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abril 23, 2006
O Troll com Abril - XVI
Por:Isabel Faria

"EXP. - O então major Otelo foi o último a sair do Posto de Comando da Pontinha, já no dia 26 de Abril, às 13h30 da tarde. Nessa altura, o que sentiu? Era o momento da solidão do vencedor?
OSC - Pensei isto exactamente: «Esta malta foi-se toda embora e deixou-me aqui sozinho!» De modo que fui eu que arrumei a casa: guardei as granadas e as pistolas que tinham ficado ali soltas em cima das mesas, fechei as gavetas, retirei a minha carta do ACP que me tinha servido de mapa para acompanhar as operações das unidades do MFA, e pronto. Apaguei a luz, fechei a porta, meti-me no carro e fui para casa
...
EXP. - Voltando ao dia 26 de Abril. Que comentário lhe fez a sua mulher quando você chegou a casa? Ela estava ao corrente de tudo?
OSC: ...Por razões de segurança, decidi ir dormir à Pontinha logo na noite de 23 e não voltar a casa, porque podia haver uma denúncia e ser apanhado em casa pela PIDE. Só nessa altura é que lhe disse: «Tens acompanhado estas reuniões todas que temos feito. Vamos fazer uma revolução e eu tenho um papel importante aí a desempenhar. Vou comandar esta coisa. Vou daqui para o comando clandestino e não sei o que é que isto vai dar. Pode dar uma vitória, mas também pode dar para o torto. Se, por acaso, formos derrotados, eu despeço-me de ti, porque nunca mais, de certeza, nos veremos. Tens de te preparar psicologicamente para isso. Cuida dos filhos. Se isto der vitória, depois de amanhã estou em casa e vamos almoçar»
...
EXP. - E quando chegou a casa?
O.S.C. - Quando cheguei a casa, com a barba por fazer, já não dormia há três noites, foi uma alegria bestial, ela agarrou-se a mim e eu disse: «Prometi que estava cá para o almoço do dia 26 e cá estou».
(Extractos da entrevista ao Expreso no 25º aniversário do 25 de Abril.)
Depois há a história. A que todos conhecemos. Otelo foi o estratega do 25 de Abril e Otelo foi, em 74 e em 75, a cara e o espírito da Revolução. Com hesitações, com recuos, com dúvidas, com actos impensados, com generosidade, com alegria, com erros, com sonhos. Como a revolução.
Encontrei-o um dia, em 1976, na campanha para as presidenciais. O Zeca cantava no coreto do jardim. Depois ele falou, a seguir fomos comer sopa da pedra. Otelo teve uma votação extraordinária. Apesar de tudo que a história também guardará. Depois houve mais. Algumas coisas a história se emncarregará de colocar no seu devido lugar. Mas, seja onde fôr esse lugar, estou plenamente convicta, que em todos os momentos foi a generosidade e a utopia que lhe comandaram os passos. Os mesmos que o levaram à Pontinha. E a ser o último a apagar a luz....
Publicado por Troll Urbano às abril 23, 2006 01:38 AM
Comentários
Pois é, Isabel. Um homem que tem sido injustamente esquecido e deixado à margem sempre que se fala do 25 de Abril.
Seria bom que a história pusesse tudo no lugar, mas rapidamente, para variar...
Publicado por: Helena Romao
às abril 23, 2006 03:46 AM
Aqui está uma prova de coragem de coerência e de honestidade.
No cômputo final foi ele o "OSCAR" de ABRIL, o resto foi e é, coreografia.
Sou seu amigo e continuo a ver nele as grandes referências desse saudoso dia, que nos devolveu uma liberdade, que não soubemos preservar e que, por isso mesmo, deu no que deu.
A colocação deste post diz-nos também que o Troll está nos carris, o que é uma forma de atingirmos a meta desejada.
Publicado por: José Palmeiro às abril 23, 2006 09:47 AM
Olha Isabel, ainda aqui volto mais tarde, com mais tempo. Mas a minha convicção profunda é que daqui a 50 anos, quando se olhar para o 25 de Abril como hoje olhamos para o 5 de Outubro, podem esquecer-se todos os nomes, mas um vai ficar - o de Otelo. Com a sua sinceridade, a sua força, a sua ingenuidade, a sua coragem. Foi o Homem do 25 de Abril.
Publicado por: Emiéle às abril 23, 2006 12:34 PM
Não podia deixar Abril sem falar no Otelo. Como diz a Émièle, daqui a 50 anos, Otelo será ainda e smepre a história daquele dia.
José, deve ser um previlégio ser amigo do Otelo.
Olha, se puderes, um dia...diz-lhe que lhe mandamos um abraço do Troll e que lhe agradecemos...
Publicado por: isabel faria às abril 23, 2006 03:29 PM
Como devem compreender cresci a ouvir e ver as notícias sobre Otelo, as notícias que o davam como sendo um terrorista e coisas do tipo, no entanto, também por causa da minha educação, o Otelo que eu fixei foi o homem que deixou o conforto do lar para ir comandar o sonho, o homem que se chegou à frente sem a luz dos holofotes para que a liberdade fosse conquistada... há coisas que não se pagam!
Publicado por: Farpas às abril 23, 2006 03:58 PM
Como disse que ainda voltava, cá estou.
Este tema não se esgota num post e menos ainda num comentário. O «mal» das pessoas que vivem em paixão, é que como fazem tudo com essa emoção e essa paixão, são levadas num torvelinho. E Otelo era um apaixonado. Que também como é de prever, levantava paixões à sua volta. Não era um cerebral como Melo Antunes, era um emotivo, e de quem não se podia ficar indiferente. Como aqui lembrou o Farpas, foi também odiado, e temido quando alguma das suas frases menos calculadas por ditas no calor de uma emoção/discussão (como a famosa do Campo Pequeno) eram reproduzidas e ampliadas pela comunicação social que sempre adorou aproveitar os deslizes de pessoas públicas. De resto, alguns dos seus erros do pós 25/4 foram sobretudo por ingenuidade e por algum aproveitamento de outros. Esta é a minha forte convicção. Aquele era um tipo Bom. Que não teria conhecimentos políticos e por isso mais vulnerável a ser manipulado. Mas estruturalmente bom e honesto. E competente, porque foi a sua coordenação que tornou possível o sucesso do 25 de Abril.
Publicado por: Emiéle às abril 23, 2006 04:53 PM
Prefiro, igualmente, guardar uma boa memória do trabalho de Otelo, independentemente de alguns solavancos que possa ter causado (acho que foi manidestamente infeliz aquela tentativa de "cinema" com a Julie Sargent).
Politicamente, não tem mácula. Ajudou a libertar-nos do fascismo. Ponto final. Venha quem vier, tem de agradecer a Otelo (e outros), a sociedade livre em que vivemos. Agora se é uma sociedade justa...são outros quinhentos...
Publicado por: Bart Simpson às abril 23, 2006 11:17 PM
Emiéle: era, não: é! E o sr. Coronel livre-se de nos deixar com os verbos no passado!
Quanto aos Homens do 25 de Abril, acho que, obviamente, o Otelo tem que ficar na História, mas com o Salgueiro Maia ao lado. Para mim são dois os Homens do 25 de Abril.
Obrigada aos dois, e aos outros todos!
Publicado por: Helena Romao
às abril 23, 2006 11:57 PM
é... Depois de ter votado nele, nunca mais votei em ninguém! Sou livre de o fazer, é uma espécie de abstenção activa sem nunca ir a nenhuma mesa de voto! E isso não me impede de Ser...ou tentar Ser um Ser libertàrio! Obrigado Otelo...
Publicado por: dacar às abril 24, 2006 11:07 AM
Nós no PCP, por mais anos que tenham passado, continuamos a prestar comovida homenagem à coragem e iniciativa dos capitães do MFA e ao seu papel decisivo no derrubamento da ditadura pelo seu levantamento militar no dia 25 de Abril de 1974 e que os comunistas portugueses, se orgulham por terem sempre permanecidos fieis a esta apreciação e valorização e não a terem deixado alterar por factos, percursos ou divergências posteriores.
Mas não acompanhamos, antes combatemos vivamente, as teses que tendem ou a separar completamente a iniciativa e o levantamento militar do processo prolongado e heróico da resistência popular e democrática ao fascismo ou a explicar a iniciativa e o levantamento militar exclusivamente pelo real desgaste causado nas Forças Armadas por 13 anos de guerras coloniais, e muito menos pela acção de uma personalidade, seja ela qual for.
Foi precisamente a iniciativa e a intervenção das massas populares, do PCP e de outros democratas, em apoio ao MFA mas levando para o primeiro plano da cena política e social, os objectivos essenciais da luta democrática contra o fascismo, que permitiram que o acto militar de derrubamento da ditadura abrisse caminho a uma verdadeira revolução democrática, firmemente orientada para a ruptura com a situação anterior pela liquidação das estruturas do regime fascista, firmemente apostada não apenas em remodelar o anterior pessoal governante mas também em abalar o poder das classe dominantes que tinham sustentado a ditadura, firmemente apostada não apenas em assegurar as liberdades políticas mas também em obter reparação para injustiças, humilhações e opressões sem conta e conquistar uma vida melhor.
Publicado por: Margarida às abril 24, 2006 02:24 PM
Até que enfim, se dúvidas havia, o véu caíu.
É por estas e por outras, que subescrevo inteiramente o Zeca Afonso, quando afirmava:
"Sou o meu próprio comité central"
Publicado por: José Palmeiro às abril 24, 2006 03:51 PM
Os que lutam
Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.
(Bertold Brecht)
Publicado por: Margarida às abril 24, 2006 05:03 PM
José, haverá sempre coisas que lhes ficaram engasgadas. Aquele dia de 1976, por exemplo...depois houve o resto todo. Mas nem isso surtiu efeito. Hoje, memso para os jovens, Otelo continua a ser o simbolo do 25 de Abril. O rosto e a dádiva daquele dia. Eles sabem que nunca poderão mudar isso. Nunca puderem apesar de todos os golpes baixos.E há neles, nos piores deles, quem nem não se cobforme.
Publicado por: isabel faria às abril 24, 2006 07:00 PM
Gosto do Brecht, logo gosto do que ele escreveu.
Mas acho que há situações que nem o Brecht serve para justificar.
O PCP, não é o patrono do COMUNISMO e alguns dos seus sócios e simpatizantes muito menos.
Não basta ter um cartão, emblemas e demais simbolos, necessário é praticar, sempre.
Publicado por: José Palmeiro às abril 24, 2006 08:25 PM
A toda a parte Chegam os vampiros
Poisam nos prédios Poisam nas calçadas
Trazem no ventre Despojos antigos
Mas nada os prende Às vidas acabadas
São os mordomos Do universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada
No chão do medo Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos Na noite abafada
Jazem nos fossos Vítimas dum credo
E não se esgota O sangue da manada
Se alguém se engana Com seu ar sisudo
E lhe franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada
(Zeca Afonso)
Publicado por: Margarida às abril 24, 2006 08:50 PM
Gosto de Margaridas.
Antigamente, colocava-as nas máquinas de escrever.
Publicado por: José Palmeiro às abril 24, 2006 09:26 PM
Já que falamos de militares...
1958 eleições Presidenciais....
Quem é que chamava a Humberto Delgado o General Coca-Cola......
Quem acertar terá direito a um livro com os dircursos do deputado do PCP francisco lopes....
Publicado por: a.pacheco às abril 25, 2006 03:52 PM
Quem é que não chamava isso ao Delgado, Pacheco? Que tal perguntar à Iva Delgado, sua filha? Se ele até fazia gala de ter sido adido em Washington! Mas se não conseguir chegar à fala com a Iva leia para já este documento que encontra em
http://www.vidaslusofonas.pt/humberto_delgado.htm
Publicado por: Margarida às abril 25, 2006 06:58 PM
1956 XX Congresso do PCUS, o tal do famoso relatório...
Quem é que tentou tudo por tudo,para que o PCP do interior não tivesse conhecimento do dito....
( censura ....não.....)
Quem acertar, tem direito a um bilhete, para assistir á proxima revista, com a deputada Odete Santos
Publicado por: a.pacheco às abril 25, 2006 10:12 PM