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junho 27, 2006
Gente normal

Depois de ler uma notícia em que a autora de Harry Potter diz estar a pensar “matar” dois dos principais personagens da saga, no último livro (não descurando a hipótese de o próprio Harry ser uma das vitimas) e esta crónica da Fernanda Câncio no DN, não pude evitar que se fizesse uma qualquer estranha associação no meu espírito.
A incapacidade de entendermos, a incapacidade de aceitarmos que gente “normal” pode ser, afinal, alguém que mata em série, que o nosso vizinho do lado, o senhor da papelaria, a rapariga da loja das flores…e paramos aqui. Impossibilitados de levar mais à frente o raciocínio…incapazes porque, não se encontrando razões ou explicações lógicas, que encaixem no puzzle, que o completem, qualquer continuação de raciocínio nos pode levar a mais perto. Insuportavelmente perto.
Na pena ou no teclado dum escritor, dispõe-se da vida dos personagens, para que a história se assemelhe à vida real. Aquele mal é demasiado mau, para que todos lhe possam sobreviver, assevera a autora. Se assemelhe à vida das pessoas normais. Que, quem sabe, como diz a Fernanda Câncio, no artigo, poderão estar connosco na próxima patuscada…ou mais perto…
Há uns anos tive um colega que era uma lenda na empresa. Já entrei uns anos depois do 25 de Abril, mas as histórias que me contavam, passadas nesses dias de brasa, fizeram história. E ele era o seu maior protagonista. Metiam a CIA, o Carluci, os encontros secretos que iam tentando levantar a contra-revolução em Portugal e ele lá estava, do outro lado da barricada de G3 em punho…
Anos depois saiu da empresa. Mais uns tantos depois, pegou na sua vida e usou-a da forma que lhe pareceu lógica. Cá fora, aqueles que viveram as suas histórias e os que as ouviram, nunca entenderam. O fim não encaixava em nenhuma peça do puzzle que montou (montámos?).
Começar a ler o fim anunciado de Harry Potter, continuar pelo homem que podia ser o vizinho da esquina e acabar aqui.
A incredibilidade de a vida, a nossa e a dos outros, ser algo de que qualquer pessoa “normal” pode dispor, espanta-nos, incomoda-nos, assusta-nos. Ou fascina-nos?
Harry Pottre poderá bem vir a ser morto pelo Mal Supremo. Que pode estar ali ao lado. Numa qualquer tecla.
Publicado por Isabel Faria às junho 27, 2006 07:38 PM
Comentários
É uma excelente associação que fizeste Isabel.
De manhã quando li essa declaração da autora do Harry Potter, também fiquei de boca aberta e a pensar onde é que ela queria chegar. Como leitora dessa série (não tenho falhado um livro!) já tinha percebido que ela ia matando sempre alguém importante em todos os livros. Fiquei estarrecida quando, no último, ela “matou” a pessoa que eu achava mais importante. Nem concebia que nenhum dos jovens principais pudesse desaparecer, e nem entendo o argumento dela, porque aquilo é uma história, bolas!…
Quanto à personalidade do que antes se chamava ‘psicopata’, é complicado, sim. Porque como dizes, todos esperam que uma pessoa que sempre foi violenta, um dia se torne ainda mais violenta. Como que uma lei. Mas não é de agora que há criminosos que vivem a vida toda com a aparência de boas pessoas. Na Inglaterra houve aqueles famosos casos que inspiraram a literatura policial, maridos que matavam as várias mulheres, médicos que matavam os doentes, tudo isso há mais de 100 anos. Ou seja a natureza humana tem essas estranhas facetas. Mas são excepções. Uma disfunção mental, que surge raramente. Apesar de tudo é complicado é a violência do dia a dia, sabida e ‘consentida’.
Publicado por: Emiéle às junho 27, 2006 09:23 PM
Por falar em gente normal, porque não pegam na fábula do Pinóquio e na crueldde cínica de Maquiavel?
É que Sócrates referiu num discurso difundido por todos os media e NINGUÉM sequer questionou onde aquela figura peregrina encontrou electricidade durante o séc. XVIII e e todo o XIX...
Publicado por: Explícito às junho 27, 2006 09:28 PM
"Aqueles que conseguem domar a sua natureza selvática, transformando o seu lobo num cão de raça, chamam a isto moderação. Para mim o verdadeiro nome é mediocridade." - Quitéria Barbuda in "Paço de Arcos - Um Povo Superior", Revista "Espírito", nº 36, 2006.
Publicado por: Brigada Bigornas às junho 28, 2006 08:30 AM
Aqui para nós que ninguém nos ouve quem era esse antigo colegas que era uma lenda na empresa?
Parece-me bem mais interessante que o Harry Potter
Publicado por: Chico Zé às junho 28, 2006 04:29 PM
Chico Zé, um PC daqueles que já não se usam ( e isto é um elogio!!!). E uma pessoa daquelas a quem ninguém ficava indiferente. daquelas pessoas que ou se amam ou se odeiam.
Ia sempre para as reuniões da CT com a Administração, logo a seguir ao 25 de Abril com a G3 na mão...mas guardava-a à porta...isto é, dentro da sala, mas à porta!!!!
O Carluci por perto chegou ameter o Copcon...por perto.
Ok, uma quantidade de aventuras que hoje nos fazem, pelo menos, coçar a cabeça...mas de quem se fez uma lenda.
Publicado por: isabel faria às junho 28, 2006 05:45 PM