« Explicação necessária | Entrada | Como prender a mulher na cozinha »
abril 09, 2006
O Troll com Abril -VII
Por:Isabel Faria
Talvez porque falava de gestos, de rostos, de vozes que eu conhecia, comecei a ler a sério com ele. Depois dos Cinco e dos Sete, depois das histórias românticas de uma colecção qualquer que a minha madrinha (já um dia aqui escrevi que, naquela época, havia sempre uma madrinha rica em cada família), me emprestava, descobri a outra literatura com Alves Redol. Reconhecia-nos quando lia as histórias dos pescadores do Tejo, dos camponeses das lezírias ou dos pescadores da Nazaré. A Nazaré, era a praia de quem nascia no Ribatejo. Os meus pais nunca tiveram possibilidades de me levar à praia. Ia com a minha avó. O meu tio, levava livros do Alves Redol e eu lia. Só em casa. Repetia. É melhor não levares para a praia. Ele não explicava porquê. Mas eu sentia. Devia ter a ver com a diferença das vidas dos Gaibéus e as dos romances que a minha madrinha me emprestava.
Quando o meu pai fez anos, o meu tio disse para escolher um livro para lhe dar, que me daria o dinheiro. Comprei o Barranco de Cegos. O meu pai lia-o, comigo sentada nos joelhos. Pedia-lhe para o ler alto. Assim, era o nosso livro. Voltei a lê-lo sozinha, muitos anos depois. Saiu-me num exame. Já depois do 25 de Abril. Tive a melhor nota do Liceu de Santarém a Português. De décadas, disseram-me. Nunca lhes contei que a origem do feito esteve no livro. Ouvir o Barranco de Cegos, enquanto a noite caía, no telheiro que tínhamos em frente à porta, sentindo o Verão chegar, só podia ter deixado marcas…
Alves Redol funcionou, assim, como o meu cicerone para a vida a sério. Os seus livros foram o passaporte doloroso para a injustiça, a tristeza, a desigualdade, a fome. Que eu via e conhecia nos camponeses que na Praça do Mercado esperavam por serem escolhidos para a semana nos campos. A praça da jorna, onde tantas vezes vi rostos amargos, crispados, tisnados do Sol das Lezírias. Às vezes, queria ir lá a baixo e diziam-me, hoje não. Hoje a GNR está na Praça. Entendia. Que era a mesma história de não dever levar os livros do Alves Redol para a barraquinha da praia da Nazaré. Nos livros que a minha madrinha me emprestava nunca havia policias nem gente à procura de trabalho…esses, podiam-se ler à beira-mar.
Publicado por Troll Urbano às abril 9, 2006 11:21 PM
Comentários
É tão interessante como a literatura neo-realista que hoje parece tão "datada", foi uma alavanca tão forte para abrir os olhos e as consciências e tanta gente. Não no teu caso, que os olhos estavam abertos de pequenina, mas sei de gente que ficou a pensar e a interessar-se por aspectos sociais sérios e graves depois de uma leitura que os impressionou de um modo especial. Claro que como ribatejana, o efeito em ti só podia ser esse...Mas mais para o sul, lembro também o Manuel da Fonseca e o Seara de Vento. E tantas, tantas histórias, que ajudaram a ver a vida com cores mais reais apesar de não dar para "se ler na prais"...
Publicado por: Emiéle às abril 10, 2006 08:33 AM
"Elogio em boca própria é vitupério", diz um ditado popular, o que significa, que é feio, muito feio, fazer como a Faria faz que passa o tempo todo a promover-se.
Publicado por: Margarida às abril 10, 2006 01:48 PM
Émièle, só li o Manuel da Fonseca mais tarde. Creio que o Alves Redol tinha essa facilidade de falar de coisas e de pessoas que eu "conhecia".
E tens razão. também eu conheço muita gente que "descobriu" o que se pasasva neste país, lendo os escritores neo-realistas.
Publicado por: isabel faria às abril 10, 2006 02:08 PM
Oh margarida, ainda ninguem te disse que és uma vergonha para a humanidade? Como é que alguém que se preza por ser uma mulher, com a sua dignidade propria, nao tem vergonha de dizer tanto disparate? Será que não lês o que escreves, ou será que não sabes ler nem escrever? Ou será ainda que tens pretensões a que ninguém se dê ao trabalho de ler o que tu escreves? É que, por esse caminho não vale a pena nem ser margarida (cujo nome é o de uma flor tão bonita), nem mulher, que é o substantivo dado à pessoa que, para além do resto, dá os seres ao Mundo.
Publicado por: vera às abril 10, 2006 04:45 PM
Vera, há pessoas que não aprendem. Não aprendem a ser mulheres, não aprendem a ser gente. A Margarida é uma delas. Ha meses que tem estas guerrinhas de estimação contra mim e contra o Daniel (para falar no Troll...vai cultivando outras, por esses Blogs fora...). Há pessoas que nunca aprenderão a ser gente. O problema é que são pessoas que V~em de onde menos se espera...seria lógico esperar. Mas enfim, não te incomodes muito...a Margarida é das que não mudam. Ela (?) faz questão de ser assim.
Publicado por: isabel faria às abril 10, 2006 05:07 PM
Vera: eu prezo-me de ser uma trabalhadora. E solidária com todos os trabalhadores, sejam homens ou mulheres. Tão somente
Publicado por: Margarida às abril 10, 2006 06:15 PM
Ou seja Vera, é uma alforreca, não é carne nem é peixe. Trabalhadora é vago quanto baste como vês. O que é que poderias pôr debaixo do chapéu de trabalhadora? Uma operária, uma professora, uma trabalhadora do sexo, uam bordadeira, um profissional do sindicato ....
Como vês. Para se falar bonito basta ser vago. Tipo Santana Lopes.
Publicado por: Daniel Arruda às abril 10, 2006 06:47 PM
Contra-argumentar é fazer "guerrinhas" para a Faria. A inteligência não a beneficiou lá muito. Nem a ela nem ao Arruda, para quem uma pessoa assumir-se "trabalhadora" é "vago". Bloquista é assim, para eles o mais importante nunca conta.
Publicado por: Margarida às abril 10, 2006 08:47 PM
Aliás Vera, basta veres por este exemplo "A inteligência não a beneficiou lá muito. Nem a ela nem ao Arruda...", para poderes confirmar o que a Margarida entende por argumentação....
Olha, vou-te confessar uma coisa...eu começo mesmo a convencer-me que é paixão. Da grossa!!!
Publicado por: isabel faria às abril 10, 2006 09:28 PM
Ficamos a saber que Trabalhador não é vago. Bill Gates vai todos os dias ao escritório e trabalha 13 horas por dia. É por isso um trabalhador??? Um deputado vai todos os dias ao local de trabalho, o Parlamento. Deve ser considerado trabalhador???? Um médico que está na clinica privada, que por sinal é dele e cobra 90 Euros por uma consulta é trabalhador?!?!?E o que tem exclusividade no serviço público é igual ao outro?!?!??! Um advogado precário é um trabalhador, e o Antóni Vitorino, será que é um trabalhador. Se calahar é duplamente penalizado porque para se sustentar tem que ter dois trabalhos, o de deputado e o de advogado.
Não Trabalhador não é vago. Nada disso.
Publicado por: Daniel Arruda às abril 10, 2006 09:30 PM
Eu avisei que era!!!!!
Publicado por: Tretas às abril 10, 2006 09:33 PM
Nunca devem ter ouvido de falar de "consciência de classe" pois não? E dizem-se vocês marxistas? Que tal lerem um pouquito o Marx?
Publicado por: Margarida às abril 10, 2006 10:51 PM
Isabel, vamos fazer o sindicato dos multimilionários e o dos deputados. Para sermos defensores da classe!!!!!
Isto é só rir. A tipa não se "enxerga" mesmo. Na volta está a defender o tacho "dela" no sindicato.
Publicado por: Daniel Arruda às abril 10, 2006 10:58 PM
Só no Sindicato, Daniel??? Então e os outros???
A gente não sabe o que é consciência de classe...aliás, a gente nem trabalhaores somos...olha lá, meu, enxerga-te pá...tu trabalhas????
Aliás, conhecendo "a" margarida, não há dúvidas que é um exemplar de consciência de clase...
Publicado por: isabel faria às abril 10, 2006 11:20 PM
Mas se eles nem classe sabem o que é como é que podiam ter ou saber o que é consciência de classe?
Publicado por: Margarida às abril 10, 2006 11:27 PM
Olha quem fala de falta de classe?!?!??!?
Não sei nem quero saber o que é essa coisa da classe dos burocratas sindicais que é a única que defendes. Há anos que não trabalhas......
É preciso ter lata.
Publicado por: Daniel Arruda às abril 10, 2006 11:45 PM
Meus amigos isabel faria e daniel arruda, gostava de vos fazer uma proposta muito honesta e muito séria: para pessoas com esta inteligencia, com esta consciência de classe, com esta modéstia, e com esta... tudo,como a margarida, não consigo competir, ou seja, tenho coisas bem mais importantes, ou simplesmenete, coisas, para me preocupar. Porque não fazem voces o mesmo? Dou-vos para já duas sugestões que, penso, nunca se tenham lembrado até ontem, dia 10 de abril, às 10 horas e 51 minutos, pm: trabalhar e ler Karl Marx. Então, que tal, aceitam? Vamos a isso!
Publicado por: vera às abril 11, 2006 01:55 AM
vera, estou tentado a aceitar o teu repto. Mas o problema é que há coisas de Marx que já li. Até já li Hegel para poder fazer o contraponto. Será que devo aprofundar os meus estudos de Engels também? Confesso que o 18 de Brumerário não me cativou. Seá que devo também ler um pouquito de Stalin. Afinal foi o único que entendeu o que o Tio Karl pensou mas nunca disse.
Quanto ao trabalhar é que está pior, mas vou tentar. Sabes que nós os pequenos burgueses sociais democratas temos esta tendencia de parasitar os verdadeiros revolucionários vivendo apenas à conta da riqueza criada pelos outros sem acrescentar nenhum valor à sociedade.
OK, vou fazer um esforço.
Publicado por: Daniel Arruda às abril 11, 2006 02:14 AM
Vera, pois...é assim...eu nunca tal me tinha passado pela cabeça. Mas tens razão.
Ler um cadito de Marx e trabalhar é capaz de ser senão boa ideia, pelo menos ideia. E acho muito bem que tenhas coisas para fazer...eu também. Só que, às vezes, tenho a pena de deixar a Margarida a falar sozinha...e lá vou eu...sou uma boa alma, no fundo.
Olha para já...vou trabalhar. Deixo a leitura para logo mais tarde, ok...???
Publicado por: isabel faria às abril 11, 2006 09:54 AM