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março 11, 2006

11 de Março de 1975 (e o meu botãozinho)

Por:Isabel Faria

Há determinadas coisas que não faz sentido teimar em escrever diferente, quando pensamos e sentimos o mesmo. Apesar de tanta coisa que mudou desde há um ano, eu não mudei. Fiquei com mais umas rugas, umas da idade, outras de risos, poucas (felizmente) de lágrimas, mas foram essencialmente rugas na cara. Cá dentro, continua, mais coisa menos coisa, a Isabel do Afixe.
Por isso, não justificava tentar escrever coisas novas para este dia, Não seria capaz de escrever coisas diferentes. Nada melhor, portanto do que, partindo delas ou transcrevendo-as, tout court, fazer um post. Sobre o outro 11 de Março, o meu, o de 1975. Em contraponto ao 11 de Março de Madrid, do terror e da morte, espalhados em nome de fundamentalismos. A este post juntei, então, umas quantas linhas sobre a minha forma de estar na vida e de viver a história, com ou sem maíuscula. Aqui ficam.


março 1.jpg março 2.jpg
(imagens de aqui)

O outro 11 de Março

Tenho o privilégio de, garota, ter conhecido outro 11 de Março. Portugal.1975.
Independentemente da opinião de cada um e do julgamento da História, do que se viveu a seguir, recordo a imagem de quando a paz se fez no abraço de dois homens, por acaso, soldados, com a intervenção de um outro homem, por acaso, jornalista.
Como eu gostaria que a memória do 11 de Março do meu filho, em vez de terror e morte, tivesse a poesia e a esperança da memória do meu 11 de Março

O outro 11 de Março e o botãozinho (adaptado)
Eu tenho um botãozinho mágico.
Que me faz recordar o primeiro olhar do meu filho e não as dores de parto.
Que me faz recordar o meu pai a levar-me à escola e não a prisão do meu pai, pela Pide.
Que me faz recordar os encontros e não as perdas.
Que me faz recordar os risos e não os choros.
Que me faz recordar o abraço dos dois soldados que evitou a guerra civil em 11 de Março de 1975 e não o comunicado do Ralis feito na hora e a quente.

Quando o botãozinho se avaria, eu, às vezes, recordo o medo, a censura, a Guerra, as prisões, a clandestinidade, as cargas da polícia e por isso consigo compreender o comunicado que fala em fuzilamento de quem pretendeu acabar com a Liberdade e voltar ao passado. Este comunicado foi feito menos de um ano depois daquilo que o parvo do botão me recorda, quando se avaria. O passado, o do botão avariado estava ali, na esquina. Demasiado perto para se ser completamente racional e sensato quando se pensava nele. Porque o botãozinho quando se avaria,repito, teima em mostrar a repressão, a guerra, a censura, os passos na noite, o medo e a morte. E ainda não tinha passado um ano...sobre o fim do terror.

O que o botãozinho não me permite é reescrever a minha história. E a minha história é feita com o 11 de Março de 1974, o 25 de Abril de 1974, o 11 de Março de 1975, o Verão de 1975, o 25 de Novembro de 1975 e tudo o resto que se seguiu.
De todos estas datas, como disse no início, o meu botãozinho simpático permite, quase sempre, ver as coisas bonitas. Manias de botãozinho

Publicado por Troll Urbano às março 11, 2006 01:30 PM

Comentários

O teu texto continua tão interessante e bem escrito como da primeira vez. Dá muito prazer lê-lo, Isabel. Porque dizes coisas muito importantes com o filtro da emoção o que torna o que dizes tão pessoal que me parece difícil contrapor. O que nunca seria o meu caso, porque sinto o mesmo que tu.
(tinha também em rascunho, um post sobre o dia; entretanto fui escrevendo outras coisas e o post continuou em rascunho, e agora já não sei se o recupero se mando os meus leitores para aqui, é a lei do menor esforço :) ]

Publicado por: Emiéle às março 11, 2006 02:20 PM

Pois é, amiga, fui buscar este ao "arquivo".
Quanto a ti...podes "roubar". Para alguma coisa serve sermos germinados/as!!!

Publicado por: isabel faria às março 11, 2006 05:01 PM