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março 19, 2006
Ainda está guardada a Lua a dançar...
Por:Isabel Faria

Os dias 19 de Março, sempre foram dias complicados. Não vale a pena esconder que as opções, mesmo aquelas de que nunca nos arrependemos, nem sempre não doem. Ver-te chegar e guardar o desenho na gaveta da escrivaninha ou o carrinho de cartolina na mesinha para quando o dia chegasse, doía sempre. Porque sabia que o dia não chegaria. E tu ainda não sabias. Passou a ser mais fácil quando começaste a entregar, ao avô, as prendinhas que fazias na escola. Não sei se mais fácil para ti, meu amor, mas muito mais fácil para mim, acredita.
O ano passado gravaste uma música para me ofereceres, Este ano, não sei. Daqui a pouco se verá. Talvez cresceres seja, também definitivamente, teres desistido de arranjar destinatários para as prendas. Ou prendas. Logo mais, verei…
Mas dias 19 de Março, também foram muitos outros. Quando, sozinha, te vi na primeira ecografia; quando, grávida, te esperei sozinha na visita das sete; quando, sozinha, percorri os corredores frios dos Capuchos enquanto eras operado; quando, sozinha, te vi triste; quando, sozinha, hoje, não tenho, tantas vezes, as palavras para te falar da vida dos grandes, da que agora também já sentes tua. Da nossa vida. Quando me faltam as palavras para te falar de “homem para homem”. Quando tenho receio que delas sintas falta, como tinha receio há muitos anos que tivesses falta de ter a quem dar o carro de cartolina ou o desenho da Lua a dançar, que continuam guardados na gaveta da escrivaninha.
Quando no outro dia me dizias que só sentiste a falta…porque eu nunca soube jogar futebol, apeteceu-me aprender a jogar futebol…contive-me a tempo. Afinal, o futebol, terás, João Pedro, que o guardar na gaveta. Juntamente com a Lua a dançar. Não quero substituir ninguém, meu amor. Teremos que jogar xadrez em vez de futebol. Nunca quis substituir. Quando, na Clínica de S. Miguel, me disseram que ias nascer, entendi que a minha vida não iria ser substituir alguém. Iria ser, apenas, tentar fazer-te feliz. Sozinha.
Entretanto, mais logo, faremos o que fazemos há anos. Ligaremos ao avô. Um beijinho, pai. Um beijo, pai da minha mãe. Fazemos isto, desde há muito, a dois. Está já combinado para o meio-dia. Assim que acordares. Disseste.
Publicado por Troll Urbano às março 19, 2006 12:10 AM
Comentários
Estive aqui à espera para ver se colocarias um post, não me enganei, é maravilhoso ler-te! És um grande exemplo mulher! Um grande beijo para ti que deves ser uma mãe/pai fabulosa, e um grande abraço para o João Pedro!
Publicado por: Farpas às março 19, 2006 12:28 AM
Isabel, reconeço a(s) tua(s) angustia(s). Não porque alguma vez a tenha sentido (a do dia do Pai, as outras senti muitas vezes), porque os meus filhos tiveram destinatário para as prendas. Mas porque a(s) vejo muitas vezes estampada(s) na(s) cara(s) de outra(s) mãe(s). Mas, como já anteriormente te disse, as crinaças têm muita capacidade de resiliência. Nós (adultos) é que muitas vezes não temos. Penso que foi uma boa opção, essa do João Pedro dar as prendas ao avô. O resto...claro que sentiu falta...em situações muito esporádicas. A ti, tem-te sempre, não é esporádico. Beijitos
Publicado por: Pina às março 19, 2006 12:42 AM
Pois é Farpas, já me conheces um bocadinho...já são uns mesitos, não é???
Ainda bem que gostaste.Sou uma mãe.Que tento que o meu filho não pague pela opção que a mãe, sem o consultar, fez. Só isso.
Obrigao pelo beijo (está aí a chegar outro...) e vou dar o abraço ao João Pedro.
Pina,estava a escrever este post e a recordar as tuas palavras do outro dia...e a saber que entenderias as palavras e as angústias. Não me enganei, portanto. Temos muito mesmos que eles sim. Houve dias cinzentos pelo meio. E com tanto, mas tanto medo, Pina...
Outro.
Publicado por: isabel faria às março 19, 2006 01:51 AM
Quando o ano passado por esta altura escreveste um texto semelhante, ficámos tocados Isabel.
Porque a sensatez é serse um bom pai ou mãe. BOM/BOA mas aquilo que se é. Quando se diz "eu fui pai e mãe do meu filho" está-se a tentar a quadratura do círculo. É absurdo tentar-se ser outra pessoa, e é isso que se diz quando se acumula tudo. A criança não precisa disso - precisa de amor, de firmeza, de segurança, de carinho, de se sentir desejado. E cada vez mais esses valores deixaram de ter género. Podem vir do pai, da mãe, de ambos.
Quanto ao hábito de “dar uma prenda” é também coisa social e moderna. E a dificuldade é a criança não se sentir “diferente” dos outros, só que cada vez menos isso acontece porque cada vez mais as famílias são reconstruídas, diferentes, não-tradicionais.
Publicado por: Emiéle às março 19, 2006 11:38 AM
Há pouco fui extremamente injusta com um amigo, por achar que ele não tinha entendido a importância deste dia para mim. Como se essa importãncia não fosse algo de meu. Como se fosse possivel explicar o que apenas se sente.
Como escrevi há um ano e hoje,nunca tentei acumular papéis. Mas neste dia, especialmente, sentia necessidade de ...sei lá, amiga. O Daniel escrevia ali em cima que ontem o André foi pela primeira vez a um Bar e que gostou. E escreveu que ele também gostou, porque o André gostou.
Neste dia, sobretudo nos primeiros anos, com o marketing, o infantário, a escola, talvez fosse das poucas alturas em que sentia o JP perdido. O que fazer ao desenho? Ou ao carrinho? O que dizer aos outros meninos...gostamos porque eles gostam, sentimo-nos perdidos quando eles se sentem perdidos. Contingências do amor que lhes temos, não é?
Publicado por: isabel faria às março 19, 2006 03:42 PM
Acho que os amigos sabem "perdoar" Isabel. Realmente há quem não saiba o que os dias "sentem" para os outros, mas no ano a seguir serão mais espertos. Certamente.
Publicado por: Daniel Arruda às março 19, 2006 10:15 PM
Obrigado Daniel, por achares que sabem perdoar. Eu também acredito que sim. Não precisamos de amigos mais espertos, amigo. Apenas que saibam perdoar, com e sem aspas. E,de facto, não é fácil mostrar o que os dias "sentem" para nós.Nem aos amigos, amigos.
Publicado por: isabel faria às março 19, 2006 10:34 PM
Passei para te deixar um beijo, minha querida. (com mães assim, quem é que precisa de pais? ;))
Publicado por: catarina às março 19, 2006 11:53 PM
Catarina, obrigada. Hoje lembrei-me de ti, a sério. Reli o meu post do ano passado e as palavras que lá deixaste. Lembras-te? Entretanto, o dia foi passando...a vitela ficou doce...e agora é bom ter-te aqui. Outro para ti.
Publicado por: isabel faria às março 20, 2006 12:24 AM
tão bonito, Isabel. quando ele for pai, vai ter o dia do pai em pleno. ainda falta um bocadito, esperemos. ;) aí vai perceber que ser pai ou mãe é uma coisa maior ainda do que ser filho. e receber o que não pôde dar vai compensar essa lacuna. (uma abraço, amiga.)
Publicado por: susana às março 20, 2006 04:25 AM
tão bonito, Isabel. quando ele for pai, vai ter o dia do pai em pleno. ainda falta um bocadito, esperemos. ;) aí vai perceber que ser pai ou mãe é uma coisa maior ainda do que ser filho. e receber o que não pôde dar vai compensar essa lacuna. (uma abraço, amiga.)
Publicado por: susana às março 20, 2006 04:39 AM