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maio 23, 2006

Crónica dos últimos dias, antes de ti - 7º dia

gravida11.jpg

22 de Maio de 1990

Hoje acordámos ainda mais cedo. Tu acordaste ainda mais cedo. Voltaste a pôr aquele pezito maluco, ali espetado, por volta das seis da manhã. E já ninguém aqui dormiu (ninguém, sou eu e tu, percebeste, meu amor?).
Claro que a esta hora, estamos os dois mais mortos que vivos.
Fomos fazer o CTG. Havias de ver o olhar espantado das enfermeiras a verem-nos entrar de gravador em punho. Só uma delas sabia que, a partir de agora, CTGs só de Quatro Estações no ouvido. Correu bem. Parece que resultou. Ainda me descontrolei um bocadinho, mas, ao fim, a tensão manteve-se nos 14,5. O teu coraçãozinho continua óptimo. A enfermeira diz que vais ser jogador de futebol...tal a força do coração e a quantidade de pontapés.
Estiveram cá os avós e a tia Leta. A tia trouxe dois paninhos de tabuleiro com o nosso nome bordado. Num havia um IM e no outro um JP.
Ao fim, quando os avós saíram, ficou um bocadinho para tràs e veio-me pedir desculpa por serem só dois...expliquei-lhe que nós somos só dois. E que sempre que houver visitas em casa, se usarão panos de tabuleiro, não bordados. A tia Leta, perguntou ainda se isso não me fazia medo. Não enquanto estiveres comigo, respondi-lhe. Creio que ficou mais descansada. E nós ficamos com dois panos de tabuleiro, para tomar o pequeno-almoço na cama, ao fim-de-semana.
Desde Sábado que temos uma Senhora, no quarto que vai cá ficar dois meses. Até a bebé nascer. Tem diabetes e não poderá sair do hospital. Chorou todo o dia, até à visita das Sete, em que o marido a veio visitar. Depois, parece que acalmou um pouco.
Sabes, serinho, na nossa vida, temos que procurar calma onde nos seja possível encontrá-la. Seja no pai que nos acompanha na visita das Sete, seja nos nossos nomes bordados em dois pequenos panos de tabuleiro.
A mãe tentará ensinar-te isso. Às vezes fico com um bocadinho de receio de não ter tempo para te ensinar tudo...eu senti o pontapé, amor. Claro que vou ter tempo!
Hoje, apesar de cansados, sinto que estamos, ambos, calmos. Talvez porque a primeira coisa que te estou a ensinar é a ouvir música. E a contar. E já aprendeste que a contagem decrescente para nos termos um ao outro, já começou.

Publicado por Isabel Faria às maio 23, 2006 09:31 AM

Comentários

Experiência para ver se entra.

Publicado por: Emiéle às maio 23, 2006 02:26 PM

(desta vez o comentário entrou, podes apagar o de cima)
Há sempre tanto para ensinar e aprender que se pensa que o tempo pode não chegar. Mas este "tempo" tem uma qualidade diferente, não segue o do relógio ou calendário. E ajuda-nos os paninhos bordados, que não foram comprados à pressa numa loja qualquer mas bordados por uma tia que gosta de nós e tem prazer em bordar monogramas. É esse calor que dá outro brilho à vida. E seca as lágrimas da senhora diabética
(só que não acredito que o João Pedro prefira o Vivaldi a uma banda actual... imagino eu!)

Publicado por: Emiéle às maio 23, 2006 02:31 PM

(desta vez o comentário entrou, podes apagar o de cima)
Há sempre tanto para ensinar e aprender que se pensa que o tempo pode não chegar. Mas este "tempo" tem uma qualidade diferente, não segue o do relógio ou calendário. E ajuda-nos os paninhos bordados, que não foram comprados à pressa numa loja qualquer mas bordados por uma tia que gosta de nós e tem prazer em bordar monogramas. É esse calor que dá outro brilho à vida. E seca as lágrimas da senhora diabética
(só que não acredito que o João Pedro prefira o Vivaldi a uma banda actual... imagino eu!)

Publicado por: Emiéle às maio 23, 2006 02:35 PM

Os comentários estão mesmo parados, trolls. Não se consegue mesmo com muita paciência.

Publicado por: Emiéle às maio 23, 2006 02:41 PM

Olá Isabel!
Voltei! Nâo com a assiduida de outrora... mas quando posso!!!

Apenas lhe quero dizer que o seu filho JP deve ter uma mãe exemplar,... oibrigada por ser um exemplo!

Beijos

Publicado por: Rita às maio 23, 2006 06:55 PM

Olá Isabel!
Voltei! Nâo com a assiduida de outrora... mas quando posso!!!

Apenas lhe quero dizer que o seu filho JP deve ter uma mãe exemplar,... oibrigada por ser um exemplo!

Beijos

Publicado por: Rita às maio 23, 2006 06:58 PM

Eu sei Émiéle, eu sei do tempo.A quetão do tempo. Mas é uma sensação nova...para mim no primeiro dia que achei que o sorriso do meu filho me tornava eterna, tive a noção exacta de que era mortal...e, por momentos, senti um arrepio...passou. Mesmo que o JP não goste muito de Vivaldi, passa sempre que o olho.

Rita, bem vinda.Ainda bem que podes ir passando. E obrigada pelas palvras. Ès querida. Sabem bem. Mas não sou, amiga. Não sou um exemplo. Apenas tento fazer o melhor que sei. Acredita, npo entanto, que às vezes sei, sinto que é tão pouco...

Publicado por: isabel faria às maio 23, 2006 09:02 PM

Olá Isabel. Já não é a primeira vez que vi tratares o João Pedro por serinho e nunca percebi porquê. Porquê? Se a pergunta for impertinente, não respondas.

Publicado por: Fernando às maio 23, 2006 10:09 PM

Fernando, claro que não é impertinente, mas não te sei explicar...todas as fotos que tenho da minha gravidez, escrito por detràs, está: eu e o serinho aos 4 meses...eu e o meu serinho aos 8 meses...
Serinho, só sei que é um ser pequenino...não faço ideia porquê, amigo. Talvez pela vontade enorme de conseguir fazer dele um grande ser humano...talvez, não sei explicar. A sério.

Publicado por: isabel faria às maio 23, 2006 10:57 PM