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janeiro 10, 2006
Sem título
Por:Isabel Faria

Na casinha pequena do rés-do-chão do meu prédio, esta manhã ouvia-se o barulho dum Black& Decker e cheirava a aparas.
Nas manhãs de Inverno devia sair de casa à hora de hoje. As manhãs do Ribatejo são frias e havia sempre gotinhas brancas nas ervas e nas couves do quintal. Do fundo do quintal, logo que acordava, vinha o barulho do martelo e das serras. Não havia serras eléctricas. Havia uns serrotes engraçados com um cabo de madeira onde o meu pai escrevia sempre JS, na sua letra bonita.
E cheirava a madeira. O cheiro da madeira misturava-se com o cheiro do café ou do cacao quente. Na camilha, tapada pela toalha cor de vinho, havia uma braseira. Mas não era aí que a pedra aquecia.
Quando estava pronta, ia dar um beijo ao meu pai e a pedra já estava lá à minha espera. Nas manhãs frias de Inverno, no Ribatejo, não era possível trabalhar logo ao amanhecer, sem uma braseira por perto. A partir das nove horas, o meu pai ia receber a água. Ainda hoje se lembra dos nomes e das moradas. Não fosse, às vezes, haver umas casas novas e o Sr. Serafim ou a Maria das Dores, já terem morrido e a casa ter sido vendida. Às sete, tinha que começar a trabalhar na oficina. E à tarde. Às vezes até à noite. Quando dava para aguentar o frio.
E lá estava sempre a pedra. Embrulhada numa prata, era as minhas luvas. Creio que um dia, no Natal, a minha mãe me ofereceu umas luvas de malha castanhas, mas o meu pai continuou sempre a aquecer-me a pedrinha e a embrulhá-la na prata. Quando chegava à escola, guardava-a dentro da mala. Para o meu pai aquecer no dia a seguir.
No bocadinho que lá ficava, enquanto pegava na pedra e me despedia, o meu pai aproveitava para aquecer as mãos na braseira. Normalmente estavam vermelhas. E cheirava sempre a aparas.
Esta manhã senti a falta da minha pedrinha. Cheguei á empresa com as mãos frias. Apesar das luvas que o meu filho me ofereceu há dois anos, pelo Natal..
Publicado por Troll Urbano às janeiro 10, 2006 10:04 AM
Comentários
:D
Publicado por: judite às janeiro 10, 2006 12:34 PM
Escuso de dizer o que já sabes, é claro: o que te aquecia não era a pedrinha da braseira, era o calor do afecto do teu pai.
E as luvas, se foram oferecidas pelo João Pedro também devem aquecer bem. Junto à pedrinha da tua recordação.
Publicado por: ML às janeiro 10, 2006 01:58 PM
Pois aquecem, amiga. Mas o cheiro das aparas fez-me sentir tanto a falta da pedrinha...
Judite, obrigado pelo sorriso.Outro.
Publicado por: isabel faria às janeiro 10, 2006 02:23 PM
A minha Mãe (que é natural da Beira Baixa e estudou na Covilhã) fala-me nessa pedra, também ela conta como essa maneira engenhosa a fez "matar" o frio!
Publicado por: Farpas às janeiro 10, 2006 03:54 PM
Sempre me lembro dessa pedrinha para matar o frio, Farpas, enquanto andei na escola. A minha avó deu-me a pedra que ela usara. Era redonda e quase branca. Dizia-me que as pedras brancas mantinham o calor durante mais tempo Nunca pecebi se isto tinha qualquer base cientifica...mas senpre achei que a minha pedra mantinha o calor da braseira do meu pai, durante muito tempo.
Publicado por: isabel faria às janeiro 10, 2006 04:34 PM
Que encanto.
(Do frio do Ribatejo lembro-me, das noites geladas próximo de Vale de Cavalos com os pés ensopados nas botas e as mãos encarquilhadas a mal segurarem a G3. Das manhãs frias dentro da escola, em formatura á espera de nada. Agora tenho saudades e se a máquina me levar até lá, vou procurar uma pedrinha...)
Publicado por: Grilo da Idanha às janeiro 10, 2006 06:02 PM
Vale de Cavalos, Grilo...quando ia de bicicleta para Vale de Cavalos e parava na Quinta da Torre a roubar figos...tinha um namorado em Vale de Cavalos. Usava sempre uma capa alentejana. Ele nunca soube que era meu namorado. Mesmo quando eu lhe dava figos que tinha roubado na Quinta da Torre.
Publicado por: isabel faria às janeiro 10, 2006 06:26 PM
Sim, e sabes que me perdi por lá, um dia. Andei de casa em casa, a procurar. Toda a gente me tentou ajudar, julgo que não foi pela farda mas antes pelo meu ar ensopado e desgraçado...Agora ficou a cheirar a figos, é sempre assim.
Publicado por: Grilo da Idanha às janeiro 10, 2006 06:33 PM
Sabes, Grilo, não sei se nã foi pela farda...a sério.Ãs generalizações são pergosas, eu sei. Mas o povo ribatejano é, na sua maioria, um povo muito desconfiado. Por príncipoi olha sempre de lado para o que vem de fora. Se vens ensopado e desgraçado, ainda pior. Não deves ter estado a fazer coisa boa....talvez esteja a ser um bocadinho dura..ou talvez não...e a farda tenha mesmo ajudado.
Publicado por: isabel faria às janeiro 11, 2006 11:15 AM
Talvez Isabel, talvez tenhas mesmo razão. Obrigado também pela chamada á Terra.
Publicado por: Grilo da Idanha às janeiro 11, 2006 12:54 PM