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junho 09, 2006
Casa do Gaiato
Tenho dois filhos e nunca dei um estalo em qualquer deles, hoje têm 21 e 27 anos, mas a verdade é que nunca lhes dei um estalo porque não foi preciso.
Vem isto a propósito de uma notícia que hoje fez manchete nas TV, e que diziam ter o Ministério Publico processado o director da casa do Gaiato de Setúbal por 4 crimes de maus-tratos a menores na dita casa.
Conheço a casa, já lá estive com um ex-aluno, gostei do que vi, e francamente aquelas crianças se não tivessem aquela casa não tinham nenhuma, muitas são ali abandonadas pelos pais que não os podem alimentar, vestir, educar, outros são os pais que os entregam por não terem mão neles e por nem a estalo os conseguirem educar.
Na maioria dos casos, muitas são crianças que nunca tiveram um afecto, um carinho, uns sapatos, umas calças, quatro refeições por dia, o que é impensável para muitos de nós, mas existe neste País e muito mais do que pensamos.
Numa casa com tantas crianças, em que o Director (padre) é para muitos o único pai que conhecem e assim o tratam, em que a senhora de 66 anos que é referida na noticia é a única mãe que muitos também conhecem, só uma disciplina (forte) não dura, mas forte, pode fazer com que os miúdos façam coisas tão simples como lavar as mãos antes e depois de comer, levantar o seu prato e lavarem a louça (os mais velhos), fazerem as camas logo que têm idade para isso, ir à escola, inclusivé.
Tudo isto é conseguido por um único homem que lá passa 24 horas por dia e pelos “irmãos mais velhos”, que se substituem às famílias, que se desresponsabilizaram da educação das crianças, de lá abalam muitos para casar e criar família, muitos com boas profissões e cursos feitos.
É claro que de teóricos está o mundo cheio, e sabemos que muitos desses teóricos, se fizerem um balanço da actividade da Casa do Gaiato de Setúbal, e compararem os casos de sucesso, com os das instituições onde trabalham, têm muito, mas muito a desejar.
A situação não é nova, desde 1974 que há tentativas de desacreditar a casa, sempre por um caso ou outro, esquecendo as centenas de rapazes que por lá passaram nestes 32 anos, que ali se fizeram homens e que ali voltam, muitos, semanalmente. Eram estes que também deviam ser ouvidos, serão muitos destes que irão testemunhar as suas experiências e estou convencido que, mais uma vez, a montanha vai parir um rato.
E estranho é que vejamos algumas educadoras serem ilibadas de crimes de maus-tratos a menores, quando esses menores são deficientes, aqui sim, é de questionar as decisões dos tribunais.
Lamentável também é que a PGR desresponsabilize a Comissão de Protecção de Crianças e Jovens (CPCJ), o Ministério Público, a GNR e o Hospital de São Teotónio – considerando que nenhuma destas entidades tiveram qualquer implicação no rumo dos acontecimentos que levaram ao coma da bebé Fátima Letícia, com apenas 50 dias, devido a maus tratos continuados:
Lamentável é que estas mesmas entidades, noutras partes do País, do Norte ao Sul, depois de receberem denúncias, deixem entregues aos pais, crianças que são violadas, torturadas, queimadas e até assassinadas.
Publicado por António Chora às junho 9, 2006 12:05 AM
Comentários
Observação séria e ousada.
O A. Chora, fala com conhecimento de causa e assume uma postura que só o enobreçe.
Como o algodão, o Chora não engana.
Efectivamente, o relatado, sobre a Casa do Gaiato, comparativamente com o que se tem passado, em termos de maus tratos a crianças, neste país, e suas consequências, está a milhas de distância.
Um abraço ao CHORA, pela coragem.
Publicado por: José Palmeiro às junho 9, 2006 09:06 AM
Gostei do texto. Eu cresci perto de uma casa do gaiato. A do Tojal e tive colegas de escola que lá viviam. Vi como se formavam seres humanos.
Erros?? Sempre houve, mas concordo que oas bons exemplos sobrepoem-se em muito aos maus.
Publicado por: Daniel Arruda às junho 9, 2006 09:28 AM
Este post é bem intencionado e eu entendo o que ele quer dizer, mas tenho de explicar porque é que não concordo. Aliás escrevi esta manhã (ainda antes de ter passado por aqui) um outro dizendo o que acho sobre o assunto.
“É assim”: Evidentemente que há decerto milhares de testemunhos de jovens que passaram por essa instituição e se sentiram lá bem. Também vais encontrar ainda mais milhares de casapianos que foram pessoas de relevo na nossa terra e forem excelentemente educados na Casa Pia. Isso não nega o que se tem vindo a saber que por lá se passou, como não nega que na Casa do Gaiato haja factos que são muito mais do que o rato parido pela montanha.
O que para mim é grave, e repito que é grave, não é tanto que se agrida ou não uns miúdos que nos estão confiados, é sobretudo a arrogância de se negar a prestar explicações. Isso não pode ser. Aquilo é uma Instituição que recebe apoio do estado, tem o dever de abrir as suas portas e explicar tudo muito direitinho. Esse caso desse juiz completamente anormal que produziu essa sentença aberrante, ultrapassa tudo o que se pode aceitar, mas não quer dizer que os casos “mais leves” sejam correctos. Há modos de educar, e a agressão física só serve para criar um modelo que depois o agredido vai usar no seu relacionamento com o resto do mundo. Não!
Publicado por: Emiéle às junho 9, 2006 09:52 AM
Emiéle, acho a comparação do que se passou na Casa Pia com o que se passou (se é que se passou) na casa do Gaiato despropositada e até com algum mau gosto. As situações são completamente diferentes. Num há comprovadamente abuso sexual e prostituição infantil. No outro há uma estalada que está por provar.
Publicado por: Daniel Arruda às junho 9, 2006 10:02 AM
Olha Daniel, vamos por partes:
O que quis dizer e mantenho é que não é por se conhecer pessoas que não deram por nada e até elogiam determinadas instituições que elas são boas ou más. Como sabes a Casa Pia fez uma obra notável durante anos e anos. Cuidou de muitas crianças que não tinham mais para onde ir. E, também creio ser conhecido que os tais abusos começaram exactamente “entre eles” dos mais velhos para os mais novos. Que depois foi a mancha de óleo que alastrou com as proporções que se conhecem é um facto, mas na essência é uma instituição onde vais encontrar muitas pessoas que se sentiram lá bem, ou seja isso não serve de prova.
Quanto à história da estalada, é evidente que é muito mais do que uma estalada. A estalada nem me parece que precise de prova porque foi testemunhada, pelos jornalistas e até quem a deu não negou, só disse que tinha sido “dar com a mão na cara”. O que está em causa, e deve ser provado, são outras queixas de outro tipo de maus-tratos. E o ter pouco pessoal, não acho que justifique nada. O que tem de ter é pessoal qualificado e sabendo bem o que faz. Por isso é que é uma IPSS. E por isso deverá ser inspeccionada como deve ser, sem se escudar em 'segredos de confissão'.
Publicado por: Emiéle às junho 9, 2006 11:51 AM
Só ainda duas palavras: claro que acredito que quer o Chora quer tu conheçam de perto Casas com sucesso; acontece que eu também conheço. Não só Casas do Gaiato como por exemplo as Aldeias SOS, e o que o público vê é a ponta do iceberg. Teria de haver uma remodelação de cima abaixo. E o Estado não pode fazer como Pilatos.
Publicado por: Emiéle às junho 9, 2006 11:57 AM
Emiéle concordo que o Estado e o Governo não pode nem deve lavar as mãos como Pilatos.
Publicado por: Antonio Chora às junho 9, 2006 01:15 PM
A discussão levava-nos longe e começa quando o estado se demite do ser dever de cuidar entrgando esses cuidados a terceiros. Mas não foi esse o meu comentário.
O que eu quis frisar é que os casos que referiste são demasiado diferentes para serm comparados.
Acabei de ler que foram encontradas 40 doses de haxixe na cas do Tojal. Será que isso indica que a casa funciona mal. Não me parece. Quando discutimos se o adre deu um estalo ou não, or muito que eu discorde dos estalos, é com quie intensidade, foi uma agressão. Ou será que o jornlista viu ali o seu furo?
Num país em que se absolvem pessoas que maltratam deficientes fazer uma tempestade por causa deste caso parece-me tremendamente exagerado.
Publicado por: Daniel Arruda às junho 9, 2006 01:21 PM
Daniel, o facto de ser grave ter-se absolvido (em recurso, porque da primeira vez doi condenada) uma pessoa que maltratou deficientes torna justo que haja quem maltrate lá por não serem deficientes? Porque tens falado sempre no bofetão, mas creio que sabes que isso foium caso. Se calhar, como foi mesmo à frente do jornalista só vem provar que não acham que seja nada de mal. Também da outra vez em que o miúdo foi espancado e tratado a pontapé, soube-se porque foi visto por um jornalista. Que raio de pontaria têm os jornalistas, que acertam sempre em aparecer quando há cenas agressivas... Não dará para pensar que elas sucedem com frequência e aquilo é uma entre muitas?
Publicado por: Emiéle às junho 9, 2006 01:49 PM
Ou também dará que pensar que são sempre os mesmos jornais por sinal ligado a grupos económicos privados que querem o negócio das IPSS, desde a infancia á velhice.
Eu desconfio dessas coisas. Se calhar su eu que estou mal. Mas quando a minha experiência me diz o contrário daquilo que leio fico assim.
Posso estar a ser injusto mas os jornais para mim servem para ler factos. Para algumas histórias preciso de mais.
Publicado por: Daniel Arruda às junho 9, 2006 02:03 PM
Vocês falam de tudo. São entendidos em tudo. Até cansam.
Mas vocês sabem do que falam?
Casa do Gaiato? Sabem lá o que isso é. Ser abandonado é mau. Viver 10 ou 12 anos na casa Gaiato será o quê? Vá lá entretenham-se com o Futebol. Se não for suficiente ainda têm o Fado e Fátima.
Ex-Gaiato
Publicado por: Gaiato às junho 9, 2006 04:13 PM
Gaiato, obrigado pelo contributo. Como ex gaiato não tens nenhuma contribuição para a discussão????
Publicado por: Daniel Arruda às junho 10, 2006 01:59 PM
POR AMOR DE DEUS, NÃO ESTAMOS NOS ANOS 50!!!!! CLARO QUE UMA ESTALADA QUE SEJA, POR PARTE DE UMA INSTITUIÇÃO É UM ESCÂNDALO!!!! NÃO É PRECISO BATER PARA EDUCAR!!!!FUI PROFESSORA DE MENINOS DA CASA DO GAIATO, INTEGRADOS NUMA ESCOLA NORMAL, E POR EXEMPLO, RAPAREM O CABELO AOS MENINOS, QUANDO MAIS NINGUÉM O FAZIA, ERA JÁ UMA ESTUPIDEZ. TODOS NAQUELE CICLO SABIAM QUEM ERAM OS MENINOS DA CASA DO GAIATO POIS TINHAM O CABELO RAPADO!! ISSO NÃO ESTIGMATIZA, POR EXEMPLO ?!
Publicado por: MARIADATERRA às junho 30, 2006 03:09 PM
Dar uma estalada numa criança! "Por amor de deus", crime, disse ela... ou dizem eles... Claro que é reprovável mas quantos pais ou mães não o fazem. Pior é deixar as crianças deste País ao abandono e vítimas de maus tratos sociais pela miséria em que vivem sem oportunidade de serem crianças. Sem a Casa do Gaiato, a minha família de adopção, hoje não seria o Gestor respeitado que sou mas um deliquente de quem os que hoje criticam a Casa do Gaiato fugiriam com repulsa.
No seguimento das notícias publicadas em vários órgãos da comunicação social sobre a "violência nas Casas do Gaiato, não resisti escrever ao seu fundador, cujos princípios pedagógicos fizeram de mim um homem socialmente integrado, ainda que não normalizado. Carta de lamento e pesar, escrita com a lucidez que uma alma dorida consegue, que enviei a ministro e secretário de Estado da Segurança Social, assim como altos dignitários da Igreja responsáveis últimos pela Obra da Rua e a principais órgãos da comunicação social. Com todas as suas fraquezas, a inovadora pedagogia de Pai Américo permitiu que um então vadio das ruas do Porto se fizesse um cidadão, burguês até, de corpo inteiro.
“Querido Pai Américo,
Não pensava escrever-te sem ter razões de força maior que justificassem incomodar-te, pois a tua pedagogia ensinou-me a ser autónomo, livre e responsável.
Porém, hoje, 4 de Março de 2006, estou muito triste – segundo a comunicação social, o “Estado vai nomear o primeiro director não padre para uma Casa do Gaiato”. Uma dor profunda asfixia-me a alma! Fragilizado e com dificuldade em conter e em exprimir a indignação, procuro reconforto no teu regaço! E deixo as lágrimas inundarem-me a alma sofrida perante a impotência que sinto por não poder defender a nossa “Obra de Rapazes, para Rapazes, pelos Rapazes” desta ignóbil invasão e de poder garantir a pureza da tua inovadora pedagogia para “Fazer de cada Rapaz um Homem”!
Após uma persistente e longa campanha de difamação sobre a Casa do Gaiato, um grupo de ignotos técnicos da Segurança Social, doutos psicologistas, ávidos de “tachos” e cargos de direcção, conseguem ganhar o primeiro assalto à Obra da Rua, com o beneplácito da Comissão de Protecção(?) de Menores, dirigida pelo juiz Leandro que me parece idóneo e honesto, mas que face aos desastrados resultados da sua referida Comissão, não tem coragem para resistir à violação do teu património pedagógico, se é que o conhece bem. O começo do fim da tua (nossa) modelar Obra de Rapazes será apenas confirmado administrativamente por um Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social pouco interessado em valorizar a nossa histórica Obra da Rua! Ignoram que o amor é a base da nossa educação e que não se consegue domar rapazes com a nossa endémica rebeldia sem espírito franciscano e dedicação total. E até a tua Igreja, a primeira e única responsável pela nossa Obra da Rua, claudica e ajoelha perante o Estado dando a sua bênção à “Primeira nomeação de um director não padre”, como referem em júbilo os órgãos de comunicação social!
Como deves saber, este assalto começou há mais de um ano tendo por base um incongruente Relatório, elaborado por uns burocratas da Inspecção da Segurança Social, que levianamente ditava a necessidade de encerramento da Casa do Gaiato de Paço de Sousa, por falta de condições para acolher crianças, o que denotava o delírio pedagógico e a miopia de alguns técnicos cujas decisões tem conduzido a várias mortes de crianças por maus tratos na família.
Ávidos de protagonismo, os pobres de espírito pedagógico tomaram a nuvem por Juno, ignorando que, quando detectados, os casos de violência sobre os mais novos são devidamente punidos de acordo com a gravidade que o caso justifica. Não souberam reconhecer que apesar da vida nas nossas Casas não ser fácil, as crianças deserdadas ou abandonadas, que conhecem o sofrimento e o sabor amargo da miséria encontram nas Casas do Gaiato uma família – com as virtudes e as fraquezas de qualquer família numerosa – que lhes incute valores éticos e princípios de vida que me são muito gratos – solidariedade, justiça social, liberdade na responsabilidade, entre outros. Não souberam compreender que a Casa do Gaiato faz cidadãos que sentem satisfação em afirmar que muito do que são o devem ao facto de terem sido "gaiatos"! Casa do Gaiato que ajudou a fazer de mim um homem de corpo inteiro, inquieto e contraditório, atento aos problemas sociais, com o gosto pelas artes, pela literatura, pela música, pelo desporto e um humor quase perverso de encarar a vida. Não compreendem que a Casa do Gaiato não fez tudo pelo que hoje somos, mas "preparou a terra e lançou a semente..."
Choro, apesar de há muitos anos saber previsível este desfecho e ter lutado, qual dom quixote, contra os vampiros que nos querem entrar pela Casa dentro. Os velhos padres da rua, teus seguidores, foram cegos e surdos no seu egocentrismo. Não quiserem preparar os continuadores e, num autismo patético, foram triturando as jovens vocações e escolhendo para “obreiros” os que de nós eram apenas bons artífices mas medíocres para serem os continuadores da tua herança pedagógica! O fundamentalismo serôdio dos velhos padres, que se consideravam ungidos, afastou os melhores de nós e os padres jovens e mais capazes foram para as Casas do Gaiato de África ou abandonaram a nossa Obra da Rua.
Repito, apesar da meia-idade e de uma vida burguesa sorridente, este é dos dias mais tristes da minha existência! Olhar para o desmoronar do património pedagógico da nossa Obra de Rapazes e sentir-me impotente para conter este ignóbil e prepotente assalto do Estado, é frustrante e muito doloroso.
Se ao menos acreditasse em milagres!... Mas, como sabes, tornei-me agnóstico era ainda um adolescente Chefe Maioral da comunidade que me elegeu!
E os teus outros filhos gaiatos, hoje cidadãos de corpo inteiro, para quem continuas a ser uma referência ética e pedagógica de relevo, aceitarão com indiferença esta invasão vampiresca do funcionalismo público às Casas do Gaiato ou marcarão presença de protesto na tomada de posse do iluminado primeiro director, à data “secretário-geral de uma comunidade de apoio a sem-abrigo”, na Casa do Gaiato do Tojal?
Tenhamos esperança, pois, como diz Sebastião da Gama, “Pelo sonho é que vamos. Comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não frutos, Pelo Sonho é que vamos.”
“Boa noite e boa sorte”!...
Manuel António
(antigo gaiato, 56 anos)
licenciado em Política SOcial
Gestor de Formação, num dos maiores grupos empresariais do País
Publicado por: Caneco às setembro 8, 2006 07:40 PM
Dar uma estalada numa criança! "Por amor de deus", crime, disse ela... ou dizem eles... Claro que é reprovável mas quantos pais ou mães não o fazem. Pior é deixar as crianças deste País ao abandono e vítimas de maus tratos sociais pela miséria em que vivem sem oportunidade de serem crianças. Sem a Casa do Gaiato, a minha família de adopção, hoje não seria o Gestor respeitado que sou mas um deliquente de quem os que hoje criticam a Casa do Gaiato fugiriam com repulsa.
No seguimento das notícias publicadas em vários órgãos da comunicação social sobre a "violência nas Casas do Gaiato, não resisti escrever ao seu fundador, cujos princípios pedagógicos fizeram de mim um homem socialmente integrado, ainda que não normalizado. Carta de lamento e pesar, escrita com a lucidez que uma alma dorida consegue, que enviei a ministro e secretário de Estado da Segurança Social, assim como altos dignitários da Igreja responsáveis últimos pela Obra da Rua e a principais órgãos da comunicação social. Com todas as suas fraquezas, a inovadora pedagogia de Pai Américo permitiu que um então vadio das ruas do Porto se fizesse um cidadão, burguês até, de corpo inteiro.
“Querido Pai Américo,
Não pensava escrever-te sem ter razões de força maior que justificassem incomodar-te, pois a tua pedagogia ensinou-me a ser autónomo, livre e responsável.
Porém, hoje, 4 de Março de 2006, estou muito triste – segundo a comunicação social, o “Estado vai nomear o primeiro director não padre para uma Casa do Gaiato”. Uma dor profunda asfixia-me a alma! Fragilizado e com dificuldade em conter e em exprimir a indignação, procuro reconforto no teu regaço! E deixo as lágrimas inundarem-me a alma sofrida perante a impotência que sinto por não poder defender a nossa “Obra de Rapazes, para Rapazes, pelos Rapazes” desta ignóbil invasão e de poder garantir a pureza da tua inovadora pedagogia para “Fazer de cada Rapaz um Homem”!
Após uma persistente e longa campanha de difamação sobre a Casa do Gaiato, um grupo de ignotos técnicos da Segurança Social, doutos psicologistas, ávidos de “tachos” e cargos de direcção, conseguem ganhar o primeiro assalto à Obra da Rua, com o beneplácito da Comissão de Protecção(?) de Menores, dirigida pelo juiz Leandro que me parece idóneo e honesto, mas que face aos desastrados resultados da sua referida Comissão, não tem coragem para resistir à violação do teu património pedagógico, se é que o conhece bem. O começo do fim da tua (nossa) modelar Obra de Rapazes será apenas confirmado administrativamente por um Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social pouco interessado em valorizar a nossa histórica Obra da Rua! Ignoram que o amor é a base da nossa educação e que não se consegue domar rapazes com a nossa endémica rebeldia sem espírito franciscano e dedicação total. E até a tua Igreja, a primeira e única responsável pela nossa Obra da Rua, claudica e ajoelha perante o Estado dando a sua bênção à “Primeira nomeação de um director não padre”, como referem em júbilo os órgãos de comunicação social!
Como deves saber, este assalto começou há mais de um ano tendo por base um incongruente Relatório, elaborado por uns burocratas da Inspecção da Segurança Social, que levianamente ditava a necessidade de encerramento da Casa do Gaiato de Paço de Sousa, por falta de condições para acolher crianças, o que denotava o delírio pedagógico e a miopia de alguns técnicos cujas decisões tem conduzido a várias mortes de crianças por maus tratos na família.
Ávidos de protagonismo, os pobres de espírito pedagógico tomaram a nuvem por Juno, ignorando que, quando detectados, os casos de violência sobre os mais novos são devidamente punidos de acordo com a gravidade que o caso justifica. Não souberam reconhecer que apesar da vida nas nossas Casas não ser fácil, as crianças deserdadas ou abandonadas, que conhecem o sofrimento e o sabor amargo da miséria encontram nas Casas do Gaiato uma família – com as virtudes e as fraquezas de qualquer família numerosa – que lhes incute valores éticos e princípios de vida que me são muito gratos – solidariedade, justiça social, liberdade na responsabilidade, entre outros. Não souberam compreender que a Casa do Gaiato faz cidadãos que sentem satisfação em afirmar que muito do que são o devem ao facto de terem sido "gaiatos"! Casa do Gaiato que ajudou a fazer de mim um homem de corpo inteiro, inquieto e contraditório, atento aos problemas sociais, com o gosto pelas artes, pela literatura, pela música, pelo desporto e um humor quase perverso de encarar a vida. Não compreendem que a Casa do Gaiato não fez tudo pelo que hoje somos, mas "preparou a terra e lançou a semente..."
Choro, apesar de há muitos anos saber previsível este desfecho e ter lutado, qual dom quixote, contra os vampiros que nos querem entrar pela Casa dentro. Os velhos padres da rua, teus seguidores, foram cegos e surdos no seu egocentrismo. Não quiserem preparar os continuadores e, num autismo patético, foram triturando as jovens vocações e escolhendo para “obreiros” os que de nós eram apenas bons artífices mas medíocres para serem os continuadores da tua herança pedagógica! O fundamentalismo serôdio dos velhos padres, que se consideravam ungidos, afastou os melhores de nós e os padres jovens e mais capazes foram para as Casas do Gaiato de África ou abandonaram a nossa Obra da Rua.
Repito, apesar da meia-idade e de uma vida burguesa sorridente, este é dos dias mais tristes da minha existência! Olhar para o desmoronar do património pedagógico da nossa Obra de Rapazes e sentir-me impotente para conter este ignóbil e prepotente assalto do Estado, é frustrante e muito doloroso.
Se ao menos acreditasse em milagres!... Mas, como sabes, tornei-me agnóstico era ainda um adolescente Chefe Maioral da comunidade que me elegeu!
E os teus outros filhos gaiatos, hoje cidadãos de corpo inteiro, para quem continuas a ser uma referência ética e pedagógica de relevo, aceitarão com indiferença esta invasão vampiresca do funcionalismo público às Casas do Gaiato ou marcarão presença de protesto na tomada de posse do iluminado primeiro director, à data “secretário-geral de uma comunidade de apoio a sem-abrigo”, na Casa do Gaiato do Tojal?
Tenhamos esperança, pois, como diz Sebastião da Gama, “Pelo sonho é que vamos. Comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não frutos, Pelo Sonho é que vamos.”
“Boa noite e boa sorte”!...
Manuel António
(antigo gaiato, 56 anos)
licenciado em Política SOcial
Gestor de Formação, num dos maiores grupos empresariais do País
Publicado por: Caneco às setembro 8, 2006 07:41 PM