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agosto 31, 2006
Saudades

Tenho saudades de quando me sentavas ao teu colo e me lias o Barranco de Cegos. E a tua voz me levava ao futuro.
Tenho saudades de quando ralhavas comigo por eu comer a massa toda das bolachas de manteiga e, ainda por cima, em vez de redondas, saírem quadradas ou aos bicos. E, mesmo tortas, serem as melhores bolachas de todos os tempos.
Tenho saudades do cheiro a arroz de forno e a frango corado na casa da avó.
Tenho saudades de procurar amendoins mal encarados no bolso do casaco do avô e achar que era os melhores amendoins do mundo.
Tenho saudades de ver as ervas brancas da geada da manhã. E de comer as bolas de Berlim das latas verdes e azuis da Nazaré.
Tenho saudades quando uma chuva enorme de estrelas te trouxe para mim. Tenho saudades de quando fui perdendo as saudades de ti.
Tenho saudades de te sentir cá dentro…e dos pontapés e das noites em que a barriga não cabia na cama.
Tenho saudades do teu sorriso. E da tua voz. E da bola com que andavas metros inteiros. Até das cólicas que não me deixavam dormir, noites e noites.
Tenho saudades de olhar o espelho e não descobrir estas pregas parvas e embirrantes. E as riscas.
Tenho saudades de me lembrar de que cor era o meu cabelo, antes de concluir que não curto branco.
Tenho saudades de quando te toquei na mão, naquela noite no Bairro Alto e me puseste a mão sobre o ombro, à saída. Não tenho saudades das saudades que tinha de sentir uma mão no ombro.
Tenho saudades das noites inteiras sem dormir enquanto durou a viagem de finalistas do 5º ano.
Tenho saudades de não me esquecer dos aniversários e de não passar a vida à procura dos papéis que de certezinha mesmo ontem tinham ficado naquele lugar.
Tenho saudades de me sentar ao fresco no próximo Verão, no portal da casa da terra. E de me falares do chato do meu pai.
Tenho saudades de me sentar ao fresco, no próximo Verão, no portal da casa da terra. E de me falares da chata da minha mãe.
Tenho saudades de te ver chegar a casa, da janela, quando vens da escola. E de te ver sair quando partes. E de, quem sabe, teres mesmo que vender umas sandocas para ajudar a pagar a estadia no Porto, que o curso de Astronomia teima em ficar-se pelas margens do Douro.
Tenho saudades de olhar o espelho e ver mais umas tantas preguitas (se não for assim, itas, acaba, mesmo, por meter psicanalista…) e decidir pela enésima vez que é desta que vou para o ginásio.
Tenho saudades de voltar a sentir a tua mão na minha pele. E a minha na tua. E a tua boca. E o teu cheiro.
Ok, por enquanto as do futuro ainda contrabalançam. Bora aí esquecer as pregas (consegui!!! sem itas!!!).
Tinha saudades de escrever...
Publicado por Isabel Faria às agosto 31, 2006 11:10 PM
Comentários
É bom ter saudades. É sinal que há um passado bom.
Publicado por: Daniel Arruda às setembro 1, 2006 11:45 AM
É toda uma VIDA. É bom ter saudades do que se viveu. É sinal de que se estava alerta, de que valeu a pena, de que estamos empenhados e com força. Afinal a beleza de se ter deixado a adolescência é já se poder olhar para trás e não apenas para a frente.
Tenho uma amiga que quando lhe dizem
-"Aaah, tem X anos? Olhe que eu tirava-lhe uns dez!!!" responde sempre "Não tire, não tire que me fazem muita falta. Gosto muito deles!"
Publicado por: Emiéle às setembro 1, 2006 12:33 PM
Estou ao lado da Emiéle e do teu, até porque, para além das saudades que tenho do passado, já sinto "saudades do futuro".
Publicado por: José Palmeiro às setembro 1, 2006 01:10 PM