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maio 23, 2006
Crónica dos últimos dias, antes de ti - 8º dia

23 de Maio de 1990
Na noite de Sábado para Domingo, tinha entrado no quarto uma rapariga, ainda muito jovem com um bebé, acabado de nascer.
Nunca a ouvi falar, nunca a vi sorrir, nunca a vi chorar. Dela, recordo, apenas, a ausência de olhar. Nunca a vi olhar. No Domingo, não recebeu uma visita. O bebé não mamava, a enfermeira vinha buscá-lo, na hora das mamadas. Ela levantava-se, devagar, e saía. Sem um gesto, a não ser os passos que a levavam ao corredor. Normalmente voltava, quando o bebé já estava no berço. Sentava-se na cama ou deitava-se. Sempre sem expressão. Ontem, vieram falar com ela, logo pela manhã. Deixou o bebé no berço e foi, acompanhada de uma enfermeira e de outra senhora. Durante o resto do dia, a cena repetiu-se. Por mais duas vezes voltou a sair do quarto acompanhada. E a voltar.
Esta manhã, cedo, ainda não eram nove horas, a mesma senhora que cá tinha estado ontem, veio buscar os dois. Mãe e filho. Cerca de uma hora depois, ela voltou. Sozinha. Vestiu-se, pegou nas suas roupas e saíu. Nunca olhou para trás.
Na hora da medicação, a senhora da cama ao lado perguntou à enfermeira se tinha acontecido alguma coisa ao menino. “A mãe deu-o para adopção, e já foi para casa”, disse. Parece-me que também não havia expressão na sua voz.
No quarto fez-se silêncio.
Felizmente que nós podemos sair do quarto para almoçar , meu amor. A mãe precisa de aproveitar o caminho para o refeitório para respirar. E para te dizer que não era este o Mundo que te queria dar.
João Pedro, quero dar-te um mundo em que as pessoas olhem. Ajuda a mãe a fazer um Mundo em que as pessoas olhem.
Depois, meu amor, vamos descansar. Preciso de sentir-te para ter a certeza que vale a pena. Um beijo, para ti, serinho, e desculpa as lágrimas. Às vezes, é preciso chorar. Entre as coisas que te hei-de ensinar, para além de ouvir música, contar e rir, é que, às vezes, é preciso chorar.
Nota: A primeira parte deste texto, contrariamente às outras que aqui tenho deixado, foi feita de memória. Não sou, neste momento, capaz de aqui deixar as palavras que, nesse dia, escrevi no meu bloco. Até, ou sobretudo, porque não julgo que tenha esse direito. Nelas há perguntas, há dúvidas que me ultrapassam. Por respeito e pudor guardá-las-ei para mim.
Publicado por Isabel Faria às maio 23, 2006 11:03 PM
Comentários
Ontem não escrevi aqui nada, só agora reparei.
É que esta história quando a li a primeira vez tocou-me tanto que se calhar desta vez tive um "acto falhado" e não a vi...
São vidas e decisões tão difíceis e complicadas que nem poderemos dizer nada. Quem somos nós para ajuizar o que pode levar uma mulher ( rapariga) a fazer semelhante escolha...? Só ela o sabe. Teremos de o respeitar.
Publicado por: Emiéle às maio 25, 2006 10:15 AM
Estou adorar a sua gravidez... tenho vontade de ser mãe!!!
Publicado por: me às maio 25, 2006 04:40 PM
Me, também adorei a minha gravidez...e adoro ser mãe...acredite que nada, mas nada mesmo volta a ser igual. E nem tudo são rosas, mas vale a pena, sim.
Obrigado.
Publicado por: isabel faria às maio 26, 2006 10:09 AM