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agosto 19, 2006
Entre a espiral e o labirinto, escolho o quê?

Ali em baixo, o Chico Zé, lançava-me o desafio…da verdade. O Troll não é um Blog sobre filosofia, mas nada nos impede de…filosofar. Dizia. Concordo. Não é, no entanto, uma tarefa que se faça de ânimo leve, esta. Requer que se escolham as palavras e se clarifiquem as ideias. O nosso conceito de verdade, a importância que damos à sua procura, talvez a mágoa de a julgarmos e sentirmos inatingível, torna fácil a desculpa que é uma tarefa demasiado hérculea, para ser tomada em mãos num Blog. Seja ele qual for. E talvez a ideia de Blog, mesmo, algo que se digere de imediato, algo que nasce do imediatismo do passado, da importância absoluta do presente e que assume a sua total incompatibilidade com o futuro, tornando-se obsoleto, velho, desactual no minuto a seguir, torne a dissertação sobre a verdade, algo não só trabalhoso, como, essencialmente, incompatível. Ou inútil?
Para tornar isto compatível com um Blog (ou com este Blog?), talvez a única safa, e porque sempre a mim me agarro como muleta, seja para falar de vida, de medo, de paixão, de dúvidas, seja também ousar fazê-lo para falar de verdade.
Creio que cresci, sem mesmo de isso me dar conta, imbuída naquele conceito existencialista, que a única verdade é o estado passageiro da nossa passagem por aqui, de que a nossa passagem é sempre angustiante dada a inevitabilidade da única certeza, a da morte iminente, desde o dia, em que, pela primeira vez, espreitamos o olhar enternecido, assustado ou inebriado da nossa mãe. Quando se cresce, mesmo inadvertidamente e quem sabe se contra a própria vontade (sempre tive momentos em que me questionei se a fé na não inevitabilidade do fim, não seria uma muleta muito mais airosa, do que a angústia que essa inevitabilidade provoca, sem nunca ter conseguido, em momento algum da minha existência, a ela recorrer), é inevitável continuar nesse caminho e ser-se levado também à “verdade” da inexistência de alguém que cá nos trouxe. Por sua exclusiva e egoísta ou altruísta vontade. O não ter tido quem tivesse tomado em suas mãos a responsabilidade de me ter colocado aqui, dá-me um trabalhão enorme. Deixa-me sozinha para tomar as minhas decisões, fazer as opções e, mais e pior do que isso, retira-me desculpas e almofada, para ajudar a suportar a dureza da parede cada vez que nela bato com a cabeça.
Creio que é aqui, para ajudar nesta difícil tarefa de me aguentar sozinha e de aceitar que sou a única responsável das asneiras que faço, que me surge a “verdade” dos princípios.
Fazer da minha passagem por aqui, da forma como passo e das pessoas que procuro para comigo percorrerem o caminho, procurando ser fiel a princípios, que são a minha única aproximação de verdades, é a minha única safa. Qualquer outra será incompatível com este maldito defeito cartesiano (?), que me leva a duvidar de tudo e, sobretudo, de mim. Sistemática. Teimosa e dolorosamente.
Há uns anos, num momento trágico da minha vida, algumas vezes me questionava se estava a ser fiel a alguns princípios “sagrados”. O de que a passagem por aqui tem que ser uma passagem de busca da felicidade, do bem-estar. Aqui e agora. E o meu dever de me incluir nesse bem-estar e nessa felicidade. Aos poucos reentrei nesse, que considero, meu direito inalianável. E fui reaprendendo a suportar a angústia do fim. Que fui tentando tornar suportável. Aliás, a certeza dessa inevitabilidade, quando conseguimos que se torne suportável, dá-nos uma premência de procura da felicidade e do bem-estar aqui e agora, que nos impede de aguardar, de não lutar por os alcançar. E esse direito à procura diária da felicidade, apesar da angústia de a saber sempre inatingível e passageira, tornou-se o bocadinho da verdade, a que penso me ter tornado merecedora.
Possivelmente, um dia, terei direito a mais qualquer coisita dela. Dessa “megera”, como dizia o Chico Zé, lá mais em baixo. Terei, é essa a minha mais intima convicção, de trabalhar para a merecer. Mas, então como agora, será apenas e sempre um pedaço maior ou menor da minha verdade. Fazendo jus à importância dos princípios de que não abdico, nunca a verei como a verdade. Apenas como a minha verdade. Desta incapacidade não me creio nem com capacidade nem com vontade de algum dia me libertar. Se há algo que considero incompatível com verdade (quase tanto como discuti-la num Blog…) é a sua junção ao imperativo do verbo tomar. Toma-a, nunca.
Será sempre a minha maior incompatibilidade com a verdade. O julgar-me detentora (merecedora, talvez um dia, quem sabe…) dela.
Notas finais: Quando acabei de escrever estas linhas, tive três pensamentos. O primeiro, não era de nada disto que o Chico Zé falava e não sei porque carga de água, me deu para esta tentativa caseira de "filosofar" (claro que com aspas)
O segundo, dar razão a quantos me chamam superficial. Ter veleidades de escrever sobre estes assuntos, num intervalo de um fim de almoço e de uma saída com amigos, num Sábado à tarde, manifesta, pelo menos, uma dose razoável de leviandade...mas, paciência. A "verdade" é que já não me apetece muito mudar...e o tempo impediu-me de ir à praia, como previsto.
O último foi: isto é um post enorme, para além de lhe fazeres uma entrada alrgada, deverias encontrar uma fotografia, que o tornasse mais...airoso. Pois...uma fotografia para "a verdade". Entre a espiral e o labirinto, a "megera" não me permite escolher. Ficam as duas, portanto. Ou seja, mais uma prova que não sou mesmo capaz de ter certezas...nem uminha, para ilustrar um parvo dum post.

Publicado por Isabel Faria às agosto 19, 2006 04:23 PM
Comentários
Mas isto, não se comenta.
Quando muito, discute-se, mas em fim de semana, num blog, nem pensar.
De qualquer forma, em jeito de comentário, direi, reportando-me ao título do escrito, que, relativamente à espiral, me vem logo à memória a "Espiral da Violência" de D. Helder Câmara, que, ligado à situação que hoje vivemos, me demonstra a verdade, dessas doutas palavras, quanto ao labirinto, aí, sou atirado para Eduardo Lourênço e o seu "Labirinto da Saudade" outra lição, de verdades insofismaveis.
Resumindo das duas, escolho o labirinto, sempre havia de descobrir a saída, pois que para a espiral, a encontro extremamente difícil.
Quanto a ti, recomendo que faças o que sabes, escreve e mantem-te tu mesma, essa é a tua verdade.
Publicado por: josé palmeiro às agosto 19, 2006 06:49 PM
Ora bolas.
O meu comentário não produziu o efeito esperado. Que era discutir se era ou não possível, desejável, interessante, a alguém encontrar a verdade. Quero dizer por palavras mais brejeiras; será que a verdade interessa a algém?
Porque me parece que estavas a ser demasiado "humilde" ao afirmares que: "Não me considero detentora da verdade. Mas isto não é um retrocesso cultural e civilizacional"
É evidente que aquilo é um retrocesso cultural e civilizacional.
Lá a famigerada ladainha da minha verdade, da verdade da maria e do manel são coisas que não interessam a ninguém! São opiniães! São despejos de saco! São diarreia (sem ofensa!) que só tem que ver com quem as profere e a maior parte das vezes nem isso!
Quanto à verdade ela sÓ existe quando diz respeito à realidade exterior ao egoísmozinho e à ignoiranciazinha e à maniazinha de cada um!
Úma coisa só é verdadeira quando existe mesmo para além de nós e apesar de nós! Ou será que a loucura humana está de tal forma generalizada que já se confunde aquilo que se passa entre as orelhas como verdade?
Eu nem sei se me estou a fazer compreender mas a verdade sobre qualquer assunto não depende daquilo que nós pensamos: nós é que para podermos viver, atingir a verdade sobre qualquer coisa é que temos de nos torcer, de nos esforçar por a vislumbrar, por a destrinçar, ao fim e ao cabo, por a merecer. É por isso que se costuma dizer que a verdade é só uma! ISto é, que sobre o mesmo assunto não pode haver como certas duas teses diferentes ou divergentes!
Por isso desiludam-se todos os incapazes de que a verdade absoluta não pode ser atingida. Pode pois! Precisa é de muito empenho, dignidade, esforço, mas sobretudo, de uma grande exigência de rigor, e por tudo isto - de humanidade.
Quando alguém diz a minha verdade, a tua verdade falam de outras coisas. E se falam de outras coisas porque usam a esta palavra verdade? Só pode ser para se desculpar, para se justificar, para falar de si, para se dar valor que não se tem e, por isso, para mentir afinal.
Não te estou a chamar mentirosa ó Isabel. Estou a dizer que quando afirmas que existe um atraso civilizacional ou um retrocesso naquele comentário, essas tuas palavras são verdadeiras. Reflectem a realidade do seu significado. Servem apenas a realidade do que verdadeiramente se está a passar naquele país. Quer haja quem goste, quem não goste, quem se interesse ou se esteja marimbando.
Se algum desgraçado que diga outra coisa será no mínimo mentiroso, ou ignorante irresponsável, ou fanático ateu ou religioso, vigarista profissional ou mesmo político oportunista a fazer-se a uma avença extra ou já contratada. Nada mais.
Publicado por: ChicoZé às agosto 20, 2006 03:31 AM