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março 29, 2006
É a vida
Por:Isabel Faria

Incomoda-me a frase “É a vida”. Com ou sem derivados e anexos. Os ”que é que queres é a vida”, “então não sabes que a vida é assim”, “fazer o quê, é a vida”.
Não gosto da frase. A sério. Quando me é dita por pessoas que não gosto, apetece-me fazer um discurso de duas horas e dar-lhes meia dúzia de abanões. Quando é dita por pessoas que me são indiferentes, apetece-me só dar os abanões. Quando me é dita por pessoas que gosto muito, fico aqui com um nó parvo na garganta e dá-me uma certa vontade de fugir. Não vá o nó denunciar-me.
Entre a raiva, o enfado e a tristeza “É a vida” faz parte dos meus ódiozinhos de estimação ou, de outro ponto de vista, dos meus pontos fracos. Nunca me dei bem com os inevitáveis. E o destino, nunca me foi apresentado.
Um desafio: há assim uma frase que vos provoque estes danos colaterais? Para me sentir um bocadinho menos sozinha?
Publicado por Troll Urbano às março 29, 2006 08:32 PM
Comentários
Há sim Isabel. Para mim são as frases tipo (até me dá engulhos escrevê-las): "O que queres que te faça?" (só me apetece é dizer logo:"Põe-te a milhas porque na quero que me faças nada") ou ainda, "Que queres que te diga?" (É logo para eu dizer: "Nada!") e outras deste tipo.
Publicado por: Pina às março 29, 2006 08:38 PM
Pois Pina, eu também não curto lá muito essas...mas creio que lhes consigo dar a volta com algum humor. Digo logo um chorrilho de coisas que quero que me façam e me digam e despacho a coisa.:):)
Mas a É a vida, é mesmo o meu calcanhar de Aquiles.
Esta tarde, pela enésima vez, a mesma pessoa, conta-me a mesma história, pela enésima vez lhe pergunto e tu não fazes nada, pela enésima vez tenho a mesma resposta...fiquei possessa!!! Só não lhe mandei com um esburacador (aquela coisa que faz buraquinhos nos papeis) porque tive receio que fosse considerado acidente de trabalho e eu ficava com o dobro...do trabalho...O pior é que já esgotei os discursos, já dei milhares de abanões e já não há garganta que aguente...(já passei pelas fases todas, portanto...). Agora só mesmo a esburacador!!
Publicado por: isabel faria às março 29, 2006 08:50 PM
Pois, entendo. O "é a vida" é sinal de conformismo. Apetece abanar mesmo. Mas, continuo na minha (sou mesmo teimosa), as outras frases (as que me dão engulhos) para mim funcionam assim como indiferença. Pior que isso só mesmo pescada cozida (blllllaaacccc).
Publicado por: Pina às março 29, 2006 09:03 PM
Há algumas Isabel. Agora ocorre-me "ser tolerante". Detesto. Tansmite uma ideia de superioridade. OK! Na primeira reunião da Assembleia Municipal, fiz um pedido de defesa de honra, por o presidente da Câmara ter dito " OK eu tolero..." Fiquei danado. Não gosto da palavra. Quem a profere coloca-se num patamar superior. Também não gosto da palavra pátria. Muito bati no Manuel Alegre por causa do uso desta palavra. O orgulho patriota dá-me arrepios. Eu gosto da minha terra, das coisas a que tenho uma ligação afectiva, a que tenho raízes, agora a palavra pátria, remete-me para os nossos tempos de uma suposta superioridade. "por mares nunca antes navegados", onde descobrimos mundos, civilizamos povos. Eu não sou nada patriota/nacionalista, que para mim é exactamente a mesma coisa. Mas há mais que agora n me lembro.
Publicado por: Fernando às março 29, 2006 09:55 PM
Essa frase que detesta é simplesmente desastrosa.Se a si lhe dá vontade de dar uns abanões a mim já deu para me fazer esquecer algumas pessoas.O imobilismo , o fatalismo um pouco morbido , a preguiça ....que a frase encerra é irritante ,tem razão.
E então que me diz ao cumprimento em geito de resposta para despachar:- tudo bem!Nada de como vais , que tens feito, onde foste ontem ,anteontem já jantaste,vieste da praia ,foste às compras.....Nada ;apenas um assustador e repulsivo"tudo bem" que não quer resposta , nem socialização , de um desinteresse visceral .
Outra é " não tenho tempo".
Conheço gente que não tem tempo desde que nasceram...
Publicado por: annie hall às março 29, 2006 09:56 PM
Lembrei-me de outra:- abrangente !!!!Faz-me arrepios ouvir vou ter ou tomar uma atitude abrangente...:)))))
Publicado por: annie hall às março 29, 2006 09:58 PM
Fernando, não me irrita por aí além. O "ser tolerante". Não pelo significado que lhe dás e com o qual concordo, mas porque creio que a mioria das pessoas o diz, duma forma, digamos "positiva". De aceitar o outro mesmo. De aceitar a diferença, mesmo.
Agora, pátria, sim. Aliás, se queres que te diga, creio que nunca usei a palavra pátria na vida.Nem tenho significado para ela. É um termo que não me diz absolutamente nada. O meu país. A minha terra. A minha casa. A minha gente.O meu mundo...mas Pátria, não me lembro, mesmo.
Publicado por: isabel faria às março 29, 2006 10:07 PM
Muito pior que essa é aquela "deixa lá lembra-te que à gente em pior situação que tu", numa de além
da intenção de conformar, pretender confortar.
Publicado por: congeminações às março 29, 2006 10:10 PM
Ai, Annie Hall, essa do tudo bem, assim a despachar como quem diz e o que é que tens a ver com isso, mete-te na tua vida mas faxavor despacha-te, também me faz umas comichões, sim.
E quanto á falta de tempo...as ditas a que te referes, garanto-te que ficarão sem tempo até morrer.É genético.
Publicado por: isabel faria às março 29, 2006 10:14 PM
É verdade. E estas que os comentadores te deixaram também são muito, muito irritantes. A mim há uma expressão da moda que quase me dá vontade de saltar para a fuça do emissor. É o "É assim". Beijos.
Publicado por: isabela às março 29, 2006 10:27 PM
Congeminações, tou com vontade de te matar!!!! isso é tipo superlativo do "é a vida". È um daqueles anexos que nem é a abanões. Só a pontapé, mesmo.
Publicado por: isabel faria às março 29, 2006 10:30 PM
Isabela, antes de mais: que bom "ver-te". Eu tenho andado tão ocupada e tão preguiçosa, que nem tenho passado lá em casa (mesmo nunca comentando...era fiel. Nos últimos tempos, a minha "fidelidade" tem andado p'las ruas da amargura). Para ti, também.
Bem, quanto ao "É assim" é mais complicado...não que eu goste, mas confesso que não consigo abdicar dessa muleta quando falo em público. Creio que já uma vez, ainda no Afixe, fiz um post sobre isso. Fico pior que fula...mas basta ver uma quantidade de pessoas sentadinhas e eu ter que falar(se estiver sentada, a coisa passa, mas se tiver que me levantar, é uma desgraça...)e lá vem o "Então é assim...". Sem ser a propósito de nada. Mas sem conseguir passar sem ele. Isto no meio de tensão arterial a 42-20, mãos tranpiradas e a tremer tipo martelo pneumático, voz esganiçada...enfim, o "Então é assim..." é, apenas, o prenuncio da desgraça.:):)
Publicado por: isabel faria às março 29, 2006 10:40 PM
É assim: não consigo engolir este tipo de pessoas que são incapazes de lutar por aquilo que querem, pelos seus ideais, pelo que acham justo e contra o que consideram errado (mesmo que este errado seja relativo). E muitas vezes ficam sentadas no sofá à espera que a felicidade lhes caia em cima. E quando esta não lhes acerta sentem-se umas coitadinhas porque a vida não lhes sorriu. Já me incomodei com muitas delas (as que realmente me importam!) ao tentar fazer ver-lhes que temos de ser nós mesmos a fazer algo pela nossa vida (do que esperar a vida faça alguma coisa por nós!). E pior que isso foi uma certa vez em que por entender que a minha entidade empregadora não estava a ser justa comigo resolvi recorrer a apoio jurídico e ainda tive de ouvir da boca de um amigo "Mas achas que vale a pena? Se calhar ainda vais arranjar problemas com o teu emprego. Lá estás tu mais os teus ideais comunistas!" Mas eu não consegui ficar quietinha a lamentar o meu azar e fui em frente. Realmente podia ter pensado que há gente pior que eu, mas lembrei-me que pelo menos se ganhasse esta causa haveria gente que não ficaria mais tarde com o mesmo problema que eu e algo teria de ser feito. Que fazer com quem não quer ser gente? É assim, a vida...
Publicado por: 6to100tido às março 29, 2006 11:17 PM
A mim irrita-me superiormente a frase "quem corre por gosto não cansa" especialmente porque são ditas em alturas em que um gajo está mesmo cansado, por muito prazer que lhe tenha dado a corrida.
Levar com esta frase depois de ter estado 8 horas a trabalhar, ir buscar o miúdo á escola, dar-lhe banho, fazer o jantar, aturar uma reunião de horas é o pior que me podem fazer.
Isabel, não te esqueças que "é a vida" é a frase do Guterres, como não te queres irritar.
6to100tido, grande texto!!!! Adorei.
Publicado por: Daniel Arruda às março 29, 2006 11:52 PM
6to100tido, pois, eu sei...também vivo com isso diariamente. Com essa pergunta: o que fazer com quem não quer ser gente? Não exige ser tratodo como gente? Abdica nas pequenas e nas grandes coisas de ser gente. E depois remata, com essa coisa, de que a vida é assim. Sempre foi assim. Nada a fazer.
Daniel, também escusavas de vir para aqui lembra-me que a nossa personalidade do ano tinha dito isso. Já me bastava o superlativo do Congeminações Ah, o quem corre por gosto....irrita-me...mas eu acho que já cheguei à idade em que não corro. Já toda a gente deve ter dado por isso. E o respeitinho é muito bonito...:):):)
Publicado por: isabel faria às março 30, 2006 12:09 AM
Sabes que o livro "Portugal, Hoje" do José Gil, começa exactamente assim? diz que essa frase com que o comentador do Jornal da Noite da TV termina o telejornal muitas vezes, é por si só toda uma visão do mundo. O José Gil considera que é muito uma atitude do tal 'Portugal de hoje', e se me lembro a expressão foi lançada pelo Guterres. É a tal atitude de resignação, e como lembrou o Congeminações há as tais variantes de lembrar que há quem esteja pior o que consola muito... Como as mães que querem que o filho como a sopa e lhe dizem: Olha que há meninos que não têm sopa... o que provoca a resposta sábia: Dê-lhes a sopa a eles!
Publicado por: Emiéle às março 30, 2006 08:11 AM