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abril 14, 2006
O Troll com Abril - IX
Por:Isabel Faria

Não sei com quem comecei. Talvez com o Manuel Freire e a Pedra Filosofal. Lembro-me de a ouvir em casa da minha avó, no rádio com palhinha em cima do pial. Depois, fui ouvindo os outros. Aos poucos. Ou no gira-discos do meu tio, ou no rádio que o meu pai ouvia à noite baixinho quando pensava que eu já dormia. Não sei a ordem. Nem me lembro das canções que ouvia. Lembro-me de me deixar encantar com a voz do Adriano, muito mais tarde, quando uma noite ouvi a Trova ao Vento que Passa. Há momentos, desses anos, em que há sempre uma canção. São os momentos do Grupo de Teatro Amador, das comemorações do Dia Mundial da Juventude ou das idas mais ou menos clandestinas a casa dos amigos que estudavem em Lisboa. Mas isso já foi bem mais tarde. Quando conheci o Sérgio e o Zé Mário. E quando vi um PIDE a proíbir-nos de passar o Zeca no altifalante do Cinema e o vi, depois, de cima do muro, cá em baixo a trautear a Bandera Rossa, sem fazer ideia do que se tratava.
Lembro-me de na última passagem de ano, antes do 25 de Abril termos grelhado chouriços e febras, fechados dentro duma garagem. Para não se ver o fumo nem se ouvir a música. E das vindas constantes à porta.
Creio que foi aí que ouvi a Grandola pela primeira vez. Ouvir com ouvidos de sentir. Passado todo este tempo, imagino que nessa noite de 31 de Dezembro de 1973 para 1 de Janeiro de 1974, senti, já, aquelas palavras com o sonho de poucos meses depois. Mas parecia-nos longe. No primeiro dia de aulas, ao falar ao telefone com um dos nossos amigos que lá estivera, soube que tinham sido presos dois colegas da Residência Universitária, aqui em Lisboa. Lembro-me de lhe sentir medo na voz. Eu que achava que os amigos que já estudavam em Lisboa, nunca teriam medo de nada... Por momentos, devo ter esquecido a força da Grandola de meio dúzia de dias antes. Volaria daí a dias. A força.
Um dia, combinámos vir a Lisboa ver um concerto. Para muito de nós era a primeira vez que vinhamos a Lisboa. Não arranjámos bilhetes. Passámos a noite, enquanto o autocarro não chegava a subir e a descer as escadas rolantes da Estação de Metro do Parque. Também nunca tinhamos visto uma escada rolante ou um metropolitano...não assistimos, portanto, à noite da Liberdade anunciada, mas para muitos de nós, naquela noite, ousámos respirá-la um pouco...em forma de escadas rolantes.E em forma da primeira vez que estavamos longe de casa.
Publicado por Troll Urbano às abril 14, 2006 12:45 AM
Comentários
Lido assim o que escreveste, sabes que me apetece logo ter sido adolescente no 25 de Abril!
A foto é formidável!!
E, não há como a música para acordar recordações...
Publicado por: Emiéle às abril 14, 2006 08:15 PM
Assim se vai fazendo a história do "25deAbril".
Vou tentar ajudar, uma vez que a Isabel fez o favor de publicar uma fotografia que mexeu comigo, e digo isto porque, do Zeca, do Fausto e do Sérgio, todos se recordam mas, foi com uma grande saudade que vi o "Manel do Asilo" e o "Carlinhos", a acompanharem, neste caso, o Fausto.
Um abraço e muita força para tornarmos ao Portugal de ABRIL!
Publicado por: José Palmeiro às abril 15, 2006 12:59 PM
É uma foto linda, sim. E no fundo, não mudamos assim tanto. È aquela imagem, aquelas imagens, que guardamos.As que foram ficando, só as temos que encaixar lá...nunca o contrário.
Obrigado, José. De agora até Abril, apenas vai um pulinho...se quiseres, ajudar, só te agradeço...afinal, o 25 de abril só tem piada se for comemorado colectivamente...
Publicado por: isabel faria às abril 15, 2006 02:52 PM