« Em Portugal em 2006 | Entrada | O Troll com Abril - XI »

abril 16, 2006

Diálogos

Por:Isabel Faria

portas do sol2.jpg

- O que estás a fazer aqui?
- À espera do M. E tu?
- Vim passear, ver o Tejo das Portas do Sol... com o meu filho.
- Com quem??????
- Pois...
- Vives cá?
- Não, em Lisboa!!
- Que bom...eu sei que íamos conseguir...e o M, não veio???
- Sabes...passaram-se muitos anos...acabou há alguns anos...
- Foste tu???
- Nunca é ninguém…a maioria das vezes, não é ninguém...acaba-se, só isso...
- E depois?
- Fica-se triste durante um tempo, e continua-se.
- Ainda vais às manifestações todas?
- Agora há muito menos..mas sim, a muitas...
- Fizeste a Revolução??
- Não, ainda não…
- Então, nunca foste feliz??!!
- Com o tempo fica-se um bocadinho menos radical. Aprende-se que é possível, apesar de tudo, é possível ser feliz aqui…Fui. Muitas vezes…sou...agora estou!!
- Não me convences. Na volta, ficaste um bocado reaccionária. Poupa-me!!
- Não, acho que não fiquei…acredita que ainda não desisti…
- O teu filho...é giro, não me passa pela cabeça...
- Eu sei...passaram-se muitas coisas, pelo meio. Mas não te vou falar delas...faltaste à aulas, não?
- Claro, sabes que falto sempre que ele cá vem...ainda te apaixonas assim, de doer a barriga...e de faltar às aulas?
- Faltar às aulas...bem, isso já não posso. De doer a barriga, sim.
- Não mudaste muito, então...ainda usas saias de pregas?
- Não. Isso é que não...agora é mais calças...
- Os pais...
- Estão mais velhotes...mas bem. Creio que felizes...felizes...adoram o João Pedro!!
- Quem???
- O meu...filho.
- Ah!! Acho que o M. lá vem. Tenho saudades dele, sempre....tu tens saudades minhas???
- Algumas...algumas vezes...nalguns lugares. Das saias de pregas, dos bancos das portas de Sol, das RGEs, das manifestações todos os dias...mas gosto de agora...
- Achas que eu vou gostar? Mesmo sem ele???
- Vais...não vais esquecer...vais encontrar outras pessoas...ficas mais paciente, um bocadinho mais calma...a barriga continua a doer...menos manifestações...sem saias de pregas...mas com o João Pedro...vais gostar, tenho a certeza. Olha agora vai embora...ele vem aí...
- Quando ele me levantar no ar e me fizer andar à roda…
- ...vais-te esquecer de mim…eu, é ao contrário…cada vez que me levantam ao ar e me fazem andar à roda, lembro-me de ti. Sou tu.
- Vou ter com ele. A correr...tenho que aproveitar.
- Vai. Eu não vou a correr...mas também tenho que aproveitar. Não te esqueças das cruzinhas…Gostaste de me ver??
- Claro que não esqueço!! Não sei...não tenho a certeza se não estás demasiado reaccionária para o meu gosto...e de botas de salto alto...olha, desculpa mas não sei mesmo...

- Mãe, não encontro nenhum banco com uma cruzinha…ou namoraste muito pouco ou já foi há séculos…

Portas do Sol. Domingo de Páscoa de 2006. 10.00 horas da manhã. Nalguns lugares, sim. Tenho saudades.

Publicado por Troll Urbano às abril 16, 2006 05:12 PM

Comentários

Passei por aqui de manhã, mas como entretanto a minha ligação à rede falhou desisti de comentar e guardei-me para quando tivesse uma mais consistente, como agora.
Esta convivência com uma catraia adolescente é estimulante, Isabel. E como é que a catraia adolescente olha para a cotinha em que ela se vai tornar...? De botas de saltos e tudo!!!!
Cá por mim, sei bem o que pensaria se me visse hoje com os olhos dos 15 anos...NÃO ACREDITAVA! Devia achar que tinham trocado as bobines do filme! Tinha tantas certezas, sabia tanta coisa, tanta confiança no futuro, e uma certa intolerância. Mas creio que os meus 15 anos deviam gostar dos teus 15 anos.

Publicado por: Emiéle às abril 16, 2006 10:42 PM

Também me parece, Émièle. Não se deviam ter dado mal os nossos 15 anos...mas sabes que ainda agora estive a falar com o João Pedro. Eu juro que fazia uma cruzinha em cada banco em que namorávamos (e passavamos imensos dias a namorar...), ele diz que, então, ainda teria que haver alguma...acabou a chmar-me esse nome...sem o inha. Mais uma vez...
Mas eu também relendo este post acho que fui muito tolerante comigo...acho que, pensando bem, o choque tinha sido tão grande, que ficava sem palavras...e ainda por cima os saltos altos, mulher, e o cabelo pintado...cum caraças nem quero pensar o que eu devo ter ficado a pensar e mim!!!
E sem apresentar a Revolução feita, nem nada. Devo mesmo ter sido uma desilusão. Pobrezinha de mim!!!

Publicado por: isabel faria às abril 16, 2006 11:20 PM

Os meus 15 anos foram tão inocentes que se os encontrasse agora ria-me, mas acho que nos entendiamos bem quando chegasse a altura de ver os Monty Phytons na televisão :)

Publicado por: Mário às abril 17, 2006 09:51 AM

Mário, aquilo foram mais os 13 e os 14...pensando bem...aos quinze já era muito menos inocente!!!!

Publicado por: isabel faria às abril 17, 2006 10:43 AM

isabel, adorei o que escreveste.As vezes penso que já não gosto muito de recordar esses tempos. Fui feliz sim! Mas gostaria de ter dado ouvidos às pessoas que já tinham passado pelos 15 anos há algum tempo. Talvez, se isso tivesse acontecido, a minha vida fosse outra. Não sei se melhor, mas diferente...Ou não???!!! Olha não sei. Hoje estou um bocado complicada. Os dias que passei lá em baixo deixaram-me com vontade de não voltar. Tu percebes-me, não é? E como tive que vir ontem à noite, estou com uma birra!
Espero que a tua Páscoa tenha sido boa e que tu e o João Pedro tenham gostado do passeio que deram.

Publicado por: a outra loura às abril 17, 2006 11:29 AM

Oh outra loura...atão tu vens dumas férias enormes e vens com a birra???!!!Dá Deus nozes a quem não tem dentes...
Gostamos do passeio, sim. Ainda bem que também gostaste do que eu escrevi. Se eu tivesse ouvido...também seria outra, seguramente. Secalhar nem usava botas de salto alto, sei lá...

Publicado por: isabel faria às abril 17, 2006 01:22 PM