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agosto 14, 2006
Vou ver o Fu e mais o Ho
Quando o meu filho nasceu, muitas vezes, sentia falta de ter com quem partilhar os medos. Assim, altas horas da madrugada, quando, de repente, por uns minutos ele parecia ter parado de respirar…abanava-o docemente ( o docemente sou eu a dizer...o medo era tanto que não tenho nada a certeza que fosse docemente...) e já sabia. O João Pedro, que só tinha um sono pesado durante o dia, acordava de imediato. Eu tinha uma noite sem dormir pela frente, mas ele respirava…o não dormir não era assim tão importante.
Um dia tinha lido, numa das dezenas de livros e de revistas que me ensinavam que aos dois meses levantavam a cabeça, aos quatro faziam isto e aos quatro e duas semanas aquilo, um artigo sobre o sindroma da morte súbita…e o João Pedro nunca mais pôde dormir uma noite descansado, sem um abanão pelo meio. Nessas alturas, creio que teria sabido muito bem ter alguém que me ajudasse a dar o abanão…tipo dividir o resultado do dito, mesmo. E nada tinha a ver com partilhar a noite sem dormir…era mesmo só para aguentar os segundos até o abanão resultar…
Depois, ao longo dos anos, essa necessidade foi-se atenuando. Aprendeu a andar, a ficar em casa sozinho, a ir para a escola de autocarro…cada primeira vez era sempre um drama, as outras todas a seguir uma dramazinho mais miniatura, mas, a necessidade de partilhar isso, de pedir conselhos ou, apenas, que me ouvissem, atenuou-se de tal maneira que pensei mesmo que me tinha tornado autosuficientemente mãe.
O pior é agora. Usando uma linguagem popular, agora é que porca torce o rabo.
Passados estes anos todos, quem é que ia imaginar que voltava a precisar que me ajudassem a dar o abanão? E mais grave ainda, quem é que ia imaginar que quem tinha que levar o abanão seria eu?
Não têm sido dias fáceis. Há alturas em que sinto o meu filho ficar longe. Há coisas que deixou de partilhar. Fecha a porta da casa de banho para fazer a barba… Dou comigo a pensar que me trocou pela namorada e a ver-me já naquele papel das anedotas portuguesas em que há sempre uma sogra megera e rezingona que faz a vida negra às pobrezinhas das noras (normalmente é aos genros, mas aqui não dá…). Esta tarde dizia a um amigo que sinto que estou a perder o meu bebé.
Acabámos de ir buscar dois filmes ao clube de vídeo. Olha tu és uma chata, mas ainda bem que não me deixaste lá ficar mais um dia…tá bem que namoro um dia a menos, mas já tinha cá umas saudades duma cama a sério…e de te obrigar a ver um filme de artes marciais…
A pessoa onde ele passou o fim-de-semana, dizia-me, há pouco, ao telefone que o João Pedro era um miúdo tão arrumadinho…tão calmo…tão prestável…tão atento…
Cum caraças eu, às vezes, posso barafustar por ele cá não fazer a cama, e por eu o estar a chamar e não vir a correr…e por não me falar da namorada…e…por ter crescido. Mas uma pessoa gosta sempre de ouvir…já desde o primeiro ano que saía sempre inchada da escola…agora saio inchada do telefonema com a tia da namorada, que parece que já não foi e agora já é...pronto, apenas tenho que me habituar à mudança das fontes de….inchaço.
Nestes dias, difíceis porque tenho teimado em deles fazer um drama quase tão grande como a história do Sindroma da morte súbita e respectivo abanão, tenho sentido o bem que sabe poder colher informações abalizadas sobre o que é ser um puto e ter 16 anos…só conhecia a versão feminina da coisa e, confesso, essa lacuna tem sido das coisas mais complicadas de gerir… talvez nunca seja capaz de dizer como têm sido importantes e quanto me têm ajudado essas “informações”. Sobretudo porque são dadas sempre com aquilo que mais preciso de recuperar. A leveza das coisas simples. Como crescer, é. Ou ter um filho. E criá-lo.
Talvez nunca consiga dizer…Mas se algum dia conseguir terá que ser qualquer coisa como: porra pá, tenho dormido algumas noites à tua pala. E contrariamente àquelas alturas em que mais noite menos noite sem dormir, não vinha mal ao mundo…agora, a idade não perdoa. Cada vez que ouço o que se faz aos 16 anos, quando se é puto e se tem 16 anos…e comparo e sossego com a comparação…é mais uma hora de sono. O que equivale a menos uma ruga…Obrigado. Se algum dia conseguir dizer como me tem (me tens) feito bem, não me posso esquecer de agradecer as rugas…a menos.
Mãe, vens ou não vens???
Yap...
Vou ver um filme que presumo deva ter alguém com um nome Fu ou Ho...para desanuviar, diz ele..Para adormecer, receio eu. Mas seja para o que fõr...cabemos os dois no sofá novo. Viva!!!
Publicado por Isabel Faria às agosto 14, 2006 11:42 PM
Comentários
Assim sim, já gosto mais de te ler. Nota-se por aí mais confiança.
Publicado por: Daniel Arruda às agosto 15, 2006 12:25 AM
Estas coisas dos filhos, tem que se lhe diga!
Eu conheço uma parte do problema, ou melhor três partes, tenho três filhos, ou especificano, dois filhos e uma filha, todos diferenes, todos iguais, é obra, e não sei nada, estou sempre a aprender. Mas assim, de coração aberto, com a confiança, que baste, e uma boa dose de auto e hétero, confiança, a coisa vai lá. Força Isabel! o Homem, já te dezasseis anos!
Publicado por: josé palmeiro às agosto 15, 2006 08:34 AM
Estas coisas dos filhos, tem que se lhe diga!
Eu conheço uma parte do problema, ou melhor três partes, tenho três filhos, ou especificando, dois filhos e uma filha, todos diferentes, todos iguais, é obra, e não sei nada, estou sempre a aprender. Mas assim, de coração aberto, com a confiança, que baste, e uma boa dose de auto e hétero, confiança, a coisa vai lá. Força Isabel! o Homem, já te dezasseis anos!
Publicado por: josé palmeiro às agosto 15, 2006 08:35 AM
Lindo texto com não podia deixar de ser, vindo da Isabel. Já agora parabéns por ser destaque a Isabel e o Troll no DN hoje.
Publicado por: Fernando às agosto 15, 2006 12:15 PM
Daniel, a gente descobre essa confiança, ás vezes precisa de ajuda para isso...e sabe bem. Ainda bem que a consegui tranmitir no post.
José, bem amigo...isto multiplicado por 3???!!! bem, coitadinhos dos meus amigos...não faziam outra coisa senão ouvir as minhas crieses de autosufi~encia maternal!!! :))
Fernando, obrigado.
No DN, hoje? Eu e o Troll? Na semana passada saiu um bocadinho dum post meu sobre as Lajes. È isso? Ou tenho que me ir vestir para procurar o DN???!!!
Publicado por: isabel faria às agosto 15, 2006 12:31 PM
Olá Isabel, estou de volta e já me andavam a fazer falta estes teus textos.
Temos conversado sobre isso, né? (quero eu dizer, fóra dos comentários) Eu digo umas coisas, acho que 'sensatas' o que não quer dizer que não sinta muitas vezes exactamente o mesmo. Queremos ao mesmo tempo que eles cresçam - tem de ser e é bom - mas é uma pena 'perder-se' a criança que eles são/foram. Como o meu cresceu sempre por degraus (parecia estacionar num patamar e quando eu me habituava dava um salto para o outro patamar sem eu entender como tinha sido) eu sabia 'nos livros' que podia ser assim e NUNCA me habituei.
Mas um elogio de alguém de fóra é a coisa mais doce que pode haver. Ainda me aconteceu no outro dia e fiquei a sorrir como uma parva esse dia todo!
Publicado por: Emiéle às agosto 16, 2006 07:49 AM