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abril 03, 2006

O Troll com Abril - III

Por:Isabel Faria

A Guerra Colonial:
"Grosso modo, Portugal, com 10 milhões de habitantes, fez um esforço de guerra em África cerca de nove vezes superior ao dos EUA, no Vietname, com os seus 250 milhões de habitantes. Portugal mobilizou para a guerra colonial mais de 800 mil jovens, teve 8 mil mortos, 112.205 feridos e doentes, 4 mil deficientes físicos e estima-se que cerca de 100 mil doentes de stress de guerra. 40% do OE destinava-se á Defesa. A isto há que acrescentar a sangria de milhão e meio de emigrantes entre 60 e 74". (Excerto de uma entrevista de Mário Tomé).

Histórias:
No dia em que o meu tio partiu, a minha avó não falou. Vivia com eles na altura, pois os meus pais estavam em França. O meu tio era como um irmão mais velho. Muito mais novo que a minha mãe, filho de um segundo casamento do meu avô viúvo, foi com ele que ouvi pela primeira vez os Beatles e o Francisco Fanhais a cantar a Pedra Filosofal.
Na altura dormia no quarto pequeno junto à rua e todos os dias, minutos depois dele chegar a casa, ouvia os mesmos passos. Os passos que ouvira durante anos, antes do meu pai partir para França, nos dias em que havia ensaio da Banda. As noites do meu tio, sempre foram um mistério. Nunca entendia onde ele as passava, nem o que fazia. Sempre achei que queria crescer assim. Para poder sair depois do Sol se pôr. A noite, apesar dos passos, era, para mim, uma aventura. O meu tio, o herói da aventura.
Quando ele partiu, então, ninguém falou lá em casa. Antes de ir, deixou-me como empréstimo, a " Guerra e Paz". Era tão grande que duvidei que tivesse tempo de a ler antes dele voltar. Assegurou-me que sim. Tive
Durante aqueles anos, ao fim da noite a minha avó e o meu avô, iam para o quarto. A porta ficava semiaberta e, ao passar, ouvia-os rezar. Rezaram todos os dias. Nunca os consegui acompanhar. Algumas vezes, fingi que sim. Era uma forma de lhes agradecer o estarem comigo, apesar da falta que o filho lhes fazia. E do medo. Com o tempo fui deixando de fingir. Eles rezaram até ao dia em que o viemos buscar a Lisboa, de taxi. Lembro-me do navio. Enorme. Só me lembro do navio .E de ver o meu tio chegar.

guerra colonial2.gif

Palavras:
Menina dos Olhos Tristes
Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Por que a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Vamos senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

A Lua, que é viajante,
É que nos pode informar.
- O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta
Está mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.

Reinaldo Ferreira

Publicado por Troll Urbano às abril 3, 2006 07:44 PM

Comentários

E a voz que cantava estas palavras!
Do que eu me lembro bem era das mensagens de Natal que passavam na televisão dos soldados em fila a identificarem-se e a mandar votos de Feliz Natal para os familiares, diziam todos a mesma coisa... porque seria...

Publicado por: trilby às abril 3, 2006 07:58 PM

Muito bom o post, Isabel, assim mesmo como o escreveste, o 'público´' e o 'privado'. Muito comovente é claro. E a história acabou bem, o teu tio voltou, vivo e pelo que se entende ileso por fóra. Mas todos trouxeram marcas por dentro.
Trilby, a frase adeus, até ao meu regresso fazia sorrir por ser a mesma para todos, mas era tão triste, patético. Eles em fila, para dizerem duas ou três frases pela televisão... Quem não ficava com um nó na garganta?!

Publicado por: Emiéle às abril 3, 2006 09:33 PM

Pois é, Trilby, não tenho esta música do Zeca em CD, nem com a voz do Adriano, nem com a do Zeca (e com a do Zé Mário?, não tenho a certeza)...não a posso deixar aqui, com muita pena minha.
E também recordo, as filas na TV, sim. Sempre com as mesmas palvras. Daqui fala o alferes miliciano.... Feliz Natal e um Ano Novo cheio de prosperidade...para toda a família.Adeus até ao meu regresso... Parece que ao escrever isto, tenho as vozes, os tons, as pronúncias, de novo, a passarem-me pelos ouvidos.

Émièle, ileso, sim. Fisicamente. O resto, os males de lá de dentro, só de longe em longe deixa soltarem-se. Em ocasiões em que está com pessoas próximas. Aconteceu algumas vezes comigo, ao longo dos anos.
Mas conheci outras pessoas - o meu primo R. que me ensinou a tocar viola, que nunca as conseguiu esconder. Veio mais cedo, antes de acabar a comissão, ferido. As feridas do corpo, acabaria por as curar. As outras ficaram até hoje. Nunca lhe perguntei se voltou a tocar viola...mas nunca mais, e este nunca mais, é definitivo, o vi recuperar o brilho do olhar. Contava a mina...e nunca contava mais nada.Do resto nunca falava.

Publicado por: isabel faria às abril 3, 2006 10:59 PM

Era o grande Zeca sim, que cantava esta canção.. O zé màrio cantava outra lindissima, o soldadinho..."Os senhores da guerra não matam, mandam matar"...

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:24 AM

A canção do Zé Mario chama-se 'Ronda do Soldadinho' (1969, ena ena! - Grande Zé Màrio!)

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:26 AM

E o autor da letra de menina dos olhos tristes, que publicaste, é Reinaldo Ferreira e não Reginaldo...

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:34 AM

A letra da RONDA DO SOLDADINHO

José Mário Branco

Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho

Um menino lindo
Que nasceu
Num roseiral
O menino lindo
Não nasceu
P'ra fazer mal
Menino cresceu
Já vai à escola
De sacola
Um e dois e três
Já sabe ler
Sabe contar

Menino cresceu
Já aprendeu
A trabalhar
Vai gado guardar
Já vai lavrar
E semear
Menino cresceu
Mas não colheu
De semear
Os senhores da terra
O mandam p'ra guerra
Morrer ou Matar

Os senhores da guerra
Não matam
Mandam matar
Os senhores da guerra
Não morrem
Mandam morrer
A guerra é p'ra quem
Nunca aprendeu
A semear
É p'ra quem só quer
Mandar matar
Para Roubar
Dancemos meninos
A roda
No roseiral
Que os meninos lindos
Não nascem
P'ra fazer mal

Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Morrer na guerra

Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Matar na guerra

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:36 AM

Pois é Dacar, tens razão.
Estava na dúvida se era a mesma, mas não.

Um e dois e três
era uma vez
um soldadinho.
De chumbo não era,
de que era
o soldadinho?
...
Soldadinho lindo
és também
filho do povo
e contigo vamos
construir
um mundo novo.

Não tenho nenhum CD do Zé Mário de antes do 25 de Abril. Vou ter que encontrar, para colocar aqui.

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 09:40 AM

Dacar, telepatia...e tens razão. Vou lá emendar!!!
Obrigado.(E mais não vejo telenovelas brasieliras...):):)

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 09:42 AM

Ok Isabel... é bom lembrar estas coisas, obrigado por o permitires. Hà duas versoes da letra da Ronda do Soldadinho, eu coloquei a mais soft...(é mesmo soft?) O Reinaldo Ferreira, que morreu muito novo, so foi conhecido em 1960 depois de morrer, era português, nasceu em Barcelona, mas foi em Moçambique, na altura com grande actividade poética, que escreveu poemas fantàsticos...

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:46 AM

Dacar, isto o tempo não perdoa...esta última estrofe, que me apareceu na Net (e que recordo), pertence a uma alteração do origimal após o 25 de Abril???

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 09:48 AM

e o reinaldo ferreira era filho do famoso "reporter X", portuguûes claro!

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:50 AM

Sobre a letra da "Ronda"... Exacto! foi isso que aconteceu na segunda versao o ze mario pedia ao soldadinho, se nao me engano, para pegar na espingarda e vira-la para os senhores da guerra, para entrar NA Revolução!...

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:53 AM

Ok, respondeste à minha pergunta 2 minutos antes de eu a fazer.Obrigado eu. Recordar estas coisas só faz sentido se forem partilhadas, não é???

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 09:55 AM

Claro que so assim faz sentido. Eu pessoalmente acho que o ze mario, que conheço aliàs, é um Homem fantàstico e de uma grande coerência, como o zeca era e alguns outros também. "Ser solidàrio" - que hino!

Publicado por: dacar às abril 4, 2006 09:58 AM

E o FMI ?!!! E lembram-se como foi editado o Ser Solidário?

Publicado por: trilby às abril 4, 2006 02:39 PM

Isabel, ora dá uma espreitadela ao mail porque eu acho que te mandei a Ronda em mp3, acho porque não tenho som neste PC. E foi o K7 pirata que me deu vários mp3 das músicas do GAC entre elas a Ronda.

Publicado por: trilby às abril 4, 2006 02:52 PM

Trilby, não está lá nada...ainda.

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 03:03 PM

Trilby, não está lá nada...ainda.

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 03:07 PM

Mandei para o mail aqui do Troll. A mim diz-me que seguiu, mas é um ficheiro pesado (deve ser por causa das armas dos soldados). :)

Publicado por: trilby às abril 4, 2006 03:31 PM

Ah, ok...estava a ver no meu...na volta as armas têm a ver, sim...vou lá espreitar.

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 03:43 PM

Trilby, vem sem anexo, ou então eu não percebo nada do raio do Sapo...podias enviar para o meu Email, faxavor...isfaria@gmail.com. É grande e cabe lá tudo!!!!Obrigado

Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 06:08 PM