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janeiro 11, 2006
O assobio
Por:Isabel Faria
Quando se vêem imagens da campanhas para as presidenciais e quando já se assistiu a muitas outras campanhas.
Ou quando se fala com os colegas de trabalho, mesmo os que votam diferente de nós. Sobretudo estes.
Ou quando se sai à rua e não se vê um autocolante numa lapela.
Ou quando numa acção de campanha quase não se ouvem vozes dissonantes.
Sente-se, eu sinto um arrepio. Isto não quer dizer que ache que se tenha que andar à pancada, que se tenha que apupar...mas falta calor. Não estou a falar dos candidatos, agora. Falta discussão. Falta convicção. Falta empenho. Em nós, que temos uma opção feita. Falta empenho nos outros dias do ano, da vida, em que não há campanha eleitoral.
Cada vez mais, nas pequenas coisas do dia a dia, como numa campanha eleitoral, como no parque desportivo do bairro que se vê desaparecer, como na escola dos nossos filhos que se vê degradada...passamos ao lado. Fingimos que não é nada connosco.Que não vemos, que não ouvimos, que se há-de resolver e se não se resolver paciência. Nós passamos ao lado. Sempre. Cada vez mais passamos ao lado. De tudo na vida. E a campanha, o encolher de ombros perante a escola degradada, ou perante as promessas não cumpridas, não são excepção à regra do que se está a tornar este País.
Pergunto-me se num País que vibra com o José Castelo Branco ou com a Segunda Companhia, que é capaz de se entregar de alma e coração à selecção ( e não, não tenho nada contra o futebol..) , mas que nas coisas, nos momentos importantes, naqueles de que depende a sua vida, o futuro dos seus filhos, assobia para o lado, não age, não discute, não pensa, o Cavaco, claro que me lembro, mas e então...já está eleito, porque é que me vou chatear...o Governo aumenta a idade da reforma...quero lá saber não sou funcionário público...pergunto-me se num País assim, não são normais as sondagens?
E não. Não se trata de um post amargo ou desiludido. Não desisto. Continuo a vir de autocolante para a rua. Continuo a comer um pastel de bacalhau à pressa. E venho duas horas mais cedo, para poder ter tempo para falar com os meus colegas. Mas não vale a pena esconder a cabeça na areia. Não basta não eleger Cavaco. Não basta não desistir de lutar contra o Governo e contra a sua politica. Temos que comprreender que com ou sem Cavaco, com este ou outro Governo, o que temos essencialmente de encontrar formas de combater é este estado de letargia, de encolher de ombros, de não é nada comigo. Porque é este estado de letargia que vai vencendo eleições. E é esse estado que poderá lá meter Cavaco. Que eterniza o Bloco Central no Poder. Que não reage contra a degradação da escola, o parque desportivo que é substituído pela agência bancária, que dá maiorias absolutas a Fátima Felgueiras ou a Isaltino de Morais.
Não se trata dum post derrotista. É, apenas, um alerta para mim. Se estou aqui num Blog. Se trabalho. Se educo um filho. Tenho o dever de, após o dia 22 de Janeiro, seja quais forem os resultados do dia 22 de Janeiro, não cruzar os braços contra o verdadeiro vencedor desta eleições. O assobio p’ró lado.
Publicado por Troll Urbano às janeiro 11, 2006 10:45 AM
Comentários
Isabel, conforme os anos vão passando, o hábito de votar começa a ser cada vez mais mecânico, mais como ir ao médico porque é preciso, e menos por convicção , por ideologia.
Esta campanha é disso o melhor exemplo, calor, mobilização entusiasmo, muito pouco, debate nos transportes, nos locais de trabalho, pouco ou nada, e no entanto no dia da eleição uma grande maioria dos portugueses lá vai cumprir a sua obrigação, e volta para casa contentinho da vidinha, até que seja chamado da próxima vez.
Isto até nem é tão anormal como isso, veja-se o que se passa por essa Europa fora.
Talvez a maior diferença seja a concentração de praticamente TODA a comunicação social num determinado candidato, coisa que só existe em regimes totalitários, e o pouco debate de projectos, de reais alternativas, entre os vários candidatos, e quando se tentou o debate logo isso foi apelidado de ataques.
Eu como já disse, julgo que ainda correrá muita água debaixo das pontes nestes dez dias que faltam.
A rua , o esclarecimento, a mobilização dos indecisos, O COMBATE À DESISTENCIA E AO DERROTISMO, se fõr bem feito , ainda poderá levar a muitas surpresas no dia 22.
Publicado por: a.pacheco às janeiro 11, 2006 11:58 AM
Históricamente todos os sistemas têm um fim. Parece-me a mim que o rumo traçado pelos políticos desta Europa está a levar ao esgotamento precoce do que vivemos. Gostamos de falar em democracia quando 50% dos eleitores são abstencionistas, falamos de participação quando o estado exclui ao inves de incluir. Por cada dia que o Estado nos tratar como finaciadores e pagadores de impostos e não como cidadãos isto vai piorar.
Dizia-me há tempos um colega de trabalho que os acontecimentos de França foram feitos por uma minoria de descontentes e muitos miudos arruaceiros. Não me parece longe o dia em que aquela situação seja global na Europa e que os miúdos sejam uma minoria.
Nesse dia, e desculpem-me o idealismo a história se repetirá e uma revolução social triunfará.
Publicado por: Daniel Arruda às janeiro 11, 2006 01:17 PM
É enorme, largo, o espectro da luta para se conseguir mudar, Isabel, eu sei.
Partilhando as tuas palavras e tentando no passado imediato encontrar algo que simbolize o meu comentário, retenho uma frase de ontem, da arruada na Morais Soares, que vi na televisão: "Não é agressividade, é clareza!"
Muitas coisas faltarão, hoje deixo aqui a CLAREZA.
Publicado por: Grilo da Idanha às janeiro 11, 2006 01:32 PM
Ó Daniel, não me parece nada disso, porque ao contrário dos países mais próximos geográficamente, aqui foram preciso serem os militares mudar as coisas (alguma coisa apenas), os espanhois tiverem guerras e muito sítio onde mostrar a sua agressividade, os franceses idem, aqui, assobiamos e esperamos que passe.
Publicado por: Mário às janeiro 11, 2006 04:12 PM
Isabel, para ir apoiar a selecção, é simples, basta comprar o bilhete e estar no estádio na hora designada superiormente, não exige grande sacrificio (que pelo futebol estranhamente muita gente é capaz) e no fim há a possibilidade de irmos para casa (eu não que detesto futebol) com uma felicidade com algumas horas de prazo de validade (ou o contrário).
Há demasiados obstáculos e a nossa vida já é bem complicada, por isso vence o darwinismo social (cada um por si).
A sociologia é uma ciência preciosa quando temos por objectivo mudar sociedades, é útil para evitar desilusões.
Publicado por: Mário às janeiro 11, 2006 04:18 PM
Mário em não espero por nada, faço por isso, mas o comentário era a constatação de que oa politicas também levam isso, mas sem luta não se muda nada.
Quanto ao darwinismo
Publicado por: Daniel Arruda às janeiro 11, 2006 05:54 PM
Não me desilude a desistência. Conheço-o no dia-a-dia e claro que não o conheço de agora. Mas preocupa-me sim. Até porque não é só da politica (seja isso o que for, neste sentido lato...). Normalmente não reclamamos se somos mal servidos num restuarante ou na companhia dos telefones.Ou num centro de saúde.
Não nos moblizamos contra os aumentos. Não reivindicamos um jardim.
Se a vida é muito complicada, ok...sentemo-nos em frente às novelas...discutamos o último fim-de-semana desportivo... ou chamemos nomes ao gajo que nos ultrapassou e lá vamos. Não felizes. Nem contentes.
A.Pacheco, desculpa lá...eu sei e acredito no que dizes. Também acredito que muita água ainda vai passar por baixo das pontes...mas com água ou secos, se não mudarmos como povo, vamos ter sempre uma vida muito complicada.
Publicado por: isabel faria às janeiro 11, 2006 08:34 PM
Este é o povo que somos e já cá andamos há 900 anos, por isso Isabel é com este barro que temos de saber lidar.
E olha que ele molda-se ....molda-se
Dá é muito trabalho....
Publicado por: a.pacheco às janeiro 11, 2006 10:39 PM
Muito sinceramente, enquanto as grandes dificuldade forem só sentidas nas camadas mais baixas da população, toda a gente sentirá muita pena, mas fica contente de não estar tão mal assim (na classe mais alta nem se apercebem que vivem noutro mundo). Se um dia as coisas começarem a dar para o torto (monetáriamente) para a classe média-média então aí veremos muita raiva social que terá de ser apaziaguada com $$$ (que remedeia quase tudo).
Daniel não acreditas no Darwinismo social ? Alguns milénios de história da sociedade mostram-nos que a realidade é mais forte do que muitos sonhos.
Publicado por: Mário às janeiro 12, 2006 10:43 AM
Hey, não sou o desmancha prazeres que vem para aqui aborrecer-vos (parece um bocado eu sei), só que quem luta tem de assimilar que pode lutar toda a vida e não conseguir mudar nada, mas o melhor resultado destas lutas blogosféricas é que as pessoas podem saber que o seu esforço não é inútil, já que há quem o aprecie e encorage (embora as minhas intervenções possam parecer o contrário) nem que seja apenas aqui nestas caixinhas.
Publicado por: Mário às janeiro 12, 2006 11:04 AM