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abril 04, 2006
Tempos
Por:Isabel Faria

Esra manhã, liguei o rádio e ouvi a India. Não a ouvia há anos. Era mais novinha que o meu filho e apaixonei-me. Todas as tardes, arranjava a desculpa que ia estudar para casa duma amiga. Olhava à volta. Subia a rua até haver alguém à porta. Voltava a descer. Aproveitava o bocadinho em que o caminho estava livre e entrava. Havia um pequeno quarto e uma sala com uma camilha e um sofá. Estava sempre à minha espera com a viola. E cantava-me a Índia. Creio que entendi que a paixão era recíproca, ao som da India. Naqueles tempos, não diziamos Amo-te. Nunca. Era uma questão de “principio”. Como era uma questão de “principio” a “clandestinidade” com que entrava lá em casa. Os meus pais não me deixariam ir...mas eu também nunca me permitiria duzer-lhes. Fazia parte do romance, olhar em volta, falar baixinho, ele vir ao portão e acenar quando eu podia sair.
Ontem à noite, o meu filho pediu-me ajuda para escolher uma foto dele com a namorada (o termo é o escolhido...até nisto a diferença que faz...). para lhe oferecer hoje. Esta manhã foi comprar uma moldura e tive que estar em linha durante minutos a tentar visualizar as molduras para o ajudar a escolher uma.
Não olha à volta, não precisa de entrar quando as janelas e as portas estão vazias, por todo o lado, espalhado pelo quarto, estão papelinhos a dizer Amo-te e assindados, por um e pelo outro, continua a haver canções, as canções deles, e conheço o brilho. A clandestinidade deixou de fazer sentido. Mostrar os sentimentos deixou de meter medo. A palavra compromisso deixou de lhes fazer confusão.
Olho o meu filho e não sei se imaginei este caminho. Não sei se, para mim, teria tido o mesmo sabôr viver aa paixões de adolescente, sem “mistério” e sem “clandestinidade”.
De duas coisas tenho a creteza.
A primeira que me faltou dizer Amo-te, algumas vezes na vida. A segunda, que sinto uma quota parte de responsabilidade na “mudança”. E que isso me agrada. Às vezes, penso que eles são muito mais conservadores do que eu era. Nunca me imaginei casar de branco. Nunca imaginei jantar em casa do meu...não faço ideia do nome que usava...creio que era o nome próprio...o pronome possessivo também estava proíbido...ouvia a India, olhava à volta para entrar e sair...mas lembro que o brilho no olhar era o mesmo.
E nisto de paixão e de amor, há alguma coisa que valha mais do que o brilhozinho no olhos?
Publicado por Troll Urbano às abril 4, 2006 01:06 PM
Comentários
Ainda bem para eles que têm mais liberdade mas há muitas coisas que eu não trocava. :)
Publicado por: trilby às abril 4, 2006 02:13 PM
ok, concordo contigo (para não me alongar muito). Mas fica um aviso: o JP anda a ver a "cara de alguém no prato da sopa" e isso...isso...pronto, ok, a sopa alimenta! ;-)
Publicado por: Pina às abril 4, 2006 02:50 PM
Pois, Trilby, eu também me quer parecer que não.
Pina, pois essa parte da cara no prato...ok, a cara no prato...tem a quem sair, eu sei!!!
(olha mas é só no da sopa???...então, ok...não sai a mim!!!!)
Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 02:55 PM
és de muito alimento????;-) Pode ser noutra coisa qualquer também...desde que alimente mas não esteja a escaldar....
Publicado por: Pina às abril 4, 2006 02:58 PM
É quase impossivel fazer comparações. Quase como comparar os vestuários de hoje e de há 20 e tal anos. Qual será mais bonito...? Sei lá! No caso dos "costumes" dantes era-se mais contido, mais reservado na expressão dos afectos, envergonhávamo-nos de expor os sentimentos. Também não seria mau, era diferente. Como uma saia de godés é diferente de uma mini-saia de jeans. Muitas vezes o ser «fruto proibido» torna realmente o desejo mais forte, pelo menos com um encanto diferente de quando ele é livre e permitido.
Publicado por: Emiéle às abril 4, 2006 03:04 PM
Pina, mais ou menos :)
Émièle, eu também não sei se um é melhor que o outro...apesar de gostar mais de mini-saias de jeans...gostava de pregas, godés nem por isso!!!
Pois essa parte do fruto proíbido, concordo. Por isso às vezes me questiono se eles agora não sentirão alguma falta desse "fruto proíbido"...mas, ok, isso sou eu. Sempre gostei de frutos desses...:):):)
Publicado por: isabel faria às abril 4, 2006 03:24 PM