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julho 11, 2006

Porque me apeteceu

Não me lembro de quando ouvi este poema de António Gedeão a 1ª vez. Já foi há uns anitos. Não me lembro em que contexto ou em que ocasião. Lembro-me de o ouvir uns tempos depois declamado pela Odete Santos num programa de televisão. Falado ou cantado continuava lindo. O poema é antigo na data mas actual no conteudo. Como todas as obras de arte. Se calhar por isso continuo a acha-lo lindo.
Hoje não sei porque acordei a cantarolá-lo e lembrei-me. Porque não partilhá-lo com os meus amigos. Ainda para mais numa altura que se discute paridades na política mas muitas mulheres continuam sem o mínimo de direitos aos olhos da sociedade machista em que vivemos.

Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa. Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa, larga que larga,
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,

Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada,

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.




Publicado por Daniel Arruda às julho 11, 2006 09:37 AM

Comentários

Linda. Também não sei há quantos anos a ouvi a primeira vez e também a vi declamda pela Odete Santos, no tal programa...é daqueles poemas em que tu não guardas, apnas, o sentido. Ouve-lo, lê-lo e ficarás sempre com cada frase cá dentro.
E depois o que torna as coisas realmente belas é o sentirmo-nos lá...tenho a certeza, Daniel, que apesar de tantas diferenças na vida, de tantas vidas diferentes não há nenhuma mulher que não se sinta dentro de alguma(s) daquelas estrofes.
Continua a trazer-nos as coisas com que acordas a cantarolar...a gente agradece.

Publicado por: isabel faria às julho 11, 2006 11:19 AM