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julho 29, 2006
Tenho sempre medo de pensar nas coisas que me fazem medo
Fui muito cedo para a praia. Gosto de chegar à praia quando ainda não há ninguém. Gosto de ver o mar e sentir que ele se me dá...de quando em vez, preciso de ter algumas coisas em exclusividade. Não acontece muito com as pessoas, melhor, não acontece com as pessoas porque não acho justo e porque nunca espero dos outros o que não lhes posso nem lhes sei dar, mas com o Mar sim. Também acontece com a Lua, ás vezes. Mas menos. Com o Mar gosto mesmo de sentir que aquela onda foi propositada para molhar os meus pés.
Não creio que houvesse mais de 3 ou 4 pessoas espalhadas pelo areal. Longe o suficiente para que apenas ouvisse o som das ondas.. O João Pedro ficou ainda a dormir. Era a última manhã de férias e tinha que aproveitar.
Deixei a toalha, despi-me e, de tão cedo que era, deu para sentir, percorrendo-me o corpo, o vento frio, a maresia fria, de quando o Sol ainda acorda.
Molhei os pés na água fria. Naquela que eu sei que só ali estava para mim. E aconteceu-me o mesmo de sempre, quando só estou eu e o Mar. Nunca sinto frio. Sei que a água está fria, mas não a sinto fria. O Mar, quando estamos sós, eu e ele, aquece-me sempre. Mentira. Esta parte foi só porque me custa reconhecer que não saberia viver sem o seu calor. O Mar, para falar verdade, mesmo quando não estamos sós, aquece-me sempre. Até quando está longe e só o sinto. Durante alguns tempos só sentia o Mar quando o olhava. Ou o tocava. Agora não. Agora sinto-o sempre. Creio que começou a acontecer quando aprendi a entregar-lhe os meus pés para aquecer. A entregar-me. Os pés e o resto de mim.. De manhãzinha, ao acordar, o Mar aquece-me a alma. Nunca me devo vir a fartar de acordar no Mar. Como não acontece muitas vezes, aproveito os minutinhos todos. E beijo-o. Ou a areia dele. Enquanto ele se espreguiça. O Mar parece gostar que o beijem ao acordar. E ao adormecer. Já me aconteceu estar com ele, à noitinha, e beijá-lo ao adormecer. Ou de dia. O Mar não tem hora para adormecer. Basta que a gente lhe toque levinho. E o canse. Gosto de ver o Mar cansado. Parece-se com gente. Comigo. Também gosto que me adormeçam. Cansada.
Ainda sinto os pés molhados. Quentes e molhados. Mesmo agora que o Sol quase adormece de novo e a maresia volta. E agora que as férias acabam sei que vou encontrá-lo noutro lugar. Pode ter forma de Tejo. O meu Mar tem a forma que eu lhe dou. Dantes não era assim. Precisava de o ver, assim, azul e de perder de vista, para ser o meu Mar. Creio que começou a ter esta forma, a forma que lhe dou, quando um dia o encontrei á minha porta, ao fim das escadas. Um Mar que está em plena Lisboa, á minha porta, ao fim das escadas e me espera...pode ser e estar em qualquer lado. Confesso que tenho medo que um dia não o encontre, que volte a sentir a água fria ou que precise de lhe tocar para o sentir...ou, pior ainda, que deixe de perceber que aquela onda é só para mim... Mas não me apetece pensar nisso. Nunca me apetece pensar nas coisas que me fazem medo. Tenho sempre medo disso.
Publicado por Isabel Faria às julho 29, 2006 05:14 PM
Comentários
Tenho andado muito atarefado, de tal forma que me tenho privado desta companhia que é o Troll.
Hoje, domingo, voltei a passar por cá e depara-se-me este escrito lindo.
Isabel, gostei mesmo!
Na verdade o Mar exerce sobre quem o sabe olhar esse poder, esse fascínio, esse torpôr, que nos deixa assim, a modos que, pequeninos. Os pensamentos afluem com uma rapidez e brancura, difíceis de igualar e funciona como um carregador de baterias, para mais uma etapa de frustrações, alegrias e tristezas numa amálgama de sentimentos, que só com um Mar, o nosso Mar, próximo, conseguimos ultrapassar.
Não é para te fazer inveja, mas dentro em breve, estarei rodeado de Mar, por todos os lados. Aí, espero a tua visita.
Publicado por: josé palmeiro às julho 30, 2006 12:10 PM
Bonita homenagem. :-)
Publicado por: Mar às julho 30, 2006 02:27 PM
José adoro o mar...mas essa de estar rodeada dele de todos os lados...ok...mas muito tempo...sem poder mesmo fugir...eh pá não sei. Acho que prefiro tê-lo pertinhos...mas não á volta.
A sério, amigo. Nunca tive a experiência de viver numa ilha. Estive uma semana na Madeira e ao fim já precisava de ver terra à volta, mas reconheço que na Madeira para além de Mar via o Alberto João...na volta só com Mar estava em casa.
Mar, eu sabia que ias gostar...:))))
Ah e ainda não o encontrei à porta, hoje...mas mais dia menos dia, chega cá.
Publicado por: isabel faria às julho 30, 2006 07:15 PM