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agosto 02, 2006

Sem titulo

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Há dias em que as coisas que vemos todos os dias, nos tocam num sítio qualquer diferente. Com o tempo habituamo-nos a elas. Pansamos. Afinal, nem sempre assim é.
Tenho que passar pela morgue do Instituto de Medicina Legal todos os dias, quando saio de casa. De inicio fazia-me confusão. Muita confusão. Mas fui aprendendendo a conviver com isso.
Hoje havia seis carros funerários parados à porta. As portas estavam abertas. Todos já tinham as flores dentro. E esperavam. As flores, os carros e algumas pessoas que estavam por perto, esperavam. Nunca olho para os rostos de quem espera. Tenho um pudor enorme em fazê-lo.

Tenho a sorte de trabalhar perto da Maternidade Alfredo da Costa. De vez em quando tenho a sorte de ter pontaria com as horas das altas. Vou tentar hoje. Adiar a hora do café. Vai-me fazer bem ver as alcofas que trazem pela primeira vez à rua, os meus vizinhos acabados de nascer.
Assim costuma funcionar. Primeiro passar pela Rua do Instituto Bacteriológico e depois o jardim em frente da Maternidade. Ao contrário não. Isso desde que, a muito custo, me convenci que sou mortal que tenho cá dentro.
Nem vou precisar de ver seis alcofinhas. Uma chega. Apenas olhar um começo. E senti-lo.

De vez em quando encontro pessoas que me dizem que não têm medo de morrer. Têm medo de sofrer. Nunca consegui sentir isso. Tenho um imenso medo de já não ver a porta do carro aberta. De mahhã, quando passo ao Instituto, e ainda não fui ao jardim em frente da Maternidade, lembro-me que há alguns anos, me convenci que isso é bem capaz de acontecer um dia...

Já tinha chegado a estas linhas...não as vou agora apagar. Entretanto, por mais uns tempo, convenci-me que a gente também se engana...qual mortal, qual carapuça. Enquanto viver, não sou. Bastar um telefonema, para me lembrar isto, merece um agradecimento sentido ao Sr. Bell...pelo menos.

Publicado por Isabel Faria às agosto 2, 2006 09:28 AM

Comentários

SE puseres umas florinhas no Dr. Sousa Martins isso passa.....

Publicado por: a.pacheco às agosto 2, 2006 12:22 PM

A.Pacheco, sou demasiado ateia para isso...
Não passa por aí...é medo, mesmo...acho que é do escuro!!!! :))

Publicado por: isabel faria às agosto 2, 2006 12:42 PM