« Pontinha, é terno | Entrada | Quem são? »

março 26, 2006

Ser de Esquerda

Por:Isabel Faria

Andava a fazer dar uma volta rápida pela casa dos vizinhos (a semana passada foi tarefa quase impossível) e encontrei no Aspirina B, um post sobre o afegão condenado à morte por se ter convertido ao cristianismo. Não é, no entanto, sobre o post que queria escrever. Para o lerem convido-vos a passar pelo Aspirina.
Estas linhas são apenas uma pequena reflexão. Não é complicado definir o que é ser de Esquerda. Quando, às vezes, nos perguntam que raio é isso de ser de Esquerda, nos afirmam que essas distinções passaram à história, que a ideologia está definitivamente na arca das recordações, talvez devessemos, para facilitar a compreensão de quem parece ter tantas certezas, usar casos concretos. Dar exemplos.

Neste caso por, exemplo.
Ser de Esquerda só pode ser, para mim:
1º Ser contra a pena de morte.
2º Ser contra a pena de morte sob que pretexto e em que latitude for.
3º Ser contra a ocupação de paises soberanos, sob que pretexto for.
4º Aceitar que uma intervenção externa num país em Guerra só pode ser feita com o aval das Nações Unidas e ser uma força de paz e não um exército de ocupação.
5º Não aceitar que a religião possa interferir nas questões politicas. Um estado clerical nunca poderá ser um Estado democrático. Um país onde a religião se impõe à Democracia nunca poderá ser um País livre.
6º Não poder pactuar, calar, aceitar, ignorar que num qualquer País do Mundo, usando que pretexto for, se condene alguém à morte por questões religiosas. Ou ideológicas. Ou em nome delas se persiga. Ou se prenda. Ou se torture. Ou se mate.
7º Considerar que este ponto 6 se tornaria desnecessário, face ao dito no nº1, não fosse haver quem queira distinguir entre fundamentalismos bons, maus e assim assim.
8º Considerar que o fundamentalismo, seja ele qual for, seja onde for, em nome de que religião, doutrina ou ideologia for, será sempre um atentado contra a liberdade, a justiça, a civilização, a cultura e a vida.

Posto isto, explicar que a arca ainda está para durar antes de lá se colocar o que separa a Esquerda da Direita, até não se torna muito complicado.

PS: E concluir, ainda, que tampouco se torna complicado dintinguir a Esquerda democrática, tolerante e plural da outra que também se diz Esquerda.

Publicado por Troll Urbano às março 26, 2006 04:17 PM

Comentários

Concordo com quase tudo!

Só acho duas coisitas:

nº 4: tendo em conta que a ONU também pode ser manipulada, penso que a ingerência num país só deve efectuar-se quando feita por motivos humanitários, sem objectivos de poder nem económicos.

nº 5-b): não admitir que interesses económicos privados interfiram nas decisões políticas. Claro que as decisões políticas têm uma componente económica e financeira, mas o interesse deve ser o do país, o da sociedade, e nunca o de um grupo ou empresa.


Mas partindo deste princípio, há muita gente que se considera de direita, que seria, segundo etses princípios, de esquerda, sem saber. Eu acho que estes são antes do mais princípios de humanidade, civismo e decência.
A questão de esquerda ou direita, na minha opinião, tem mais a ver:

1) com as opiniões: a sociedade está mesmo dividida por classes sociais e que não deve haver mobilidade; para a direita é natural os pobres serem pobres; para a esquerda deve haver uma partilha de modo a que haja cada vez mais igualdade.

2) com a importância do Estado na economia e na sociedade (para garantir o ponto 1) e com a crença de que o modelo matemático da economia de mercado ainda um dia há-de funcionar na realidade.

Publicado por: Helena Romao [TypeKey Profile Page] às março 27, 2006 01:00 AM

Bom dia Helena (hoje madruguei...).

Este post só veio a propósito da condenação à morte do afegão que se converteu ao cristianismo. Em relação a esse caso concreto, procurei, assinalar o que para mim, seria (será) ser de Esquerda.
Concordo contigo, no entanto, que as diferenças fundamentais se continuam a colocar em termos económicos e sociais. A questão da distribuição da riqueza, da posse dos meios de produção e do papel do Estado ainda não estão na arca...por muito que nos queiram convencer do contrário.
Quanto ao resto concordo contigo...apesar de achar que não me parece que seja aasim tão claro que não haja uma postura diferente quanto aos pontos que foquei. Ou que ela não seja ideológica, mas apenas moral ou ética.
A completa separação entre a Igreja e o Estado e já agora só para usar o ponto que juntaste, não permitir que interesses económicos interfiram nas decisões politicas, parece-me que deveriam (deverão) continuar a fazer a "separação". E só não o fazem, porque muitas vezes, a maioria das vezes, a "Esquerda" deixou de ser Esquerda, nestes como em tantos outros pontos.

Publicado por: isabel faria às março 27, 2006 08:00 AM

Até não seria mau casar com várias mulheres ao mesmo tempo, assim tipo 5, 6 mulheres, até que era bacano. Só temos um problema os paises ditos civilizados não consentem tal coisa. Será que é lei nos paises ocidentais? Se calhar, será que a biblia daqueles lados dirá por acaso que, em caso de se nascer muçulmano, quem mudar de religião, será considerado traidor? Pois é Isabel, penso que não deveriamos entrar em terreno movediço, pois não entendemos, como ocidentais que somos, a filosofia de vida e o pensar muçulmano, que, sendo ou não, complicado de se entender, é o pensar deles, esteja ele mal ou bem segundo o mundo ocidental.

Publicado por: Doomed às março 27, 2006 07:14 PM

Desculpa, Doomed, não concordo que não devamos. Há valores que creio que deveriam ser "sagrados". À luz da minha moral são-no: a vida e a liberdade. E reservo-me o direito de ter valores e de lutar por eles. Se no Ocidente, no meu País quando a Igreja faz campmaha contra a IVG, quando recusa o perservativo, alimentando, assim, a SIDA e todas as outras DSTs, se me dou o direito de não aceitar que o faça, porque não tenho o direito de não aceitar que noutros lugares se mate e de persiga em nome de uma religião? A escravatura deixaria de ser escravatura se o continuasse a ser em paises com essa tradição? Eu devê-la-ia eceitar? Calar-me perante ela? A Excisão feminina, porque é uma questão cultural, deixa de ser atentatória da dignidade e da vida da mulher? Condenar á morte por se ter convertido ao cristianismo ou absolver porque não há provas, porque é num país muçulmano, eu tenho que calar, porque não entendo? Então calo também a invasão do Iraque pelos EUA porque há razões ideológicas e económicas que por serem deles eu não entendo? Desculpa Doomed, não me parece correcto ter dois pesos e duas medidas. Respeitar a religião, a cultura de um povo não pode ser calar quando eese povo mata e persegue em nome dessa religião. De qualquer forma creio que fui clara quando comeccei por escrever no primeiro ponto. Mantenho. Aqui, Nos EUA. No Iraque ou na Tailãndia. Sou contra a pena de morte. Esse é um principio de que não abdico. E não me parece movediço. Para mim, é mais que terra firme. Digamos que, entre todas as dúvidas que possa ter e tenho imensas, esta não tenho. Sou contra a pena de morte. Por isso, sou contra a pena de morte nos países muçulmanos. Porque não haveria de ser?

Publicado por: isabel faria às março 27, 2006 09:07 PM

sim, mas o que tu defines como ser de esquerda é apenas ser democrata e humanista.

Publicado por: susana às março 28, 2006 12:29 AM

Susana, esse teu comentário tem muitas interpretações possíveis...ou, para mim, a Direita não é democrata nem humanista...ou eu sou isso e presumo que é uma coisa boa...ou para mim, a Esquerda é isso e também não me parece mal...vou pensar e depois digo-te...de preferência à frente da imperial ao fim da tarde, agora que os dias já são grandotes!!! :):):)De qualquer forma, assim às primeiras e sem imperial...parece-me mais a primeira!!!! :):):)

Publicado por: isabel faria às março 28, 2006 12:17 PM