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agosto 05, 2006
"Carta a Frank"
Esta carta do Boaventura Sousa Santos, foi publicada na revista Visão, do passado dia 27 de Julho. Hoje recebi-a por Email. No dia em que se contabilizaram os mortos e feridos ( as feridas, ainda não se descobriu a medida a usar), aqui fica:
Escrevo-te esta carta com o coração apertado. Deixo a análise fria para a razão cínica que domina o comentário político ocidental. És um dos intelectuais judeus israelitas — como te costumas classificar, para não esquecer que um quinto dos cidadãos de Israel é árabe — mais progressistas que conheço. Aceitei com gosto o convite que me fizeste para participar no Congresso que estás a organizar na Universidade de Telavive. Sensibilizou-me sobretudo o entusiasmo com que acolheste a minha sugestão de realizarmos algumas sessões do Congresso em Ramallah.
Escrevo-te hoje para te dizer que, em consciência, não poderei participar no congresso. Defendo, como sabes, que Israel tem direito a existir como país livre e democrático, o mesmo que defendo para o povo palestiniano.
Esqueço, com alguma má consciência, que a Resolução 181 da ONU, de 1947, decidiu a partilha da Palestina entre um Estado judaico (55% do território) e um Estado palestiniano (44%) e uma zona internacional (os lugares santos: Jerusalém e Belém) para que os europeus expiassem o crime hediondo que tinham cometido contra o povo judaico.
Esqueço também que, logo em 1948, a parcela do Estado árabe diminuiu quando 700 mil palestinianos foram expulsos das suas terras e casas (levando consigo as chaves que muitos ainda conservam) e continuou a diminuir nas décadas seguintes, não sendo hoje mais de 20% do território.
Ao longo dos anos tenho vindo a acumular dúvidas de que Israel aceite, de facto, a solução dos dois Estados: a proliferação dos colonatos, a construção de infra-estruturas (estradas, redes de água e de electricidade), retalhando o território palestiniano para servir os colonatos, os “check points” e, finalmente, a construção do Muro de Sharon a partir de 2002 (desenhado para roubar mais território aos palestinianos, os privar do acesso à água e, de facto, os meter num vasto campo de concentração). As dúvidas estão agora dissipadas depois dos mais recentes ataques na faixa de Gaza e da invasão do Líbano. E agora tudo faz sentido.
A invasão e destruição do Líbano, em 1982, ocorreu no momento em que Arafat dava sinais de querer iniciar negociações, tal como a de agora ocorre pouco depois do Hamas e da Fatah terem acordado em propor negociações. Tal como então, foram forjados os pretextos para a guerra. Para além de haver milhares de palestinianos raptados por Israel (incluindo ministros de um governo democraticamente eleito), quantas vezes no passado se negociou a troca de prisioneiros?
Meu Caro Frank, o teu país não quer a paz, quer a guerra porque não quer dois Estados. Quer a destruição do povo palestiniano ou, o que é o mesmo, quer reduzi-lo a grupos dispersos de servos politicamente desarticulados, vagueando como apátridas desenraizados em quadrículos de terreno bem vigiados. Para isso dá-se ao luxo de destruir, pela segunda vez, um país inteiro e cometer impunemente crimes de guerra contra populações civis. Depois do Líbano, seguir-se-á a Síria e o Irão. E depois, fatalmente, virar-se-á o feitiço contra o feiticeiro e será a vez do teu Israel.
Por agora, o teu país é o novo Estado pária, exímio em terrorismo de Estado, apoiado por um imenso lóbi comunicacional — que, sufocantemente, domina os jornais do meu país — com a bênção dos neoconservadores de Washington e a vergonhosa passividade da UE. Sei que partilhas muito do que penso e espero compreendas que a minha solidariedade para com a tua luta passa pelo boicote ao teu país. Não é uma decisão fácil. Mas crê-me que, ao pisar a terra de Israel, sentiria o sangue das crianças de Gaza e do Líbano (um terço das vítimas) enlamear os meus passos e embargar-me a voz.
Publicado por Isabel Faria às agosto 5, 2006 10:59 AM
Comentários
Pois é. Mas agora, até as nossa TVs parecem ter descoberto os coitadinhos dos Israelitas onde caem uns mísseis. os outros são terroristas,
Publicado por: João Norte às agosto 5, 2006 11:17 AM
Pois é. Mas agora, até as nossa TVs parecem ter descoberto os coitadinhos dos Israelitas onde caem uns mísseis. os outros são terroristas,
Publicado por: João Norte às agosto 5, 2006 11:18 AM
Eu li este texto e na altura pensei que raio. Merecia um comentário, ma spor outro lado nunca sei o que pensar das opiniões do BSS. É que tanto dá uma no cravo como outra na ferradura.
Publicado por: Daniel Arruda às agosto 5, 2006 01:06 PM
Só a má consciência e o seguidismo em relação às teses do pentágono, podem levar ao estado em que as coisas estão. A carta do Boaventura e outras posições expressas por uns poucos deverão continuar a entupir os canais convencionais de notícias e a desmascarar o embuste que está criado e que promete continuar agora com Cuba, isto salvagurdando as objecções que o regime instalado sugere. No entanto a rapidez com que a Condoleza (arroz) apareceu a emanar toda aquela solidariedade para com o povo cubano, é como o algodão, não engana!
Publicado por: José Palmeiro às agosto 5, 2006 01:11 PM
boa tarde,
Como é óbvio Boaventura Sousa Santos recusou no passado todos os convites feitos para congrssos e/ ou conferências semelhantes realizadas :
- na Libía;
- na Argélia;
- Na Siría,;
- Na Arábia Saudita;
- em Cuba;
- no Irão,
etc.
Cumprimentos
Publicado por: António P. às agosto 5, 2006 03:07 PM
Daniel, o Boaventura Sousa Santos é humano...nós também. Este considero que é um bom texto. Outroa há com os quais não me identifco minimamente. Nunca os publicaria. Talvez, no entanto, isso seja uma coisa boa...dele e nossa.
António, não faço a minima ideia se o BSS já visitou os países de que falas. Neste caso não considero que seja importante. È Israel que está a agredir, a matar e a desalojar.
Se o BSS denunciar as agressões, as violaçoes dos direitos humanos, as perseguições no Irão, na Síria, em Cuba, na Arábia Saudita...terá o meu total apoio. Se não o fizer, se na altura em que for convidado para lá estar, não o fizer, não terá o meu apoio. Qua neste caso tem. È a isto, creio, que se chama liberdade de opinião. È para ela e por ela, que nos batemos ou não?
De qualquer forma e se uma vida humana não fosse uma vida humana, se não valesse de per si, se pudesse ser contabilizada, comparada quantitativamente...se se contassem o número de vidas perdidas e assim se fizesse uma lista de "maus"...possivelemnte Israel, bateria aos pontos...como me recuso a fazê-lo, repito que o meu apoio a uma posição é o meu apoio a uma posição...neste caso, este post serve para isso. Para o resto...não faltarão, infelizmente, oportunidades.
Esta é uma guera de agressão de Israel que apenas serve os fundamentalismos. O seu e o dos países e dos movimentos muçulmanos mais radicais.Esta é uma guerra de agressão que mata inocentes em nome de perseguir inimigos...não tenho como não a denunciar. Deixo-te o convite a passares pelo Troll quando eu não o fizer "do outro lado". Mas dúvido que o consigas..
João, esse é o problema. Com um pretexto de um acto terrorista se inicia uma escalada de força e de morte. Como se Israel tivesse nascido há 25 ou 26 dias, no dia em que são raptados dois dos seus soldados.
É José, vem aí Cuba.Brevemente Fidel será u culpado da falta de democracia, os EUA um cordeirinho preocupado que nunca fez um boicote que apenas serviu para isolar Cuba e contrinuiu para aquilo que se acusa Fidel de ter negado. Esta imagem maniqueísta que nos querem sempre transmitir, de que de uma lado estão sempre os bons e do outro os maus, e de que os maus são sempre os outros, aqueles com que não concordamos, é um entrave da uma porrada de coisas. Da Paz e do progresso, por exemplo,
Publicado por: isabel faria às agosto 5, 2006 04:01 PM
O Sr. BSS tem uma memória muito selectiva. Por exemplo, quando o estado de Israel foi declarado e de imediato atacado por todos os paises árabes que com ele fazem fronteira, foi um promenor que lhe escapou.
Quando rockets fornecidos pela Síria e pelo Irão, ao Hezbollah cairem na baixa de Lisboa, ou no Porto, que farão os idiotas úteis?
Quanto ao Coma Andante, já cá faltava a treta do embargo. Então todos os paises da UE não fazem comércio com esse País. O Soba da Venezuela não lhes dá petróleo de borla, e mesmo assim os transportes em Havana aumentam 300%. Não fazem comércio com a Russia e China. O embargo é a justificação para que um ditador nojento tenha permanecido todos estes anos no poder, que agora entrega, qual Monarquia, ao irmão. O que nos paises ditos socialistas já vai sendo hábito, veja-se a Coreia do Norte.
Publicado por: Carlos Alberto às agosto 5, 2006 07:20 PM
Carlos Alberto, vou dividir a minha resposta em duas partes.
Quando o mundo estiver todo em guerra por causa dos idiotas úteis, vassalos dos EUA como o Carlos Alberto, o que vais dizer? Que a a culpa não é tua?
Quando o Estado de Israel foi fabricado (é mais correcto que criado) já havia Palestina, Libano, Irão, Síria, ... Porque será que Europeus e Americanos não criaram o estado de Israel na Europa? Será que aí o Carlos Alberto também não se importava? Já agora os ataques só começaram depois dos israelitas violarem o acorde de 1948 começando a construção de colonatos em território palestiniano. Israel já tentou invadir a Síria e o Líbano com o acordo dos EUA.
Já agora gostava que me explicasse dado que fala nas armas da Síria e Irão, qual a opinião sobre as armas dos EUA. Será que são diferentes, ou ser´que uns podem ter e outros não. Já agora é importante que explique também se está mais seguro tendo Bush como polícia do mundo. É que eu não.
Quanto a Cuba. Já várias vezes escrevi que o que existe é mau mas não me parce que a democracia que Bush e amigos gostariam de implementar fosse melhor. Os exmplos da Arménia, Bielorrussia, Kazaquistão, turqemenistão, Iraque, Afeganistão entre muitos outros são por demais elucidativos.
Eu tb quero uma Cuba democrática mas não quero mais um vassalo do império.
Publicado por: Daniel Arruda às agosto 5, 2006 08:20 PM
Primeiro O Boaventura Sousa Santos, consegue com o seu texto duas coisas, dizer que CONDENA Israel pelos massacres que tem praticado, quer contra os palestinos quer agora contra os libaneses.
Segundo e muito importante ,diz aos israelitas, que não é anti-Israel, e que não comunga da opinião daqueles que dizem que só o desaparecimento do Estado de Israel resolverá o problema do Medio-Oriente.
Julgo que é uma voz respeitavel e que não tem dois pesos e duas medidas.
Quanto aos pseudo-amigos de Israel deveriam lembrar-se que os massacres praticados nos últimos dias por Israel conseguiram o impossivel ,um padre CATÓLICO sirio a pedir orações pelo dirigente do partido de Deus libanês.
Unir inimigos de uma luta fraticida, unir fanaticos e laicos, unir democratas e teocratas, eis o que Israel consegiu com os massacres que praticou.
Quem conhece minimamente aquela zona e aquelas populações sabe que Israel conseguiu mais inimigos nestes ultimos dias do que durante os seus 50 anos de existência.
Os erros pagam-se muito caro....
Publicado por: a.pacheco às agosto 5, 2006 08:31 PM
Meter o Estado de Israel e um bando de terroristas islamico-fascistas no mesmo saco, só lembraria a estes "pacifistas". No Libano existe um bando criminoso que sem respeito da ordem constitucional libanesa opera como bem quer e lhe apetece. Porque razão não se desarmou este bando criminoso como determinaram as Nações Unidas, quando Israel saiu do sul do Libano. E por falar em ONU, que estiveram a fazer durante 6 anos os capacetes azuis, que permitiram que este bando fascista se arma-se, se refugia-se e se servi-se da população civil libanesa para atingir um Estado soberano. Por outro lado o Estado de Israel, que foi atacada, defende a sua integridade, do fanatismo que despreza os valores da Democracia.
Não sou inocente. O regime islamco-fascista do Irão, quando tiver bombas nucleares com capacidade de chegar a qualquer capital europeia, será uma ameaça aos nossos valores democráticos. O que farão estes pacifistas, nessa altura. O actual Presidente Iraniano, aprendeu muito com o seu mestre Adolfo Hitler.
O Estado de Israel, foi criado pelas Nações Unidas, com amplo apoio. Excepto dos Árabes, que logo no primeiro dia atacaram o jovem estado.
Quanto ás armas Americanas, por muito estranho que pareça, foram e são elas que permitiram e permitem que as democracias ocidentais, com todas as suas virtudes e seus imensos defeitos, continuem como as conhecemos. Não foram armas Americanas mas Sirias qua assassinaram um ex-PM Libanês, não vai à muito tempo.
E já agora Sr. Arruda, só sou VASSALO da minha consciência. E se um dia tiver de o ser de alguém, não será de um bando fascista islâmico, que escraviza as suas mulheres, retirando-lhes todos os direitos, e as assassina à pedrada.
Por falar em Vassalos, lembro-me bem de alguns que o foram do "camarada" Hocha da Albânia. Hoje andam por aí qual Burgueses, dizem-se de Esquerda ao mesmo tempo que lambem os beiços com o caviar.
Publicado por: Carlos Alberto às agosto 6, 2006 12:41 AM
Carlos A lberto, há tipos de linguagem que de mim nunca levarão resposta.
A linguagem que deturpa a história, é uma delas.
Aquela que usa termos como lamber beiços e mete entre aspas pacifistas, para ter um carácter agressivo, supostamente ofensivo é outra. Porque não me ofende, e de tão ridicula não chega a ser agressiva.
Apareça. Gosto de discutir ideias. A minha esposta ao António P. é a prova. A forma civilizada como com ele (só para dar um exemplo desta caixa de comentários) e outras pessoas aqui sempre se iscutiram ideias é um estímulo. Mas para discussões rascas, não. Já dei para esse peditório demasiadas vezes. Desculpe.
Publicado por: isabel faria às agosto 6, 2006 08:43 AM
Eu adoro revisionostas como o Carlos Alberto que desvirtua noções ao sabor do vento.
Quando escreve "Por outro lado o Estado de Israel, que foi atacada, defende a sua integridade, do fanatismo que despreza os valores da Democracia." deveria antes fazer uma pergunta. Porque é que a Inglaterra quando atacada pelo IRA não bombardeou Belfast? Ou A Espanha quando atacada pela ETA nunca atacou o país basco frances apesar de saber que haveria ali centros de operações? porque será que num exemplo mais recente a India que tem armamento nuclear não atacou o Paquistão apesar de saber que os ataques partiram de forças que têm "poiso" ali?
Esta é uma questão que os supostos pacifistas podem colocar mas mais, ao escrever esquece-se que o Líbano é um estado laico, onde convivem 7 religiões diferentes, democrático com eleições multipartidárias e que segundo um estudo recente da CNN 87% da população neste momento apoia o Hezbolah que não tinha sido a força mais votada nas eleições. Ou seja, o Líbano polítcamente é igual ou melhor que o ocidente e convem pensar porque está a ser atacado. Se calhar os EUA e Israel não gostam de ali não serem eles a mandar como acontece no Afeganistao, Iraque, Kuwait ou Arabia Saudita só para citar alguns.
Quanto a ser vassalo, meu amigo, há os que poe de joelhos para rezar e outros que .. enfim, deixe estar isso.
Só duas notas rápidas, não me conhece para dizer que no passado defendia isto ou aquio por isso esqueça os chavões do Hocha que já nem o Nuno Melo do CDS usa. Tente ser criativo e invente algo de novo e depois para lhe explicar que uma arma americana mata tanto e tão dolorosamente como uma iraniana, síria, indiana ou paquistanesa.
Publicado por: Daniel Arruda às agosto 6, 2006 09:35 AM