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fevereiro 14, 2006

Zeca

Por:Isabel Faria

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Ouvia-se o Zeca às escondidas. Um tio que tinha estado preso, ou outro que estudava em Santarém, falavam no Zeca. Depois, uma noite, iamos lá a casa e surgiam aquelas argolinhas pequeninas, mágicas. E delas a voz, e as palavras de encantar.Ouvia-se sempre baixinho. Na casa do tio que estudava em Santarem, só se ouvia quando o meu avô dormia. O meu tio dizia que ele tinha medo. Cedo entendi que era posível ter medo de ouvir aquelas palavras. Muito cedo. Creio que antes mesmo do primeiro dia que as ouvi. Em nossa casa não havia gira-discos. Mas acabei por descobrir que, tarde na noite, depois de muito procurar, o Zeca, também aparecia no rádio do meu pai. Devia pensar que era um segredo. A cara do meu pai era a cara dos segredos.
Mas o Zeca, a sério, e os ourtos, o Adriano, o Luís Cília, o Zé Mário, só ouvi mesmo quando fui para Santarém estudar. Já uma vez falei no Castela. Falarei sempre no Castela. Na livraria Apolo, conheci um maravilhoso mundo, até então quase desconhecido. Li o Redol e o Garcia Marquez, aos bocadinhos. Sentada nos bancos da discoteca. Horas a fio. Quando não havia aulas, ou quando havia, mas a vontade de sonhar era tanta, que uma dor de barriga aparecia por milagre. A gente dizia, se fizermos todas muita força para ir para a Apolo, dá a dor de barriga à professora de Inglês. E, zás...meninas, a professora está doente. Podem sair.
Sempre achei que o Castela tinha uma arca onde escondia as relíquias. Tipo gaveta das mesas alentejanas, mas em arca. E sempre achei que ele tinha o banco à entrada da porta para ter tempo, no caso de ver, ao longe, aproximarem-se intrusos, de esconder os tesouros. Saíamos a cantar o Zeca. Às vezes não baixinho. Olhávamos à volta. Ninguém em redor. A minha mãe dizia que as paredes tinham ouvidos, mas eu não acreditava. E cantávamos.
Havia uma, a balada do Bairro Negro. Eramos tão novinhas, mas todas nós que, naqueles anos, aprendiamos a sonhar na livraria Apolo, conheciamos aqueles meninos.
Nunca tive tempo de agradecer ao Castela. Assim, directamnete. Foi cedo, ele. Creio, no entanto, que lhe agradeço cada vez que ouço o Zeca. Ou que vejo um menino daqueles que ele guardava na arca dos segredos. Desde o dia em que o Zeca me cantou estas palavras que eu soube. Que queira ou não queira, o papão, o menino do bairro negro há-de um dia cantar.

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até dá gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Publicado por Troll Urbano às fevereiro 14, 2006 08:45 PM