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maio 25, 2006

Crónica dos últimos dias, antes de ti - 10º dia

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25 de Maio de 1990

Finalmente, uma festa neste hospital!!! Amor, estás a ouvir o barulho lá fora? Viste quando vínhamos do refeitório, aqueles senhores, senhoras, meninos, meninas e bebés espalhados pelas cadeiras, pelos corredores, sentados no chão???
Estão à espera dum bebé cigano que vai nascer. A mãe está na sala onde os bebés nascem, o pai anda a fumar cigarro depois de cigarro (a enfermeira diz que não vale a pena dizer que não se pode fumar...) e estão cá as famílias todas à espera que o menino (ou menina, a mãe não perguntou) nasça.
Aqui, no hospital, diz-se que os ciganos são sempre assim: quando nasce um ciganito novo, quando alguém fica doente, quando...são sempre assim, Joãozito. Vêm todos e falam e esperam e falam e esperam. Agora só se vão embora quando nascer o bebé.
Até lá, duvido que possamos dormir...mas não é grave. Serve para quebrar a monotonia. E deve ser bom o menino que lá está dentro da barriga da mãe saber que tem tanta gente à espera. Espero que mãe não se tenha esquecido de o avisar, e que ele já venha preparado para esta festa toda. Ou, então, vai apanhar cá um destes sustos...
Olha, meu amor, hoje a enfermeira disse que o médico amanhã vai falar com a mãe, mas que não deve cá estar na Segunda Feira. Só nos devemos ver na Terça. Eu e tu. Fiquei um bocadinho triste, por não estares cá nos meus anos...mas estes são os últimos em que não apagas as velas comigo. Prometido???
Agora vamos tentar dormir e esperar que, como dizem lá na terra, a cigana tenha uma hora “curtinha”. Gosto de os ouvir ali, mas também não desgostava de dormir um bocadinho.
Faz como a mãe, pensa que só faltam 4 dias. O sono vai, de certeza, chegar!

Publicado por Isabel Faria às maio 25, 2006 10:48 PM

Comentários

Este, dentro da tua série, é dos textos mais "sociais"! É muito intessante como a comunidade cigana mantém essa profunda unidade para o bem e para o mal. Em muitas coisas poderiam dar lições a quem vive só, "orgulhosamente só", e nas tintas para o seu semelhante.
Claro que por outro lado há incovenientes que é o de não gostarem de se integrar no resto da sociedade... Essa parte não é tão positiva.
Muito dormiram vocês lá no hospital!!! Era dormir e comer (sem sal, é claro, mas comer!) rica vida, heim...?

Publicado por: Emiéle às maio 28, 2006 10:59 AM