senhor idoso aproxima-se, já eu sentada à espera, e penso que me vai perguntar do que estou à espera. Afinal, apenas me pergunta a que horas começa o circo. Que bom. Ele também sabe que há. Diz que vai ali, ao lado, buscar um banco para ele. Ainda bem que não começa já, diz. Já tenho as pernas um bocadinho trôpegas. Não posso andar depressa.
Quando as luzes se fecham volto a sair. Ainda ouço as palmas. Acabo, então, de subir a rua ( os banquinhos ficam guardados para amanhã) e subo a Calçada do Lavra. Não tomo o elevador. Não hoje. Preciso de demorar tempo. Não volto à direita para casa. Volto à esquerda para o Torel. Afinal, apesar das coisas chatas que tive que fazer, ainda me resta tempo e luz para o rio. Há dias em que não se pode voltar para casa sem ele. Hoje não pode. Respiro. Respiro-o. Ou respiro-te? Sei lá…pego-te suavemente na mão.

Publicado por Troll Urbano às janeiro 23, 2006 05:55 PM

Comentários

Tantas foram as vezes em que, quando já estava no chão, não foi a incapacidade de me levantar mas antes a vontade de ali ficar.
Naqueles momentos..., via-se melhor dali.

São tuas as casas, as calçadas, os sorrisos á volta.
Por vezes chego a pensar que o Tejo é teu...

Publicado por: Grilo da Idanha às janeiro 24, 2006 10:09 AM

É um cadinho meu, sim...mas eu partilho...queres um bocadinho do meu Tejo, amigo?
Também tive (tenho?) alguns, muitos desses...agora não. Hoje não.

Publicado por: isabel faria às janeiro 24, 2006 11:43 AM

:)

Publicado por: Johnny às janeiro 24, 2006 12:17 PM